Cristal
Eu estava me sentindo sufocada.
Meu pai já estava melhor. O amigo dele, seu Dário, tinha chegado para fazer companhia e trazer algumas coisas da farmácia. Eles estavam conversando no quarto, falando sobre futebol e política como faziam antigamente.
Aquilo deveria me tranquilizar.
Mas não tranquilizou.
Pelo contrário.
A conversa que tivemos ainda estava martelando na minha cabeça.
"Eu sei de onde vem esse dinheiro."
"Não deixa esse homem destruir você."
Cada palavra parecia ecoar dentro de mim.
Eu precisava sair.
— Vou dar uma volta — avisei da porta.
Meu pai só assentiu.
— Vai, filha… pega um ar.
Saí antes que a sensação voltasse.
Desci o morro a passos largos, quase correndo.
O ar parecia pesado demais dentro do peito.
Cada respiração curta.
Cada pensamento embaralhado.
Eu precisava de espaço.
Precisava de silêncio.
Passei em frente à boca.
Os rapazes estavam sentados nas cadeiras de plástico, como sempre. Alguns com rádio na mão, outros olhando o movimento da rua.
Assim que me viram, os olhares mudaram.
Reconhecimento.
Curiosidade.
Um deles levantou o rádio.
— Patrão…
Fingi que não vi.
Continuei andando.
Outro rapaz falou alguma coisa baixinho no aparelho.
Eu sabia o que estavam fazendo.
Avisando Barão.
Mas naquele momento eu não ligava.
Eu só precisava continuar andando.
Descer.
Quanto mais eu descia o morro, mais memórias voltavam.
Lembrei da época da escola.
Quando eu fazia aquele mesmo caminho todos os dias.
Subindo de manhã com a mochila nas costas.
Descendo à tarde com as amigas, rindo, falando besteira, reclamando dos professores.
Tudo parecia tão simples naquela época.
Tão fácil.
Eu tinha sonhos.
Pensava em fazer faculdade.
Trabalhar em um hospital.
Ter um apartamento pequeno em algum lugar da cidade.
Uma vida normal.
A lembrança veio como um soco de nostalgia.
Continuei andando.
Na saída do morro, mais alguns homens do movimento estavam encostados em motos.
Mais rádios.
Mais olhares.
Ignorei todos.
Atravessei o asfalto sem nem olhar direito para os carros.
Continuei andando até o ponto de ônibus.
Não pensei muito.
Só precisava ir para algum lugar onde eu pudesse respirar.
O primeiro ônibus que apareceu eu entrei.
Sentei perto da janela.
O veículo começou a se mover devagar, deixando o morro para trás.
As ruas da cidade passaram rápidas.
Pessoas andando.
Carros.
Lojas.
Gente vivendo suas vidas.
Uma vida que parecia tão distante da minha agora.
Depois de alguns minutos o ônibus parou perto da praia.
Desci rápido.
O cheiro de sal do mar já estava no ar.
O vento vindo do oceano bagunçou meu cabelo.
Caminhei pela calçada até a areia.
O barulho das ondas quebrando era alto, constante.
Calmo.
Como se o mar não tivesse pressa de nada.
Parei perto de uma barraca.
— Moça — chamei.
A senhora que estava ali levantou os olhos.
— Pode guardar minhas coisas pra mim um minuto?
Ela olhou para mim, depois para o mar.
— Pode sim.
Tirei as sandálias.
A blusa.
O short.
Fiquei apenas com as roupas de baixo.
Entreguei tudo para ela.
— Obrigada.
Antes que pudesse pensar duas vezes, comecei a correr em direção à água.
A areia fria nos pés.
O vento forte no rosto.
As ondas se aproximando.
Entrei no mar quase de uma vez.
A água gelada subiu pelas pernas, pela cintura, pelo peito.
Mas eu continuei andando até mergulhar.
O mundo ficou silencioso por alguns segundos.
Debaixo da água tudo parecia distante.
As vozes.
Os problemas.
Barão.
O morro.
Tudo.
Quando voltei à superfície, respirei fundo.
O vento frio bateu no rosto molhado.
Fiquei ali.
Boiando entre as ondas.
O céu começava a escurecer no horizonte.
Pela primeira vez em dias…
Eu senti um pouco de paz.
Mesmo sabendo que aquela paz não duraria muito.
Porque em algum lugar do morro…
Barão provavelmente já sabia onde eu estava.