Perfeita

1791 Words
Levantei cedo da cama, mesmo sem ter pregado os olhos. O corpo cansado parecia pesar o dobro, mas eu sabia que precisava agir. Preparei o café para o meu pai, como de costume, deixando a xícara pronta na mesa. Antes de sair, escrevi um bilhete simples, dizendo que ia até a casa de Jéssica e que não demoraria. Ele não podia ficar sozinho por muito tempo, mas eu não tinha escolha. Sabia que essa conversa não poderia esperar. Caminhei rápido até a casa dela, com o coração acelerado, como se cada passo fosse empurrado pela ansiedade. Quando toquei a campainha, levou um tempo até que Jéssica viesse abrir a porta. Pelo rosto dela, era claro que eu tinha interrompido o sono. Os olhos meio inchados, o cabelo bagunçado, mas ela sorriu assim que me viu. — Jéssica, preciso conversar com você — falei, direta, sentindo o peso da urgência na minha voz. Ela franziu a testa, percebendo que algo estava errado. Sem dizer mais nada, abriu a porta e me convidou para entrar. — Entra, amiga — disse, o tom sério agora substituindo qualquer traço de sono. Ela sabia que, se eu estava ali tão cedo, o assunto não era qualquer coisa. Sentei no sofá, e por um segundo, fiquei em silêncio, tentando organizar os pensamentos. Jéssica me observava com paciência, esperando que eu desabafasse. Sabia que ela podia me ajudar de alguma forma, mas também temia o preço disso. Mesmo assim, eu não tinha mais tempo a perder. — Fala, amiga — disse Jéssica, enquanto colocava água para ferver e começava a preparar café. Eu a observei em silêncio por alguns segundos, reunindo coragem para falar o que estava preso na minha garganta. — Jéssica, como você entrou nessa vida de amante? Como conseguiu ajuda? — perguntei, sabendo que a resposta poderia mudar tudo. Ela se virou, me olhando com curiosidade, mas sem surpresa. Era como se já esperasse essa pergunta. — Ah, amiga... Eu comecei a me envolver com o pessoal do movimento, aí quando vi, já estava vivendo assim. Vou te falar, eu gosto, viu? Tenho de tudo, não me falta nada. — Ela riu levemente, mas logo ficou mais séria. — Por que, Cristal? Suspirei, sentindo o peso das palavras antes de dizê-las em voz alta. — Eu tô cansada, Jéssica. Eu preciso de ajuda. Não tenho mais pra onde correr — desabafei, sentindo a urgência do momento apertar meu peito. A voz saiu mais fraca do que eu queria, e era difícil encarar o que estava pedindo. Jéssica me olhou por um momento, em silêncio. A expressão dela mudou, ficando mais suave e preocupada. Ela sabia o que aquilo significava, sabia que, uma vez envolvida, não teria volta. Ela se aproximou, segurando minha mão com firmeza. — Tem certeza, amiga? — perguntou, me encarando de perto, os olhos dela cheios de seriedade. — Fácil não é. Eu sabia o que ela queria dizer. Sabia que o caminho que ela seguia era cheio de riscos e consequências. Mas, naquele momento, eu não via outra saída. Jéssica me olhava com uma mistura de empatia e preocupação, como se entendesse o tamanho do meu desespero. Ela sabia que, para chegar a esse ponto, eu já havia esgotado todas as opções. Os meus sonhos? Já estavam mortos há muito tempo. O que restava da vida que eu imaginava tinha sido esmagado pela realidade dura, pela pobreza, pela responsabilidade de cuidar do meu pai. Viver como amante de traficante, naquele momento, parecia apenas mais uma coisa a aceitar. Nada que eu já não tivesse perdido. — Meus sonhos já morreram mesmo, Jéssica — murmurei, quase como se estivesse falando para mim mesma. — Virar amante de traficante não vai ser nada demais. Ela apertou minha mão um pouco mais forte, o olhar dela pesado com a gravidade da decisão que eu estava prestes a tomar. Eu podia ver que, apesar de viver nesse mundo e ter se acostumado com os luxos que ele trazia, Jéssica sabia o preço. Sabia que, uma vez dentro, seria difícil sair. Mas eu também sabia. O que eu não sabia era como sobreviver mais um dia sem ajuda. Ela suspirou, parecendo aceitar minha decisão, mesmo que a relutância ainda estivesse nos olhos dela. — Tá bom, Cristal. Eu vou te ajudar — disse, baixando o tom de voz. — Mas só quero que você tenha certeza. Essa vida... não tem volta. Assenti lentamente. O medo estava ali, mas o desespero falava mais alto. — Vamos fazer o seguinte, final de semana tem um baile. Você vai comigo. Eu vou te produzir, te deixar deslumbrante — disse Jéssica, com aquele ar confiante. — Combinado? Eu só consegui assentir, balançando a cabeça em silêncio. Já estava decidido. Não tinha mais volta. A sensação de peso no peito se misturava com um estranho alívio, como se finalmente tivesse aceitado o que era inevitável. Jéssica era minha amiga, e apesar de todos os riscos, eu sabia que ela estaria ao meu lado, me guiando nesse caminho novo e perigoso. — Vou cuidar de tudo. Você vai arrasar — continuou ela, tentando trazer um pouco de leveza para a situação. Mas eu sabia que aquela decisão não era só sobre uma noite. Ir para aquele baile era o primeiro passo para uma vida da qual talvez eu nunca pudesse sair. O brilho das festas, os homens de poder, as promessas de dinheiro fácil... tudo parecia uma saída, mas também uma armadilha. No fundo, o medo ainda estava lá, mas o desespero falava mais alto. Meu pai precisava de mim, e eu não podia mais esperar por soluções milagrosas. Já havia sacrificado meus sonhos, minha juventude. Viver à sombra de um traficante, como tantas outras garotas no morro, parecia ser a única opção que me restava. Conversei com meu pai com cuidado, tentando parecer tranquila, mas o peso da mentira apertava meu peito. Disse que precisava de um tempo com Jéssica, que queria conversar, me distrair um pouco, e que talvez demorasse mais do que o habitual. Na verdade, o que eu precisava era de coragem para fazer o que tinha decidido. Sabia que ele não gostava de ficar sozinho por muito tempo, mas não queria que percebesse a minha agitação, então perguntei se ele se incomodaria. — Pai, tudo bem se eu demorar hoje? Prometo que volto antes de ficar muito tarde. Ele olhou para mim com aquele sorriso triste, cansado da vida, mas sempre tentando me passar força. Apesar de tudo, ele ainda queria me ver feliz, e aquela ideia me partia por dentro. Ele não fazia ideia do que eu estava prestes a fazer. — Vai, filha. Eu fico bem. Você merece se divertir um pouco, já passa tanto tempo aqui cuidando de mim. Aproveita, vai lá. As palavras dele ecoaram na minha cabeça, carregadas de uma ternura que só piorava o meu sentimento de culpa. Eu estava mentindo para ele, e isso me machucava mais do que eu imaginava. Sabia que se ele soubesse da verdade, ficaria arrasado. Não porque ele me julgaria, mas porque ele entenderia o tamanho do meu desespero, e isso o destruiria. Saí de casa por volta das seis da tarde, enquanto o céu começava a mudar de cor. O pôr do sol tingia tudo com aquele tom alaranjado e rosado, como se a noite estivesse se aproximando com uma calma que não refletia o turbilhão dentro de mim. Conforme caminhava, meus passos pareciam cada vez mais pesados, como se algo em mim soubesse que essa seria uma noite decisiva. Cada passo me levava mais fundo para dentro de um mundo do qual talvez eu nunca pudesse sair. Cheguei à casa de Jéssica, e, como sempre, ela estava radiante, com aquele sorriso cheio de energia que parecia nunca se apagar. Ela estava vestida de um jeito provocante, pronta para o baile, com o corpo escultural realçado pela roupa justa. Era como se a vida não tivesse nenhum peso sobre ela. Talvez ela já estivesse tão envolvida que havia aprendido a lidar com tudo aquilo com naturalidade. — Oi, amiga! — ela exclamou assim que me viu, com uma animação que me fez sentir um pouco deslocada. — Tava te esperando! Vem cá, vou te deixar deslumbrante hoje. Mas o que me fez hesitar por um segundo foi ver CL lá também. Ele estava encostado no batente da porta, com o corpo relaxado, mas os olhos atentos, analisando tudo ao redor. Ele não era de falar muito, mas seu olhar dizia mais do que qualquer palavra. Sabia que ele estava ciente de tudo, e isso me dava um calafrio. Era como se ele estivesse medindo cada um dos meus movimentos, entendendo o que estava prestes a acontecer. Ele me cumprimentou com um leve aceno de cabeça, sem tirar o fuzil pendurado no ombro. CL não era um homem de muitas palavras, mas sua presença era quase sufocante. Magro, alto, e com o olhar sempre duro, ele dominava qualquer espaço onde estivesse, e todo mundo sabia disso. Era o terceiro no comando do morro, e a influência que ele exercia sobre Jéssica era óbvia. — E aí, Cristal — ele disse com a voz baixa, mas firme. Não havia sorriso em seu rosto, apenas aquele olhar impassível, como se ele já tivesse visto essa cena tantas vezes antes. Era como se ele soubesse que, ao cruzar aquela porta, eu estaria me jogando em um caminho sem volta. Jéssica, percebendo o clima mais sério, tentou aliviar a tensão. — Hoje é a sua noite, amiga. Vamos arrasar no baile. Confia em mim! Ela me puxou para dentro da casa, fechando a porta atrás de mim, e me guiou até o quarto, onde já tinha separado algumas roupas. Havia um vestido colado, de tecido brilhante, que realçava todas as curvas do corpo. Eu não estava acostumada a usar algo assim, mas sabia que fazia parte do que Jéssica havia planejado. Ela me ajudou a me arrumar, fazendo questão de que eu ficasse impecável. A maquiagem era pesada, os cílios longos, os lábios bem marcados. Quando me olhei no espelho, m*l me reconheci. Enquanto ela me arrumava, o som da música lá fora aumentava. O baile logo começaria, e minha ansiedade só crescia. Eu sabia que não estava indo apenas para dançar, me divertir e voltar para casa. Aquela noite significava muito mais. Jéssica sabia disso. Eu sabia disso. E CL, com toda certeza, também sabia. Quando finalmente fiquei pronta, Jéssica me olhou com um sorriso satisfeito. — Você tá perfeita, amiga. Vai fazer sucesso hoje. Eu sorri de volta, mas por dentro estava tremendo. Sabia que não tinha mais volta. Eu havia cruzado uma linha invisível, e dali em diante, a minha vida nunca mais seria a mesma.
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