Prólogo

966 Words

Frase

Ela se vestia de silêncio, não porque desconhecia os sons, mas a voz dos seus sentimentos ficou presa no imenso nó que havia em sua garganta. -Zack Magiezi

 

Prólogo 

Abro a geladeira e não encontro os ingredientes que queria para o jantar. Não era um dia especial ou algo do tipo, mas certos finais de semana costumo cozinhar para Túlio e acabei encontrando uma receita muito apetitosa na internet. Sei que é arriscado fazer um prato que nunca fiz antes, mas seguindo o passo a passo tenho certeza que conseguirei deixar o frango ao molho de queijo cremoso uma delícia.

Antes de sair arrumo meus cabelos e pego minha carteira sobre a estante da sala. O mercado fica a pouco mais de dois quarteirões e aproveito o dia ensolarado para caminhar pelo bairro movimentado de crianças que se reunião para brincar e correr.

Cumprimento Dona Charlotte com um aceno de cabeça e ela sorri de trás do balcão do mercadinho. Charlotte é uma senhora elegante, gentil e bondosa, mora no mesmo prédio que eu e nós encontramos vez ou outra no elevador. Confesso que quando envelhecer quero ser como ela elegante e sorridente, pois apesar de ter seus quase setenta anos não aparenta a idade e sempre está muito bem vestida.

Seguro a cestinha no braço e caminho pelo supermercado em busca dos ingredientes que faltavam, o sorriso bobo dança em meus lábios ao imaginar a reação de Túlio ao jantar, apesar de que ultimamente ele tem demonstrado um nervosismo incomum e isso nos levou algumas discussões, mas faz apenas cinco meses que estamos juntos e eu não quero tirar conclusões precipitadas já que sei que seus dias no trabalho tem sido estressante devido a pressão e cobrança do seu chefe.

Apesar do supermercado não estar lotado acabo demorando mais do que gostaria na escolha de alguns ingredientes, pois queria que tudo estivesse perfeito para essa noite. Ao voltar cumprimento senhor Rodrigues na portaria e subo para o meu apartamento um tanto quanto ansiosa.

Retiro a chave do bolso da calça e assim que abro a porta encontro Túlio andando de um lado para o outro no meio da sala. Estranho o seu estado de agitação e nervosismo, pois ele nunca agiu assim e presumo que algo de r**m aconteceu em seu trabalho.

— Boa noite meu amor. — Sorrio. — Aconteceu algo?

— Onde você estava? — pergunta secamente, me fazendo franzir as sobrancelhas com àquela atitude estranha.

— Estava no mercado. — Mostro as sacolas, mas ele avança em minha direção segurando meus braços com uma força exagerada.

— Mandei que não saísse enquanto eu não retornasse — grita, chacoalhando meus braços.

— O que está acontecendo? — pergunto surpresa com sua atitude explosiva.

Ele sempre foi um homem calmo, carinhoso e amoroso, nunca elevou a voz para mim e não lembro de termos uma briga seria, apenas algumas leves discussões sobre as roupas que eu vestia, mas ele nunca me impediu de usá-las, pois acho ridículo homens controladores que querem mandar no que a mulher veste.

— Você me ouviu? Não é para sair daqui. — Força os dedos contra meus braços, machucando minha pele, tento me livrar de suas mãos da maneira que consigo por estar segurando as sacolas.

— Para com isso Túlio. — Começo a me assustar com sua reação e o empurro como consigo por ter as mãos ocupadas.

Quando menos espero sua mão pesada atinge meu rosto com tanta força que faz meu ouvido zunir e a face arder, no mesmo instante solto as sacolas no chão levando as mãos até meu rosto chocada com aquele atitude desconhecida. Ele nunca havia levantado a mão para mim antes.

Dou um passo para trás assustada com sua atitude e Túlio segura meus braços com força, puxando meu corpo contra o seu com brutalidade. Em nenhum momento ele demonstra espanto ou arrependimento pelo ato cometido, apenas a ira e a raiva de eu ter desobedecido uma ordem que ele impôs sem nenhum sentido.  

— Quando eu mandar você obedece — diz com os dentes cerrado.

Estou tão surpresa e assustada que não tenho reação apenas o encaro com espanto e medo, pois ao longo desses meses juntos nunca notei uma mudança tão brusca em seu humor, apenas indícios de ciúmes bobos que acreditei ser normal.

— Está me ouvindo? — Sua mão forte se fecha em meu pescoço, forçando meu corpo contra a parede, os ossos das minhas costas se chocam contra o concreto e um gemido de dor escapa dos meus lábios.

As lágrimas escorrem por meus olhos e não consigo responder por seus dedos pressionarem minha garganta com força exagerada. Levo meus dedos envolta dos seus pulsos tentando soltar suas mãos, mas ele não relaxa o aperto, fazendo o ar faltar em meus pulmões. 

— Está ouvido — grita mais alto.

— Sim... — sussurro entre lágrimas, e sua outra mão puxa meus cabelos com força, mas com minha afirmação sua mão relaxa em meu pescoço, a tosse vem imediatamente enquanto meus pulmões buscam o ar que me faltava.

— Eu acho bom — sussurra próximo ao meu ouvido, me encolho não querendo sentir seus toques. — Você é somente minha e será assim para sempre entendeu? — Puxa meu cabelo mais forte, e eu não respondo. — Entendeu Katy? — rosna, e eu apenas concordo.

Suas mãos me soltam e minhas pernas bambas não têm forças o suficiente para sustentar meu peso, desço escorregando pela parede até o chão e encolho minhas pernas abraçando-as ao lado da estante deixando que as lágrimas escorram livres por meus olhos.

Na primeira vez ele parou, na segunda ele avançou mais um pouco, na terceira ele sorria, na quarta meu desespero alimentava seu prazer e na quinta foi minha completa destruição.

 

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