Ricardo narrando Acordei com a cabeça rachando no meio. Dor atrás dos olhos, a boca seca, língua amarga de uísque e pó. O quarto tava com aquele ar preso de quem dormiu com a janela fechada e o corpo queimando por dentro. Abri devagar um olho, depois o outro, tentando lembrar a sequência da noite. Veio tudo picado: luz vermelha, risada alta, garrafa estourando, mulher no meu colo, outra dançando… e depois um vazio comprido até a lembrança fria da água escorrendo no azulejo do meu banheiro. Mais nada. Me virei na cama e senti o lençol grudando no peito, ainda com cheiro de sabonete e, por cima, um fundo de perfume barato que não era dela. Franzi o nariz. Levantei, sentei na beirada, fiquei alguns segundos com a cabeça pendurada entre os joelhos, respirando fundo pra ver se o mundo assenta

