Capítulo 7

1016 Words
📖 Capítulo 7 Ricardo A noite caiu enquanto eu ainda resolvia a confusão da carga. O calor dentro da boca de fumo era sufocante, mesmo com as paredes recém-pintadas e tudo limpo. Quando já estava me preparando pra ir embora, chegaram três mulheres. Dessas que aparecem de vez em quando, rindo alto, se esfregando, tentando chamar minha atenção como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Eu conhecia bem esse jogo. Vinham maquiadas, com roupa curta, cheirando a perfume barato e intenção cara. Achavam que, por eu ser o dono do morro, era só deitar na minha cama pra garantir uma vida mansa. Eu nunca me enganei com esse tipo. Não quero mulher pra me prender com filho. Não quero mulher mexendo no que é meu. Então, eu me protejo. Sempre. Elas tentam, algumas até choram depois que percebem que não conseguiram me prender… mas não existe essa brecha comigo. Pra mim, mulher é diversão, não compromisso. E diversão tem prazo de validade: uma noite, no máximo duas. Depois disso, eu mesmo trato de sumir antes que elas comecem a criar expectativa. Naquela noite, deixei que ficassem. Bebi, ri um pouco, e quando a madrugada já estava avançada, escolhi uma delas pra me aquecer. Não era amor, nem carinho. Era só desejo, e isso eu sabia controlar muito bem. Quando tudo acabou, encostei no sofá da sala dos fundos e apaguei ali mesmo. O barulho distante das motos subindo o morro foi a última coisa que ouvi antes de cair no sono. Ainda estava no meu sono leve quando ouvi a gritaria. Voz de mulher bêbada ecoa longe, ainda mais dentro da boca de fumo. Abri os olhos, respirei fundo. Olhei no relógio de pulso: três e quarenta e dois da manhã.
Suspirei. Mulher bêbada sempre dá trabalho. Levantei devagar, puxei a camisa preta do encosto do sofá e vesti. No corredor, o som estava mais alto — duas das que tinham chegado horas antes estavam se empurrando, xingando, quebrando copo. — Cala a boca, p***a — falei, entrando na sala com calma. Minha voz não precisou subir. Quando eu falava baixo, era pior. Uma delas, de vestido justo vermelho, tentou se explicar:
— Ela que começou, Ricardo… Levantei a mão e ela calou na hora.
— Vocês tão aqui pra se divertir, não pra fazer circo. Quer brigar, vai pro asfalto. Aqui é minha casa, minhas regras. A outra, com um copo de cerveja pela metade, resmungou alguma coisa. Dei um passo à frente, encostei no queixo dela e a fiz olhar pra mim.
— Fala mais alto, pra eu decidir se você desce a pé ou deitada. O silêncio caiu de repente. Uma das meninas abaixou a cabeça, a outra largou o copo. Eu odiava perder tempo com drama. No meu mundo, quem não sabe se comportar não fica. — Some daqui antes que eu mude de ideia — falei por fim. Um dos meus homens já estava na porta, pronto pra levá-las embora. Voltei pro sofá, mas o sono já tinha ido embora. Peguei um cigarro, acendi, e fiquei olhando a fumaça subir. Era por isso que eu não me prendia a mulher nenhuma. Sempre acaba em confusão. Depois que as duas saíram, a boca ficou em silêncio, só com o som das motos lá fora e do ventilador girando devagar no teto. Léo apareceu vindo do corredor, calça jeans, camiseta preta, cara de quem também tinha acabado de acordar. — Vi a confusão daqui — ele disse, se jogando numa cadeira. — Tava com cara de que ia dar r**m. Dei de ombros. — Mulher bêbada é assim. Falam demais, fazem merda. Ele riu baixo. — E você sempre dá um jeito de cortar no começo. Acendi outro cigarro. Léo sabia que quando eu fumava muito, era porque minha cabeça estava trabalhando. E minha cabeça estava na garota que agora estava lá em cima, na minha casa. Vitória. — E a novata? — ele perguntou, como se lesse meus pensamentos. Olhei pra ele, soltando a fumaça devagar. — Tá lá. Katy levou umas roupas, uns produtos pra ela. Quero ver se para de andar parecendo mendiga. Léo arqueou a sobrancelha. — E aí? Qual vai ser com ela? — Nada — respondi rápido. — Pelo menos não por enquanto. Ela vai ficar até a dívida da mãe estar paga. Vai fazer o que eu mandar, e não vai me dar trabalho. — Cê acha que ela vai aguentar? — ele perguntou. — Se não aguentar, aprende. — Cruzei os braços. — Não tenho paciência pra frescura. Ela é diferente, dá pra ver… não é dessas que ficam se jogando pra cima. Mas se tentar me passar a perna, vai descobrir rapidinho como eu lido com traição. Léo riu, balançando a cabeça. — Já sei. Com você é oito ou oitenta. — Exato. — Dei mais uma tragada no cigarro e olhei pra porta. — Mas vou te falar… a menina tem uma coisa. Mesmo toda largada, dá pra ver que por baixo daquele cabelo caído e da roupa larga, tem mulher ali. — Vai querer testar? — Léo provocou. — Não agora. — Soltei a fumaça. — Mas vou manter debaixo do meu olho. Quero saber cada passo que ela dá. Já clonei o celular dela. — E viu alguma coisa? — ele perguntou, curioso. — Orçamento de faculdade. Administração. — Sorri de lado. — Acredita? No meio dessa vida, ela sonha em estudar. Léo ficou em silêncio por alguns segundos. — E isso muda alguma coisa? — Não. Mas mostra que ela tem ambição. E ambição pode ser boa ou perigosa. Vou descobrir qual dos dois é no caso dela. O rádio chiou na minha cintura, chamando por mim. — Ricardo, cê precisa ver isso aqui na entrada do beco, uns caras estranhos. Levantei, apaguei o cigarro e ajeitei a arma na cintura. — Depois a gente continua. A novata vai ter que esperar. Saí da sala com Léo logo atrás, pronto pra mais uma madrugada de resolver problema. Porque, nesse morro, paz é coisa que não dura muito tempo.
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