Leonardo Cesarini
Hoje bateu um pouco de desespero, já faz quase duas semanas que estou a procura de uma "noiva", falei com duas das mulheres que eu costumo sair, que são do meu círculo pessoal, uma ficou extremamente chocada e disse que não quer se amarrar, nem por todo dinheiro que eu possa oferecer, afinal de contas ela também tem muito dinheiro, a outra disse que aceitava, que eu não precisava pagar e no final eu ia querer casar com ela de verdade, não preciso nem dizer que saí correndo, a última coisa que preciso é mulher insistente no final do contrato que ameace contar tudo para o conselho, no fim eu dei risada disse que era uma brincadeira, não posso arriscar.
Agora estou aqui sentado no meu escritório, sem conseguir trabalhar direito, não posso contratar ninguém do meu círculo pessoal, preciso de alguém que realmente esteja precisando desesperadamente de dinheiro, assim eu e ela podemos fazer um ótimo acordo para ambas as partes.
Ligo para o Angelo, querendo algum sábio conselho, que muitas vezes não posso seguir, mas pelo menos ele me alegra um poquinho.
- Fala meu brother, e aí já achou sua mulher ideal? Você não acredita que a Karina veio me perguntar se você estava precisando de uma noiva, você precisa tomar cuidado, senão daqui a pouco todos vão ficar sabendo do seu plano. - Ele me alerta preocupado - você não pode tentar com nenhuma dessas minas do nosso círculo, precisa achar alguém que realmente precise de dinheiro.
- Cara, não sei o que fazer, onde vou arrumar uma mulher desesperada por dinheiro? Só conheço as patricinhas das baladas que a gente curte, e a maioria tem dinheiro. - Estou muito desesperado.
- Mais tarde eu vou passar aí e a gente vai em algum lugar mais simples, aposto que se conhecermos algumas pessoas você vai achar o que tanto procura.
- Beleza cara, vou aceitar porque não sei mais o que fazer, mais tarde a gente se vê então. - Me despeço já desligando o telefone.
As nove horas como sempre a mocinha que me trás o café bate na porta.
- Com licença senhor Leonardo, vim trazer o seu café. - Ela tem uma voz doce e suave, gosto de olhar para o rosto dela, tem um rosto muito angelical, ela sempre fica muito corada quando fico olhando para ela. - Deseja mais alguma coisa senhor? Ela sempre faz essa pergunta, acho que gosta da minha resposta de sempre. - No momento não. - E como sempre essas palavras parecem combustível para as pernas dela, que sempre sai apressada.
Meu pai está me sondando desde a reunião, onde ele disse que se aposentaria em seis meses, ele vem até minha sala, senta sempre com conversas sem sentido, ele pensa que eu não estou percebendo.
- Então senhor Theodoro, o senhor pode me dizer porquê fica me sondando todos os dias? Pergunto a ele que parece ficar um pouco sem graça.
- Estou preocupado filho, o pessoal do conselho está muito certo de que o Lorenzo seja o melhor para a empresa, eu sei que esse é seu sonho, mas não posso ir contra o conselho - Ele diz demonstrando toda a sua preocupação, e no ímpeto de acalmá-lo, eu digo; - Não esquenta pai, eu ia falar para o senhor, mas ainda não tive a oportunidade, eu estou namorando. - Ele me olha desconfiado, eu nunca namorei ninguém, mas mantenho minha postura, com o rosto sereno.
- Leo isso é sério? Ou você está tentando nos enganar? - O velho sempre foi astuto. - Quando vou conhecê-la?
- Eu vou levá-la ao evento beneficente no final da próxima semana, assim poderei apresentá-la a todos. - Eu falo já entrando em desespero.
- Muito bom meu filho. - Ele fala dando tapinhas nas minhas costas. - Vou aguardar esse evento ansiosamente, e sua mãe com certeza vai ficar muito contente com isso. - Ele sai da sala e me deixa ainda mais frustado com toda essa mentira.
As sete da noite, Angelo me manda uma mensagem que está me esperando na porta da empresa, desço e encontro ele.
Cumprimento ele e já vou perguntando para onde vamos. - Hoje nós vamos conhecer novas pessoas e procurar sua "noiva".
- Cara agora eu preciso arrumar uma namorada até o final da semana que vem. - Ele me olha assustado. - Vou te contar o que aconteceu hoje, me enrolei todo com meu pai. - E assim começamos a caminhar pelas ruas da Paulista.
Entramos em uma travessa e avistamos um lugarzinho parecia ser legalzinho e estava relativamente cheio, o nome é Lanchonete do Pacheco, achamos interessante e resolvemos entrar. Assim que entramos, chamamos muita atenção, muitas pessoas se viraram para nos olhar. - É meu amigo, acho que para vir em uma lanchonete assim, temos que nos vestir mais informal. - Falei me referindo ao nossos ternos caros.
Sentamos em uma mesa e uma moça veio nos trazer o cardápio, mas pedimos apenas uma cerveja para nos enturmar, afinal naquele tipo de lugar, não teria a bebida que costumamos beber no clube.
- E isso aí agora vamos arrumar uma mulher trabalhadora, que esteja totalmente endividada e solteira, mas que seja bonita, vai ser moleza - Angelo fala me deixando cada vez mais sem esperança.
Eu olho para perto do balcão e vejo uma moça, ela está com uniforme da lachonete, e fico com a sensação de que a conheço, mas não é a moça que nos atendeu, como eu posso ter essa sensação, nunca vim nesse lugar antes, então ela vira e seu olhar encontra o meu, e ela cora e então eu a reconheço. - p**a merda, o que ela faz aqui? - Meu amigo segue meu olhar e pergunta; - Quem é ela? - É a moça que me leva café toda manhã.
Vou até ela sentindo um aperto no peito, p***a já são oito horas da noite, significa que essa moça está trabalhando a mais de doze horas, como é possível, ela vê que estou me aproximando e fica assustada, faz menção de sair dali então seguro o seu braço.
- O que você está fazendo aqui? - Pergunto a ela um pouco ríspido demais, ela fica totalmente vermelha e me olha com os olhos cheios de lágrimas, então solto seu braço e suavizando minha pergunta - O que você está fazendo trabalhando aqui? Você já não trabalha na minha empresa? - Não sei poque estou me sentindo tão irritado.
- Me desculpe senhor Leonardo - Ela diz parecendo desesperada - No meu contrato não estava escrito que não poderia trabalhar em outro lugar, eu sempre cumpro o meu horário direito, um não interfere no outro, não me mande embora por favor, eu preciso muito desses dois empregos. - Ela segura minha mão implorando e as lágrimas escorrendo.
Sinto uma vontade estranha de acalmá-la - Calma, eu não vim aqui para te demitir, só fiquei chocado porque sei que se horário na Cesarini´s inicia as seis da manhã e já são oito da noite, isso quer dizer que você está a mais de doze horas trabalhando, ninguém deveria ficar tantas horas trabalhando, que horas você costuma terminar seu expediente aqui? Pergunto e ela fica desconfotável, largando minha mão ela fala. - Não tenho um horário fixo, mas nunca ficamos até depois das onze. - Ela me diz e fico sem saber o que dizer, então apenas assinto e volto ao meu lugar, para continuar tomando minha cerveja.
Angelo, que assistiu toda a cena de longe me pergunta assim que eu volto ao meu lugar. - O que aconteceu cara, não entendi nada do que aconteceu ali.
-Angelo a moça trabalha praticamente dezessete horas por dia, ninguém deveria trabalhar tanto assim todos os dias, isso é descabido, todos os dias ela me leva o café, ela sempre corada, e tem algo mais no seu jeito de andar, que agora eu posso afirmar que é cansaço - Esclareço para ele, sentindo uma irritação enorme, que eu nomeio como empatia é claro.
Ele me olha sorrindo de orelha a orelha, e eu fico muito irritado. - Por que vocçê está sorrindo seu babaca?. Ele me olha com as mão para cima em forma de rendição ainda sorrindo.
- Cara você não percebe? Acabamos de encontrar sua "noiva", se ela está trabalhando tantas horas por dia, se encaixa perfeitamente no que estamos procurando, uma mulher com problemas de grana e muito bonita por sinal. - Olho para meu amigo e depois olho para a moça cansada do outro lado do balcão, e penso que pode dar certo.
Assim que saí da lanchonete, fui até a empresa novamente, acessei os dados dos funcionários e me deparei com os dados da Luíza Bernardi, ela tem apenas 21 anos, mora no Itaim Paulista com sua mãe, ligo para o Carlos, meu detetive particular e peço para que ele levante tudo sobre a Luíza, ele disse que em uma hora me passa todo o dossiê, desligo o notebook e vou para casa aguardar o telefonema dele, será que posso fazer isso, ela iria aceitar, todas essas dúvidas pairam em minha cabeça.
Atendo o celular no primeiro toque - O que você descobriu? Pergunto apoiando os braços no tampo da mesa, onde está depositado meu whisky.
-Que a garota tem uma vida fodida. Afinal quem é ela?
-Não interessa, o quanto exatamente fodida?
- Dívidas em muitos bancos, contas zeradas, nome negativado, cheques sem fundos...
- p***a, passo a mão pelos cabelos curtos e penso em seu rosto delicado, cabelo ruivo, não sei se é médio ou comprido, porque só a vi com aquelas toucas de trabalho e preso em um coque, olhos cor de mel, nariz pequeno e arrebitado, uma boca volumosa e rosada, a pele muito branca. Pela primeira vez admitindo para mim mesmo, que sempre gostei de olhar para o rosto dela porque ela é simplesmente linda.
- E essa nem é a pior parte, de acordo com conversas de w******p que interceptei, ela está devendo para um agiota do bairro, chamado Bigodinho, o sujeito é conhecido por ser um pervertido, fica mandando mensagem dizendo que se ela não pagar os 10 mil de adiantamento pelo que deve, vai fazer ela pagar de outra maneira, se é que me entende.
- p**a QUE PARIU - Grito alto, assimilando as informações, imaginando como ela deve estar em pânico.
- E ainda tem mais. - Ele diz e eu fico alarmado, o que mais poderia ter? - A mãe dela tem câncer de mama, por isso ela pegou o dinheiro com o agiota, foi para segunda cirugia, a doença se alastrou para o outro seio e ela teve que operar novamente.
- p***a, mas agora acabou né? Não tem como ficar pior - eu falo e ele fica em silêncio. - p**a que pariu, fala logo Carlos. - A divida dela com o agiota vence em três dias. - Fico em choque e ele pergunta. - E então?
- Então o quê?
- O que você vai fazer com essas informações, quase doei um dinheiro para a menina, mas não sabia o que você queria, achei melhor esperar.
- Eu vou contratá-la e pagar sua divida com esse agiota trambiqueiro e asqueroso.