Notas proibidas

1008 Words
NARRAÇÃO DE BELA... Eu já estava nervosa. Parecia que todos ao meu redor sabiam o que fizemos; bastava olharem dentro dos meus olhos: empregados, tios, minha mãe, Julie, Lucas… Mas acredito que isso se tratava da culpa juntamente com a consciência. Eu perdi a virgindade… Foi assustador no começo, mas Kaito foi um lorde. Não me surpreende, é claro… Sempre foi um cavalheiro e transformou a dor em prazer em pouco tempo. A parte mais difícil, certamente, foi vê-lo descer as escadas carregado de angústia. Seus olhos diziam muito. A dúvida c***l se acendeu dentro de mim. Olhei em direção ao escritório; tudo me fazia sentir que fomos descobertos… Tentei me distrair vendo fotografias com Julie na sala, mas bastou Kaito partir… Apressei-me, subi as escadas e segui para o escritório. Queria apenas me certificar de que meu pai não tivesse descoberto algo ou machucado meu Kaito. Abri a porta sem pedir permissão. Lá estava ele, sentado em sua poltrona, fumava e escrevia… Cocei o cenho quando seus olhos se ergueram para mim. — Oi, filha… — Oi, pai. Está tudo bem? — Está, sim… — Ele sorriu sereno. Eu iria sair, mas a insegurança ainda gritava. — O que está fazendo? — Apressei-me até sua mesa. Ele suspirou, relaxando na poltrona. — Escrevendo uma carta, tentando consertar os erros do passado. — Fiquei intrigada e me sentei em uma cadeira, ficando mais próxima. — Que erros são esses? — Por que quer tanto saber, Bela? — Ele riu, fechando a carta. — Desde quando se importa com as coisas que faço? — Porque fiquei curiosa. Seo-Jun foi embora, parecia triste. — Ele parou de sorrir e olhou para a carta. — Tenho compartilhado algumas memórias do passado. Ele é um bom amigo. Leu quando feri meu inimigo em sua pior fase. Bom, se eu soubesse que ele tinha perdido a mãe naquele dia, não o teria machucado. Na verdade… se soubesse da verdadeira história, nunca o teria agredido naquele dia. Mas é uma longa história… Você não vai querer saber. — É o Dom da Máfia Francesa. Seo-Jun comentou. — Meu pai suspirou, esfregando os dedos nos olhos. — É mais complexo do que imagina… Mas… — Ele parou e me analisou. — Você está bem? — T-tô. Por que não estaria? — Sorri, nervosa. — Parece diferente. Bom, eu já terminei de escrever a carta. Poderia entregá-la ao mordomo, por favor, filha? Ele sabe o que fazer. Estou cheio de trabalho agora. — Estendeu a carta para mim. Peguei-a como se fosse ouro. Saí correndo do escritório, claro. Tranquéi-me no banheiro e a abri, querendo ser a primeira a ler. “Dom Louis, eu não sabia disso. Sinto muito. Naquela época, nós dois enfrentamos a dor de perder nossas mães e apenas nos enxergamos como inimigos. Não vi o que de fato estava acontecendo, mas isso não anula as vezes em que você me feriu gratuitamente. Os constrangimentos, as vezes em que encheu meu armário com coisas sujas… Quer que eu refresque sua memória? Você e seu grupo aguardaram eu ficar sozinho, me carregaram à força para o banheiro e mergulharam minha cabeça no vaso até eu perder os sentidos. Acordei sozinho no box do banheiro, sentia-me humilhado demais. Chorava desejando matá-lo. Aqui não existe vilão ou mocinho, apenas duas pessoas feridas. Não quero sua amizade, está longe disso… Mas quero marcar um encontro, frente a frente, para falarmos sobre o nosso passado e reconhecermos os erros. Se acaso não quiser esse encontro, então encerra-se aqui e vá para o inferno.” Bufei… Saí do banheiro irritada. Papai precisa mandar ir para o inferno?! Fui até o meu quarto, peguei uma caneta e risquei a parte em que mandava o pai de Kaito ir para o inferno. Nada estava fácil. Entreguei a carta ao mordomo, como meu pai pedira. Depois liguei para Kaito. Ele demorou a atender e comecei a me sentir insegura — medo daquela história acontecer comigo: depois de me entregar, o rapaz some… Respirei aliviada quando atendeu na segunda chamada. — Oi, meu amor… — Como você está? — perguntei. — Melhor. Conversei com meu pai. Não é fácil, Bela… Eles se odeiam profundamente. — Isso é verdade… Seu pai afundou a cabeça do meu pai dentro do vaso sanitário. — Oi?! — Sim. Você vai ver. A carta já saiu daqui e em breve chegará às mãos dele. Por favor, Kaito, aconselhe seu pai a aceitar esse encontro… Não são mais dois adolescentes. São adultos, pais, é outra história… Eu preciso muito que essa reconciliação aconteça, pois não estou aguentando mentir todos os dias… — Eu também não. Vou convencê-lo. Vai ficar tudo bem. — Te vejo amanhã na escola? — perguntei, segurando o riso. — Certamente. Estou com saudades. Quero te encontrar na sala do piano. — Eu vou. — Mordi os lábios, com o coração disparado. Bastava aceitar mais um encontro proibido… O pior é que estou ficando viciada… Despedi-me dele. A noite foi tranquila. Julie quis dormir em meu quarto naquela noite; ainda assim, não tive coragem de dizer que não era mais virgem. Existia uma timidez misturada com culpa, como se fosse um enorme pecado falar aquilo em voz alta. A manhã seguinte seguiu a mesma rotina. Saí de casa odiando o frio. Lucas me deu carona até a escola… Ele, é claro, foi direto ao encontro de sua namorada. E eu olhei para o prédio sentindo um enorme frio na barriga. Caminhei até a sala do piano. Conforme me aproximava, segurava o riso, pois a melodia ecoava pelo corredor. Ao abrir a porta, Kaito se virou e sorriu, fazendo meu estômago se encher de borboletas. Encostei a porta e fui até ele. Kaito estendeu a mão ainda sentado; segurei-a, e ele me fez sentar em seu colo. Olhamos dentro dos olhos, e o frio na barriga cresceu. Kaito aproximou o rosto e beijou-me com carinho — um beijo lento, de língua, um perfeito passo para começar o dia. Mas esse beijo… ah, esse beijo específico teria consequências.
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