Ajuda

615 Words
Peguei o que restava na geladeira: as últimas sobras, um punhado de arroz, um pedaço de cenoura meio murcha. Com isso, improvisei uma sopa para meu pai. Não era muito, mas ele precisava comer. A fome apertava meu estômago, e o cheiro do caldo fervendo parecia torná-la ainda mais insuportável. Olhei para a panela, sabendo que aquela pequena quantidade só seria suficiente para ele. Eu teria que esperar por outro dia para comer. Servi a sopa no prato dele e saí de casa enquanto ele se alimentava. Precisava de ar, de um momento para não pensar na falta de tudo. Sentei na beira da calçada, deixando o calor do asfalto subir pelas pernas. A rua estava agitada, como sempre. Carros passavam devagar, as crianças corriam de um lado para o outro, e os adultos conversavam entre si. Foi quando vi Jéssica subindo a ladeira, rindo e conversando com alguns rapazes. Ela estava diferente, como sempre. Usava um short jeans curto e a parte de cima de um biquíni rosa-choque. A pele dela brilhava no sol, como se a vida fosse leve, como se os problemas que me sufocavam não existissem para ela. Quando me viu, acenou de longe e veio na minha direção. Jéssica e eu éramos amigas desde sempre, crescemos juntas no mesmo pedaço de chão. Ela era atrevida, sempre foi. Desde nova se envolveu com os caras do movimento, gostava daquela vida de adrenalina, festas e dinheiro fácil. Eu nunca entendi muito bem, mas também nunca julguei. Cada uma tem seu caminho, e o dela, por mais perigoso que fosse, parecia o único que a fazia se sentir viva. Ela se sentou ao meu lado, com aquele sorriso no rosto, e me olhou com curiosidade. — E aí, mona, que cara é essa? — falou, como se a tristeza estampada em mim fosse novidade. Suspirei, tentando não transparecer o cansaço. — Nada, amiga, nada... — respondi, desviando o olhar. Ela continuou me encarando, como se esperasse que eu dissesse mais, mas o que mais eu podia dizer? A minha vida era um ciclo de falta, de responsabilidades que esmagavam qualquer espaço para sonhar. — Problemas com seu pai, né? — começa ela, com um tom de quem já conhece bem a minha situação. Forço um sorriso, mas sem nenhuma vontade de mostrar que está tudo bem. — Sim... — murmuro, olhando para o chão. — Não só isso. Preciso de um emprego, Jéssica. Dinheiro. Não tenho mais o que comer em casa. O desabafo sai mais pesado do que eu esperava. É como se dizer isso em voz alta tornasse tudo ainda mais real. Jéssica me olha com surpresa, talvez não tivesse percebido o quão fundo a situação tinha chegado. — Tão sério assim? — Ela parece chocada. — Sim, amiga. Tá complicado. Meu pai precisa de cuidados, e as contas não param de chegar. E eu... — dou de ombros, sem saber o que mais dizer. — Não consigo mais segurar. Ela fica em silêncio por um momento, talvez pensando em algo para dizer, e, por um segundo, o peso daquele instante parece cair entre nós duas. Então, depois de alguns segundos, Jéssica respira fundo e se inclina um pouco para frente, me olhando de um jeito mais sério. — Olha, Cristal, posso te ajudar com algumas coisas... — Ela para um instante, como se estivesse medindo as palavras. — Vamos lá em casa, a gente conversa melhor. Fico um pouco confusa, mas balanço a cabeça, sem muitas opções. Jéssica sempre teve os próprios meios de conseguir o que queria, e mesmo que eu tenha dúvidas sobre o que exatamente ela tem em mente, a necessidade me empurra a seguir com ela.
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