Saí da escola ao meio-dia, e o calor no Rio de Janeiro estava de rachar. O sol parecia querer derreter tudo ao redor. Olhei o celular: 38 graus, mas a sensação era de uns cinquenta. O ar estava pesado, quase impossível de respirar. Puxei minha blusa até o meio da barriga, deixando a pele suada respirar um pouco, mas isso não ajudava muito. O morro à minha frente parecia mais íngreme do que nunca, e eu já sabia que a subida seria árdua.
Morar na favela é uma batalha diária, ainda mais quando o dinheiro está curto e nem para o mototáxi dá. O caminho era sempre o mesmo, mas nunca fácil. Minhas pernas já estavam cansadas antes mesmo de eu começar a subir. Cada passo parecia um esforço monumental, e o suor escorria pelo rosto, se misturando com a poeira do chão.
Conforme eu subia, passava pela rua dos traficantes. Aquele trecho sempre me deixava tensa. Eles ficavam lá, encostados nas motos, com os olhos atentos em quem passava. Nunca olhei diretamente para eles. Sabia que qualquer olhar ou gesto m*l interpretado poderia ser perigoso. Abaixei a cabeça e aumentei o passo, querendo sair dali o mais rápido possível, sentindo o coração bater um pouco mais rápido no peito.
Depois de subir a ladeira toda, minhas pernas já doíam, e o cansaço só me fazia querer chegar logo em casa. Quando virei a esquina da rua da minha casa, vi um aglomerado de gente. Meu estômago deu um nó imediato. Não é normal ter tanta gente assim parada num canto. Tentei ver o que estava acontecendo, mas meus olhos foram direto para a vizinha, dona Lurdes, que estava lá no meio, e quando me viu, começou a correr na minha direção.
— Cristal! — Ela me chamou antes mesmo de chegar perto.
Meus pensamentos ficaram confusos. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas já sentia o pânico começando a me invadir. O coração batia forte no peito, cada passo dela em minha direção parecia estender aquele momento, e eu, sem querer, já estava imaginando mil coisas ruins.
— Seu pai... — ela disse, com a voz falhando. — Ele sofreu um acidente...
Naquele instante, o chão pareceu sumir sob meus pés. As palavras dela ecoaram na minha cabeça, mas era como se eu não conseguisse entender de verdade. Meus ouvidos ficaram surdos por um segundo, e tudo ao redor ficou borrado. Não sabia se sentia raiva, medo ou desespero. Só uma coisa ficou clara na minha mente: nada mais seria como antes.