📖 Capítulo 2
Ricardo
No morro, ou você manda… ou você obedece.
Eu nunca gostei de obedecer.
Meu nome é Ricardo Almeida, tenho trinta anos e, aqui na Maré, sou dono de tudo o que você enxerga. Não importa se é beco, barraco ou boca de fumo. Nada acontece sem que eu saiba. Nada muda sem que eu permita.
Nasci e cresci aqui. Filho de mãe cansada e pai que desapareceu antes mesmo de eu aprender a falar. Aos doze anos, eu já tinha entendido que ninguém vinha me salvar. Comecei como vapor, vendendo o que cabia no bolso e correndo das sirenes. Mas eu observava. Sempre observava.
Aprendi rápido que força sem cabeça é desperdício. Enquanto os outros se matavam pelo dinheiro do dia, eu fazia conta, estudava rota, contava munição. Subi de posição porque sabia resolver problema sem chamar atenção. E quando o antigo chefe caiu — três tiros nas costas e um traidor dentro da própria casa — eu não chorei. Eu tomei o lugar.
Não precisei pedir. O respeito já era meu.
E desde então, eu comando.
Moro no alto do morro, na casa mais imponente da favela. Três andares, vidro fumê, muro alto e portão de ferro. Quem olha de baixo, sabe que ali mora quem manda. E é assim que eu gosto.
Moro sozinho. Não preciso de ninguém no meu pé. Só a Katy, que limpa a casa e mantém tudo no lugar. Ela entra muda e sai calada. Aqui, ninguém mete o nariz onde não é chamado.
Nunca namorei. Mulher, pra mim, é diversão temporária. Eu sei que a maioria só vem por causa do dinheiro, do poder, do que eu posso dar. Então eu dou o que elas querem, e depois mando embora. Nenhuma dormiu nessa casa. Nenhuma.
Até aquele dia.
Fui cobrar a Marlene, uma viciada que já devia fazia tempo. O valor não era alto, mas dívida velha é igual comida estragada: fede, atrai mosca e estraga o ambiente. E no meu mundo, exemplo r**m se paga caro.
Cheguei na casa dela com dois dos meus. A porta estava aberta, o cheiro de cachaça e pedra queimando no ar. Ela riu quando me viu, como se não tivesse uma arma apontada pra cara dela.
— Você tá me devendo, Marlene — falei, calmo. Sempre calmo. — E você sabe que eu não perdoo.
Ela nem piscou.
Olhou por cima do meu ombro e disse:
— Leva minha filha. A dívida tá paga.
Eu achei… interessante.
Não é todo dia que você vê uma mãe vender a própria filha sem derramar uma lágrima. Admirável, de um jeito podre. Mostra o quanto o ser humano é capaz de se livrar de um peso.
E aí ela entrou.
A menina.
Roupas largas, cabelo preso de qualquer jeito, mochila nas costas. Cansada. O rosto pálido, sem maquiagem. Feia, se você perguntar pros homens que vivem caçando mulher bonita. Mas tinha algo ali… uma tristeza que pesava no ar, misturada com um orgulho silencioso.
Ela não chorou. Não pediu. Não implorou.
Só me olhou.
Eu levei.
E, naquele momento, ela passou a ser minha.