Luíza Bernardi
Passei as últimas horas que ainda tinha de trabalho tentando entender o que aconteceu, o que um homem como o senhor Leonardo estaria fazendo em uma lanchonete como a do Pacheco, não fazia sentido nenhum, e porque ele ficou tão transtornado quando me viu aqui, será que tinha alguma política na Cesarini´s que eu desconhecia? Eu não poderia ter outro emprego? Será que ele informaria ao RH e me mandariam embora? Só de pensar já me dava um frio na barriga.
E para piorar a minha vida, daqui a três dias a minha dívida com o Bigodinho ia vencer, após ir a todos os bancos e todos me negarem um empréstimo, porque o meu nome está negativado, não sabia mais o que fazer, teria que "pagar de outro jeito" como ele havia dito, só de pensar em entregar a minha virgindade para ele, já me dava náuseas, desespero, só não fugia pela minha mãe que ainda estava muito doente.
Desço do ônibus, hoje nem consegui dormir no trajeto, não tenho sono já há alguns dias, procurando uma solução que sei que não virá, quando estou na esquina da minha casa vejo ele, meu terror em pessoa, Bigodinho, ele não fala nada, só fica me olhando de uma maneira lasciva, entro chorando em casa, minha vida vai acabar, tenho certeza que quando ele colocar as mãos em mim, serei só uma casca vazia, sem vida e sem alma.
Me levanto para mais um dia de trabalho, não dormi nada novamente, minha cabeça não para e eu sinto que terei um colapso a qualquer momento, vou até o quarto da minha mãe e dou um beijo nela antes de sair, ela está muito fraca por conta da quimio, mas assim que passar essa fase, sei que ela ficará melhor, já passamos por isso antes. Por ela eu me esforço para continuar em frente, vamos sair dessa, não importa como.
Estou a caminho da Cesarini´s, o meu coração está apertado porque estou com medo do senhor Leonardo me demitir, eu não posso perder esse emprego, apesar de não ter o adiantamento de 10 mil para daqui dois dias, estou juntando para adiantar o restante, porque se aquele d***o vai ter o meu corpo, será só uma vez, odeio pensar nisso, mas não tenho outra escolha, ele até ameaçou minha mãe caso não pague, não posso arriscar.
- Meu Deus amiga, você está um caco, nem o corretivo está escondendo as olheiras. - Nick me fala e eu penso no corretivo barato que já deve ter escorrido junto com as lágrimas, eu não tinha contado nada para ela sobre o agiota, não tive coragem, só quem sabia era Alana, que era minha amiga de longa data.
- Não consegui dormir direito, ontem não sei por qual ironia do destino o senhor Leonardo apareceu para tomar uma cerveja na lanchonete que eu trabalho depois que saio daqui. - Falei para ela que me olhou espantada - E o pior é que ele segurou o meu braço e ficou muito irritado em me ver lá, falou algo sobre trabalhar muitas horas, não entendi direito porque na hora fiquei desesperada e com medo de ser demitida. - Solto tudo de uma vez, com o rosto pegando fogo de nervosismo.
- Nem sei o que dizer Lu, desconheço alguma cláusula que impeça os funcionários daqui a ter outro emprego, inclusive conheço mais duas pessoas com outro emprego.
- Eu também não lembro de terem falado nada, mas eu estou com medo, preciso desse emprego e ele parecia furioso.
Passo o tempo todo imaginando que a qualquer momento alguém do RH irá me chamar para me demitir, estou exausta, mas sigo firme, quando chega a hora de levar o café para o senhor Leonardo, estou suando frio, não sei qual será sua reação, bato na porta, peço licença e entro em sua sala, então paro e começo a tremer ainda mais, ele não está sentado, e sim em pé encostado em sua mesa.
- Pode entrar senhorita Luíza - Fico ainda mais nervosa, porque ele nunca havia me chamado pelo nome antes, então fico parada olhando para ele com a bandeja tremendo na mão - Pode colocar a bandeja aqui na minha mesa. - Ele diz com calma.
Ando com calma na direção da mesa com cuidado para não derrubar a bandeja, estou tremendo muito e quando estou nervosa posso ser um desastre, coloco com cuidado em sua mesa, me viro para fazer minha pergunta de todos os dias. - O senhor deseja mais alguma coisa?
Eu olho para ele que está me olhando fixamente, ele não responde, então começo a andar em direção a porta, quando ouço ele falar; - Paguei sua dívida com o Bigodinho - Imediatamente me viro para ele não acreditando, será que foi um delírio? - Desculpa o que o senhor falou?
- Eu disse que paguei sua dívida com o agiota que estava te ameaçando - Ele diz me olhando fixamente - Eu só peço para que tenha cuidado, essas pessoas são realmente perigosas, mas você não precisa mais se preocupar com esse tal de Bigodinho.
- Co...como o senhor sabe - Falo gaguejando sem entender direito. - Eu não estou entendendo como você ficou sabendo? - Pergunto com a voz mais firme.
- Não importa como fiquei sabendo Luíza, o que importa é que ele não vai mais te perturbar e você pode voltar a dormir tranquila.
E em um ato impensado depois de muitos dias sem dormir, eu me jogo em seus braços agradecendo e chorando - Obrigada senhor Leonardo, eu prometo que vou te pagar tudo, pode descontar direto do meu salário, eu trabalho de graça onde o senhor quiser para quitar essa dívida com o senhor. - Dou uma fungada nada elegante e ele me estende um lenço, muito macio e com seu cheiro maravilhoso.
- Outra hora falamos em pagamento, agora pode ir Luíza - Ele diz, e eu saio de sua sala muito mais leve, mas como será que ele ficou sabendo? Sei que vou descobrir mais cedo ou mais tarde.
Na hora de ir embora, eu estava extremamente cansada, não sei como vou terminar meu turno no Pacheco, mas vou ter que tirar força de algum lugar.
Quando estou saindo do prédio da Cesarini´s, alguém segura meu braço e quase infarto - Me larga, puxo meu braço e empurro a pessoa que está me segurando. - Senhor Leonardo? Me desculpe o senhor me assustou.
- Nossa você é forte - Vejo ele esfregando onde empurrei ele. - O quê o senhor está fazendo aqui? pergunto, porque aqui é a saída dos funcionários. - Vim te levar para almoçar, precisamos conversar, eu tenho uma proposta de emprego para você.
Por um momento me deixar levar pelo convite para almoçar, depois percebi que ele estava falando de trabalho, é claro, eu tinha uma dívida com ele.
- O senhor não precisa me levar para almoçar para falarmos de trabalho, e eu ainda tenho meu turno na lanchonete, não posso demorar.
- Eu falei com o senhor Pacheco, pedi para ele te liberar hoje. - Olhei para ele assustada, ele levantou a mão me impedindo de falar algum coisa. - Fique tranquila, se você não aceitar minha proposta, pode voltar a trabalhar lá. - Apenas assenti.
Ele foi andando até um carro muito bonito e grande, parado no meio fio, abriu a porta para mim e fiquei com medo até de me mexer, se eu quebrasse algo teria que vender meu rim.
Ele entra todo elegante do lado do motorista e nossa, ele é extremamente gostoso, o cheiro dele ali dentro é ainda mais forte, e eu estou sem entender nada. - O senhor vai me levar em um restaurante? - Ele assente. - O restaurante é seu e quer que eu faça um teste para garçonete? Ele n**a. - O senhor está me deixando nervosa.
- Luíza eu preciso te fazer uma proposta muito séria, mas não vou fazer enquanto você não comer alguma coisa, para ter certeza que não vai desmaiar - E dá um meio sorriso lindo, mas muito breve, será que eu vi mesmo ou minha mente está me pregando uma peça?
Fico em silêncio até chegarmos ao restaurante, que aliás é muito refinado. - Não sei se estou vestida adequadamente senhor Leonardo. - Estou com uma calça jeans velha, que eu amo, uma blusinha regata branca e meu tênis velho, então ele me olha de cima abaixo e me fala. - Qualquer coisa que vestir fica bem em você Luíza, confia em mim. - E pronto, eu tive um mini infarto.
Sentamos em uma mesa, que reparei ser bem reservada, fiz como ele pegando o guardanapo de pano e colcando no colo, logo um garçom chegou com os cardápios, o senhor Leonardo pediu o de sempre, seja lá o que for e eu disse que queria o mesmo, porque com certeza eu não saberia o que pedir.
Quando o garçom chegou com nossos pratos, fiquei encantada, nunca tinha visto um filé tão bonito, e os legumes, me esforcei para não parecer esfomeada, já minha barriga já estava roncando, peguei com delicadeza o garfo e a faca, e cortei um pedaço, quando coloquei na boca, não pude conter um gemido, nunca havia comido uma carne tão gostosa, olhei sem graça para o senhor Leonardo, percebendo que gemi alto, ele estava me olhando intensamente, corei e abaixei minha cabeça novamente.
- Luìza, agora que você já está alimentada, preciso fazer minha proposta. - Olho para ele prestando atenção, afinal estou muito curiosa.
- Você sabe que sou um homem de negócios, então vou direto ao ponto, como você já deve ter ouvido falar na empresa, meu pai vai se aposentar, e para que eu consiga ser o CEO, preciso de uma noiva, e quero pedir para que seja você.
Nesse momento, eu estava levando o copo com água à boca e cuspi tudo, comecei a tossir loucamente, o senhor Leonardo veio para meu lado me dando tapinhas e pedindo para eu respirar.
- Vo...quer dizer...o senhor quer que eu seja sua noiva?
- Sim, mas não de verdade, quero te contratar para ser minha noiva, só de aparência, o mundo acharia que você é minha noiva, e depois de um ano, nosso contrato acabaria e cada um viveria sua vida como bem quiser, sua vida mudaria e eu também iria gaarantir que sua mãe recebesse o melhor tratamento para o caso dela.
- Como o senhor sabe da minha mãe? Como sabia do agiota? - Pergunto sem entender.
- Eu fiz meu dever de casa Luíza.
- E o senhor me pagaria para ser sua noiva? - Ele assente, e eu fico chocada. - Eu não sou uma prostituta senhor Leonardo.
- Sei perfeitamente que não é, nós não precisamos fazer nada se você não quiser, só temos que fingir, ir à locais públicos, festas, algumas viagens essas coisas.
- Mas eu trabalho, em dois lugares, não posso viajar - Falo como se estivesse pensando alto.
- Você teria que sair dos empregos, mas eu faria ser muito vantajoso para você.
-E o senhor pagaria o tratamento da minha mãe?
- Sim, e te pagaria 100 mil reais por mês durante 12 meses, totalizando um milhão e duzentos mil.
Meu queixo cai, eu fico esperando entrar um camera e um apresentador gritando que aquilo era pegadinha, mas isso não acontece, no restaurante todos almoçando tranquilamente, alheios ao que estava acontecendo naquela mesa.
- Mas isso é uma fortuna, porquê o senhor não arruma uma noiva de verdade?
- Porque não quero me amarrar Luíza, não sou homem para ficar preso, depois que conseguir o que quero, vou ser livre novamente, e acredite, uma noiva de verdade me faria gastar muito mais. - Ele fala e pisca para mim.
- O senhor está brincando comigo? Acho que isso é uma brincadeira de mau gosto.
- Eu não estou brincando Luíza. - Aviso à ela - Eu estou falando muito sério.
- Deixa eu ver se entendi direito - Me inclino em direção a ele. - Você quer que eu finja ser sua noiva por um ano e vai me pagar um milhão e duzentos mil e o tratamento da minha mãe por isso, apenas em horários específicos e no restante do tempo eu posso fazer o que eu quiser? E eu não vou precisar f********o com você de jeito nenhum?
- Exatamente - estou tão chocada que só consigo rir e negar com a cabeça, então eu penso; - Porquê não? O que eu tenho a perder?
- Eu aceito senhor Leonardo. - Percebo que ele está pronto para contra argumentar, mas para com a boca aberta, me olhando com espanto, para logo depois dar o sorriso mais bonito que eu já vi na vida.