Só mais uma

702 Words
Cristal Cheguei em casa com o coração apertado. A rua estava quase vazia. Algumas luzes acesas nas casas, televisão ligada em algum lugar, o cheiro de comida vindo de uma janela aberta. Tudo parecia normal. Mas dentro de mim nada estava. Entrei devagar para não acordar meu pai. Ele já estava dormindo, respirando pesado na cama. A televisão ainda ligada baixinho. Fechei a porta do quarto com cuidado e fui para a cozinha. Foi só quando sentei na cadeira que tudo veio. As lágrimas começaram a cair sem que eu conseguisse segurar. Levei a mão ao rosto, tentando abafar o choro. Meu corpo ainda doía. A marca no braço ardia onde ele tinha me empurrado. Jéssica estava certa. Barão era perigoso. E mesmo assim eu tinha voltado. Fiquei ali chorando em silêncio, olhando para a mesa vazia da cozinha. O dinheiro ainda estava na minha bolsa. Dinheiro que pagava comida. Remédio. Aluguel. Dinheiro que custava caro demais. Foi quando ouvi o barulho de uma moto parando na frente da casa. Meu corpo inteiro ficou tenso. Enxuguei rápido as lágrimas e fui até a porta. Um rapaz do movimento estava parado na rua, ainda sentado na moto. — Cristal? — chamou. Assenti. Ele tirou um envelope do bolso. — O Barão mandou. Meu coração apertou. Peguei o envelope sem dizer nada. — Ele disse que era pra você ficar tranquila — continuou o rapaz. — E que se precisar de mais… é só falar. Fiquei olhando para o envelope nas minhas mãos. — Tá — murmurei. O rapaz ligou a moto novamente. — Boa noite. Ele foi embora levantando poeira na rua. Fechei a porta devagar. Voltei para a cozinha e abri o envelope. Notas. Muitas. Muito mais do que ele tinha me dado antes. Minhas mãos começaram a tremer. Aquilo não era só pagamento. Era outra coisa. Algo pior. Sentei novamente na cadeira. Olhei para o dinheiro espalhado na mesa. E pela primeira vez uma sensação estranha apareceu dentro de mim. Eu não sabia se aquilo era ajuda… ou se era uma coleira invisível. Porque quanto mais dinheiro Barão me dava… mais difícil ficava sair do mundo dele. Cristal No dia seguinte acordei com o corpo pesado. Quase não tinha dormido. Cada vez que fechava os olhos, a cena da noite voltava na minha cabeça. O empurrão, o olhar dele, a voz fria mandando eu ir embora. Levantei mesmo assim. Meu pai ainda dormia. Peguei o dinheiro que estava guardado dentro da bolsa e separei algumas notas. Precisava comprar comida. A despensa estava quase vazia. Saí de casa tentando parecer normal. O sol já estava alto, o morro cheio de gente indo e vindo, crianças correndo na rua, música tocando em alguma casa. A vida continuava. Como se nada tivesse acontecido. Caminhei até a pequena mercearia da esquina. — Bom dia, Cristal — disse o seu Paulo atrás do balcão. — Bom dia. Peguei arroz, feijão, um pouco de carne e algumas coisas básicas. Era estranho poder comprar sem precisar ficar fazendo conta na cabeça. Coloquei tudo no balcão. Foi quando ouvi o barulho de uma moto passando devagar pela rua. Meu coração deu um pulo. Olhei por reflexo. Era ele. Barão. Passando pela rua como se fosse dono de tudo — e talvez fosse mesmo. Mas não estava sozinho. Uma mulher estava na garupa da moto. Usava apenas um biquíni pequeno e um short aberto, o cabelo longo balançando enquanto segurava a cintura dele. Ela ria de alguma coisa que ele falou. Barão também estava sorrindo. A moto passou bem na frente da mercearia. Por um segundo achei que ele fosse olhar para mim. Mas não olhou. Nem percebeu que eu estava ali. Ou talvez tivesse percebido e simplesmente não se importado. A moto seguiu descendo a rua. O barulho do motor foi ficando mais distante. Fiquei parada olhando. Com uma sensação estranha no peito. Seu Paulo me chamou. — Cristal… deu quarenta e três. Pisquiei algumas vezes, voltando à realidade. Peguei o dinheiro e paguei. Saí da mercearia carregando as sacolas. Mas a imagem ainda estava na minha cabeça. Barão. Sorrindo. Com outra mulher agarrada nele. E naquele momento eu entendi uma coisa. Para ele… eu era só mais uma.
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