Ela não me respondeu ainda, que m***a. Talvez ainda haja algum gatilho que seja necessário apertar, não sei. O jeito que estou-me comunicando pode estar piorando as coisas? Não sei, não sou acostumado em ter que pensar no que os outros estão pensando ou lidando. Ficar no lugar de alguém não faz você entender exatamente o que está acontecendo, mas sim trazer uma falsa impressão de compreensão. Tenho histórias sobre isso, com certeza! O que você sente, o que você vivenciou será seu e de mais ninguém. O que você conta só é mera informação para quem está ouvindo. Talvez sirva de inspiração ou para m***r o tédio, mas não será do jeito que você está sentindo. A prova? Bom... Eu e o meu luto, o luto da minha mãe e do meu irmão. Todo mundo dizia "meus pêsames", demonstravam respeito e até conversavam sobre. Outros citavam as suas perdas para demonstrar o quanto entendiam do que estávamos passando, e sério, talvez o comportamento da minha mãe tenho novidade, e conversar como se fosse especialista na perda não fez a menor diferença. Ela lidou do jeito dela, assim como eu lidei como tive que lidar: só e introspectivo. Quer saber como pode ajudar alguém? Cala a p***a da boca e escute. Talvez, assim como eu, só precisa fingir que tá escutando e deixar essas pessoas extravasarem tudo que precisa. Não precisa ser a p***a de um comentarista.
Mas retomando para o que está acontecendo agora, é fato que Marcela estava hesitando, e essa aparente marra que tenho não ajuda muito. Ela levou mesmo pro coração o que falei naquele dia? Quem sabe. Devo perguntar:
- Marcela, talvez eu tenha sido um idi...
- i****a? c*****o, você foi um grande i****a. Um exemplo de como ser um i****a, b****a.
- Wow, calma!
- Calma? Mano, você tem ideia do quanto confio em você? Acha que mais alguém sabe o que você sabe? Quero dizer, isso se você escutou de fato tudo que desabafei. Nunca se importou.
- O que você espera que eu fale ou faça?
- O mínimo?
- Não sei o que seria esse "mínimo". Falar "vai ficar tudo bem" sabendo nada ficará bem?
- Meu deus, tu não sente sequer remorso algum. Por que ainda pergunta como estou?
- Porque pelo que lembro, você não parece legal. Sabe, engraçado que você era bem conhecida quando éramos mais novos. Todo mundo queria estar ao seu lado. O que mudou?
- Quê?
- É sério, o que mudou? O que tem de diferente de onde estamos agora?
Ela ficou calada e demonstrou que de fato estava confusa com a minha pergunta. Não fui muito objetivo, porém a minha dúvida era pertinente:
- Acho que esse mundo tá preocupado com tudo, e principalmente do que foge da normalidade. Você é você mesma, mas não é como eles esperam que seja. Há pessoas que mentem tão bem que conseguem uma amizade equiparável, uma vida igual. Esse mundo é nojento e asqueroso, onde a preocupação de todos se baseia no que sai do que é um padrão. Se a maioria aceitar uma mudança desse padrão, se torna uma tendência. Não entende? Somos controlados pelo que decidirem de nós. Eu, você... E mais sei lá quem estamos sendo pressionados a ser alguma coisa decente. Falam de você porque não entendem que você conheceu a verdadeira liberdade: se aceitar.
Marcela parece estar mais confusa, fudeu. Acho que viajei legal aqui, hein, mas quis englobar as minhas palavras em tudo que ela desabafou. Pode parecer que foi algo profundo e extremo, mas fiz isso pensando no melhor. Será que ela entende? Ela está aos poucos desfazendo seu rosto de confusão e ficou pensando. Depois de alguns minutos caminhando - estamos perto de casa -, ela respondeu:
- Você então estava sempre ouvindo.
- Sim.
- Não entendo ainda o que mudou agora. Você nunca falava nada, estava sempre apático. Eu falava, falava e falava e eu me sentia uma i****a e sentia que tudo estava te confiando não passava de um drama adolescente.
- Nunca disse isso.
- Nunca precisou, Artur.
- Já disse o porquê.
- Então tu quis dizer aquilo mesmo naquele dia?
- Tá bom, reconheço que não sei respeitar a confiança que os outros têm em mim. Poderia ter dito algo menos rígido.
- Com certeza.
Chegamos em casa e... Bom, saí tão às pressas assim para deixar a porta aberta ou alguém invadiu? Não, não, jamais deixaria a porta aberta. Posso ser tudo, um b****a, um i****a, mas não desleixado. Talvez um desleixado, mas não, a esse ponto? Impossível. Segurei Marcela e cochichei "espera, não lembro de deixar a porta aberta". Ela ficou pálida, notei que ela ficou trêmula quando segurei a sua mão puxando-a para trás devagar. Em passos curtos, me distanciei com calma e pedi à ela para ligar para polícia. m***a! Francisco está lá, não posso simplesmente ficar aqui fora e esperar que polícia chegue aqui a tempo, mas não tenho capacidade de ser valente. Se é um roubo, há uma grande chance de ser apenas ladrões, mas se for alguém pronto para tudo, morrerei como um i****a valente como muitos que morreram assim. Há casos que sim, é justificável, mas se tem uma alternativa que trará resultados melhores, então faça. Nesse caso... Quem devo ser? Um medroso inteligente ou um i****a valente? Tomei uma decisão de m***a em deixar o meu irmão e a casa vulnerável, o infeliz provavelmente estava nos vigiando. Quer saber:
- EU SEI QUE NÃO DEIXEI A PORTA ABERTA! SEJA QUEM FOR QUE ESTIVER AÍ, PODE SAIR E... Quem sabe não haja um acordo, onde ambas as partes saiam ganhando...
Não ouvi nada de volta desses filhos da p**a, será que fizeram alguma coisa contra o meu irmão? m***a, m***a. Bosta, m***a, p**a que pariu. Por que esses sonhos inúteis não permitem com que eu olhe para tudo com mais detalhes?! Agora 1 milhão de coisas passam-se na minha cabeça, e não sei tirar uma delas para poder agir. Enquanto estava pensando aqui em ser a p***a de um medroso inteligente, as luzes se apagaram e... Pera, a luz que ficou acesa foi só onde o meu irmão ficou? Isso é aglo que eu... Espera. Mar... Cela? Cadê? Meu, o que está acontecendo? Isso aqui está bem mais confuso do que o esperado. Acho que um assalto era mais esperado. Certo? Meu deus, tem alguém saindo?? Quem... O que é aquilo?
- Oi.
Ele falou comigo, ela falou comigo, espera! Que p***a é essa?
- Não precisa se assustar... Ainda.
- O quê?
- Basicamente, aqui é onde você morre. Marcela sobrevive e com muitos traumas. Nesse momento, acontece muita coisa com ela, é terrível descrever isso. Só quem sai vivo é seu irmão. Parece que você não sabe de tudo mesmo. Isso não é um roubou, é retaliação. Sua mãe atraiu maus olhados.
- Eu vou morrer?!
- Por que está surpreso? Sabe, diante de muita coisa que aconteceu, ainda é fascinante quando vejo uma mente conectada ao mundo da Entre a não e a existência.
- Que?
- É confuso, eu sei, mas essas memórias não pertencem a esse mundo e você está se aproveitando dessa circunstância bagunçando tudo sobre o que é entropia, tudo sobre o que é tempo. A destruição é um acaso natural, ou um caso. Digo acaso porque não tem como programar isso. Pode acontecer agora ou depois. O tempo só tem uma direção, mas também tem algumas relativizações. Agora, por exemplo, você está exatamente diante de uma singularidade.
- Então você voltou no tempo?
- Ah... Acho que sim, mas foi só um pouco. Espera.
- Espera, mas que p***a? Você não sabe o que está fazendo?
- Relaxa, estamos alguns momentos antes de você sair. Você está na porta, prestes a sair e... - ele olhou envolta procurando por algo. Logo depois, apontou para um carro e disse - Ali! Aquele é o carro com 3 homens, e putz! Você está fudido, amigo. Diante da minha presença, estou permitindo que o tempo passe devagar para que você pense bem em no que fazer, mas só espero que não me decepcione. Senão acho que será capaz de arcar com o que vai acontecer.
Caralho... Era só o que faltava! Uma o quê? Singularidade?