A luz branca e intensa do hospital me cegava. Pisquei repetidamente, tentando ajustar meus olhos à claridade, mas a sensação de vertigem só aumentava. O cheiro forte de desinfetante queimava minhas narinas, misturado ao leve odor metálico de sangue e medicamentos. Meu corpo parecia pesado, como se um peso invisível estivesse pressionando meu peito.
O bip ritmado de um monitor cardíaco preenchia o silêncio.
Eu não sabia onde estava.
Minha mente era um borrão confuso de lembranças desconexas. Havia um carro. Uma buzina. O brilho intenso dos faróis vindo em minha direção.
Depois, nada.
Eu tentei me mover.
O pânico atingiu meu corpo como uma descarga elétrica quando percebi que algo estava errado. Meus braços responderam, mesmo que com dificuldade, mas minhas pernas… nada.
Uma sensação gelada se espalhou pelo meu peito. Meu coração começou a bater mais rápido, e o som da máquina acompanhou meu desespero.
Respirei fundo. Talvez fosse apenas o efeito dos remédios. Talvez meu corpo estivesse apenas se recuperando do impacto.
Eu fechei os olhos com força e tentei mexer os dedos dos pés.
Nada.
A angústia subiu pela minha garganta como um grito mudo.
A porta do quarto se abriu com um rangido suave, e uma enfermeira entrou. Seu rosto carregava um profissionalismo treinado, mas havia algo mais ali—pena.
— Bom dia, Elizabeth. Como está se sentindo?
Minha boca estava seca. Tentei falar, mas minha voz saiu como um sussurro.
— O que… aconteceu comigo?
A enfermeira hesitou por um segundo antes de oferecer um sorriso encorajador.
— Vou chamar o doutor. Ele explicará tudo.
Ela se afastou, e a espera foi torturante.
Cada segundo parecia uma eternidade.
Minha respiração estava curta e entrecortada, e o bip acelerado do monitor denunciava minha aflição.
A maçaneta girou novamente, e um homem alto, vestindo um jaleco branco, entrou. Ele carregava uma prancheta e usava óculos de armação fina. Seu olhar era grave, mas gentil.
— Elizabeth, sou o Dr. Murilo. Como você está se sentindo?
— Eu… — minha voz falhou. — O que aconteceu comigo?
Ele puxou uma cadeira para se sentar ao lado da cama e inspirou fundo antes de falar.
— Você sofreu um acidente grave de carro. Foi trazida para o hospital inconsciente e passou por uma cirurgia de emergência.
Minha cabeça girou.
— Cirurgia?
— Sim. Sua coluna sofreu uma lesão severa na altura das vértebras torácicas. Nós estabilizamos a fratura para evitar danos adicionais, mas… — Ele fez uma pausa, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado. — Houve comprometimento da medula espinhal.
O quarto pareceu girar ao meu redor.
— O que isso significa?
Ele ajeitou os óculos, desviando o olhar por um segundo antes de encará-lo de novo.
— Significa que você perdeu a sensibilidade e os movimentos das pernas, Elizabeth.
Meu coração parou.
— Não…
— Você está paraplégica.
O mundo desabou sobre mim.
O som do monitor cardíaco ficou caótico, acompanhando o desespero que tomou conta do meu corpo.
— Não! — Minha voz saiu mais alta, desesperada. — Isso é um erro!
Eu tentei me mexer de novo, me forçando a sentir qualquer coisa abaixo da cintura.
Nada.
O vazio era pior do que qualquer dor.
— Não, não pode ser… — minha voz falhava a cada palavra.
Senti a mão do médico tocar meu braço com delicadeza.
— Eu sei que é difícil de aceitar, mas fizemos todos os exames necessários. Os danos na medula foram irreversíveis.
Minhas unhas cravaram no lençol.
— Não. Eu preciso andar. Minha carreira… minha vida…
— Elizabeth…
— Eu sou modelo! Como vou desfilar agora?! Como vou… viver assim?!
O desespero sufocava minha garganta.
— Nós vamos te ajudar nesse processo de adaptação. Há tratamentos de reabilitação, fisioterapia…
Eu balancei a cabeça, recusando-me a ouvir.
— Eu vou melhorar. Vou provar que vocês estão errados.
O médico suspirou e trocou um olhar rápido com a enfermeira.
— Vamos continuar monitorando seu quadro. Se precisar de apoio psicológico, podemos providenciar.
Psicólogo? Eu não queria um psicólogo. Eu queria andar.
Minhas mãos tremiam.
A porta se abriu, e um novo som de passos preencheu o ambiente.
Arthur.
Meu peito se apertou ao vê-lo ali. Seus olhos estavam arregalados, analisando-me com uma expressão que eu não conseguia decifrar.
— Liz…
Tentei sorrir, mas o rosto dele estava tenso.
Ele se aproximou da cama devagar, como se não soubesse onde colocar as mãos.
— Como você está?
A pergunta era absurda.
Engoli em seco.
— Eu… não posso andar.
A expressão dele endureceu. Ele desviou o olhar para o médico, como se quisesse confirmar.
Dr. Murilo assentiu.
— O quadro dela é definitivo.
A mandíbula de Arthur travou.
Silêncio.
Eu esperei.
Esperei que ele segurasse minha mão. Que me dissesse que tudo ficaria bem. Que me abraçasse.
Mas nada aconteceu.
— Arthur?
Ele passou a mão pelos cabelos, nervoso.
— Isso é… muita coisa.
Meu estômago se revirou.
— Eu sei que é difícil, mas eu… ainda sou eu.
Ele continuou em silêncio.
O nó na minha garganta ficou maior.
— Você… ainda quer se casar comigo?
Ele hesitou.
E ali, eu soube a resposta.
Meu coração desmoronou.
Ele não queria.
A dor era pior do que qualquer ferimento.
Ele não precisava dizer nada.
Seus olhos, sua hesitação, seu silêncio… diziam tudo.
Arthur se levantou.
— Eu… preciso de um tempo.
— Tempo?
Ele evitou meu olhar.
— Só para pensar.
Meus olhos ardiam.
— Vá.
Ele me encarou, e por um segundo, pensei que fosse mudar de ideia.
Mas ele apenas assentiu.
E saiu.
Assim.
Como se os últimos anos da nossa vida juntos não significassem nada.
Eu fiquei ali, olhando para a porta fechada, sentindo um vazio que nunca havia sentido antes.
Eu tinha perdido tudo.
Minha carreira.
Meu noivo.
Minha liberdade.
Eu queria chorar, gritar, quebrar tudo ao meu redor.
Mas apenas fechei os olhos.
E deixei que a escuridão me levasse para longe daquele pesadelo, eu queria que nada disso que estava acontecendo fosse verdade. como será que vou viver? como vai ser a minha vida de agora por diante?