Jéssica chegou na minha casa no meio da tarde.
Eu estava sentada na porta, descascando batatas para o jantar. O sol batia forte na rua de terra e algumas crianças corriam atrás de uma bola mais abaixo.
Ela parou na minha frente com aquele olhar curioso.
— Então… — disse cruzando os braços. — Vamos conversar.
Suspirei.
— Já sei sobre o que é.
Ela sentou ao meu lado na calçada.
— O Barão.
Meu estômago apertou.
Fiquei alguns segundos mexendo nas batatas antes de responder.
— Foi só uma vez.
Jéssica soltou uma risada curta.
— Cristal… você ainda não entendeu como isso funciona aqui, né?
Olhei para ela.
— O que você quer dizer?
Ela se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— O Barão não é qualquer um.
Eu sabia disso.
Todo mundo sabia.
— Ele é o subchefe do morro. — continuou. — Um dos homens mais perigosos daqui.
O vento levantou um pouco da poeira da rua.
— E ele tem mulheres — disse ela. — Várias.
Aquilo doeu mais do que eu esperava.
Tentei fingir que não.
— Eu não estou interessada nisso.
Jéssica me olhou de lado.
— É exatamente isso que estou tentando te dizer.
Ela pegou uma das batatas da tigela e começou a girar entre os dedos.
— Se você vai entrar nesse jogo… entra sabendo das regras.
— Que regras?
Ela suspirou.
— Não se apega.
As palavras saíram firmes.
— E nunca… — ela apontou o dedo para mim — nunca deixa ele achar que você é propriedade dele.
Meu coração bateu mais forte.
— Porque quando o Barão acha que alguma coisa é dele…
Ela não terminou a frase.
Mas eu entendi.
— Ele não larga.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
— Você acha que ele vai me chamar de novo? — perguntei.
Jéssica me olhou com um meio sorriso.
— Eu tenho quase certeza.
— Por quê?
Ela deu de ombros.
— Porque ele ficou olhando pra você a noite inteira depois que você saiu.
Um arrepio percorreu minhas costas.
Jéssica se levantou, batendo a poeira do short.
— Só lembra do que eu disse, amiga.
— O quê?
Ela começou a descer a rua.
— Coração longe.
Ela virou para mim uma última vez.
— Porque se você se apaixonar pelo Barão…
Ela sorriu triste.
— Você está perdida.
Já estava escurecendo quando ouvi o barulho de uma moto parando em frente à casa.
Meu coração deu um pulo.
No morro, moto parando na porta quase nunca era coisa boa.
Meu pai estava deitado na cama assistindo televisão quando ouvi alguém bater no portão.
— Cristal! — uma voz chamou.
Eu reconheci.
Era um dos rapazes do movimento.
Saí para fora.
Ele estava parado ao lado da moto, capacete na mão.
— O que foi? — perguntei.
Ele me olhou com aquele meio sorriso de quem já sabia da história.
— O patrão mandou te buscar.
Meu estômago afundou.
Eu já sabia qual patrão.
— Agora? — perguntei.
— Agora.
Olhei para dentro de casa.
Meu pai estava me observando da porta.
— Quem é? — perguntou ele.
Forçei um sorriso.
— Um amigo.
Ele assentiu, mesmo sem parecer muito convencido.
Voltei para o rapaz da moto.
— Pra onde?
Ele deu de ombros.
— A casa do Barão.
Meu coração começou a bater mais rápido.
A conversa com Jéssica voltou na minha cabeça.
"Quando ele gosta… ele não larga."
Respirei fundo.
— Tá.
Subi na moto.
Enquanto descíamos o morro, o vento frio da noite batia no meu rosto.
As luzes da favela piscavam entre as vielas.
Dessa vez eu sabia exatamente para onde estava indo.
Quando paramos na frente da casa dele, minhas mãos estavam geladas.
O rapaz desligou a moto.
— Ele tá esperando.
Desci devagar.
A porta da casa estava aberta.
E Barão já estava lá dentro.
Sentado no sofá.
Me olhando como se soubesse que eu viria.
Entrei devagar.
A casa estava com as luzes baixas, o cheiro forte de cigarro e álcool no ar. Barão estava sentado no sofá, uma garrafa na mesa e os olhos pesados.
Algo nele parecia diferente.
Mais agitado.
Mais… perigoso.
Ele me olhou da cabeça aos pés.
— Demorou — disse.
— Eu vim assim que me chamaram.
Ele soltou uma risada curta, passando a mão pelo rosto.
— Chega aqui.
Meu corpo já sabia o caminho.
Aquela noite aconteceu rápido, como antes. Um silêncio pesado entre nós, quebrado apenas pela respiração dele e pelo som distante do morro lá fora.
Quando tudo acabou, eu me levantei da cama.
Estava procurando minha blusa no chão quando ouvi a voz dele atrás de mim.
— Já vai?
— Meu pai está sozinho em casa — respondi.
Silêncio.
Senti o clima mudar.
— Eu não mandei você ir embora ainda.
Me virei devagar.
Os olhos dele estavam diferentes agora. Escuros, pesados, como se alguma coisa dentro dele tivesse mudado.
— Eu só…
Não consegui terminar.
Barão se levantou rápido.
— Você acha que manda aqui?
Antes que eu pudesse reagir, a mão dele me empurrou forte. Meu corpo bateu contra a parede.
O impacto tirou o ar do meu peito.
Fiquei alguns segundos parada, tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
Ele ficou me olhando.
Respirando pesado.
Por um momento pensei que ele fosse fazer pior.
Mas ele apenas passou a mão pelo cabelo e virou o rosto.
— Some daqui — disse.
A voz fria.
Peguei minhas coisas com as mãos tremendo.
Quando saí da casa, o ar da noite bateu no meu rosto.
Só então percebi que meus olhos estavam cheios de lágrimas.
Desci o morro andando rápido.
Meu corpo ainda doía.
Mas uma coisa martelava na minha cabeça.
Jéssica tinha avisado.
Barão era perigoso.
E eu estava cada vez mais presa naquele mundo.