Desci o morro devagar, ainda sentindo as pernas fracas.
O dinheiro estava apertado na minha mão. Eu não tinha coragem de contar ali na rua, mas dava para sentir que era muito.
Muito mais do que eu imaginava.
O garoto da moto estava me esperando.
— Bora — disse ele, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
Subi na moto em silêncio.
O vento frio da madrugada batia no meu rosto enquanto descíamos pelas ruas estreitas do morro. As luzes das casas ainda estavam acesas em alguns lugares, música baixa vindo de algum bar, gente rindo em alguma laje.
Tudo parecia igual.
Mas eu não era mais a mesma.
Quando a moto parou perto do baile, eu desci.
— Valeu — murmurei.
O garoto só assentiu e foi embora.
Fiquei parada alguns segundos olhando para o movimento.
O baile ainda estava acontecendo.
A música alta fazia o chão vibrar.
Respirei fundo e subi as escadas para o camarote.
Assim que entrei, Jéssica me viu.
Os olhos dela brilharam.
— E aí?! — ela veio correndo até mim. — Como foi?
Não consegui responder na hora.
Ela olhou para meu rosto… depois para minha roupa… depois para minha mão fechada.
— Ele te pagou? — perguntou baixinho.
Abri a mão devagar.
As notas apareceram.
Os olhos dela arregalaram.
— Caraca, Cristal… — ela sussurrou. — O Barão gostou de você.
Meu estômago revirou.
— Eu só fiz o que precisava fazer.
Jéssica segurou meu braço.
— Não é assim que funciona aqui.
Olhei para ela sem entender.
Ela suspirou.
— Quando o Barão gosta… ele não divide.
Meu coração deu um salto.
Foi quando senti alguém me observando.
Olhei para o lado.
CL estava encostado na parede do camarote, olhando direto para mim.
E pela expressão dele…
Ele não parecia nada feliz.
Barão
Fiquei parado na varanda da casa olhando o morro lá embaixo.
O baile ainda estava rolando.
Acendi outro cigarro.
Cristal.
O nome dela ainda estava na minha cabeça.
Isso não era normal.
Eu não costumava pensar duas vezes nas mulheres que passavam pela minha cama.
Mas aquela garota…
Tinha alguma coisa diferente.
Ela estava com medo.
Mas mesmo assim ficou.
Isso dizia muito.
Sorri de lado.
Peguei o celular e mandei uma mensagem.
“Fica de olho na Cristal.”
Alguns segundos depois veio a resposta.
“Pode deixar, patrão.”
Dei outra tragada no cigarro.
Uma coisa era certa.
Cristal podia até não saber ainda…
Mas a partir de agora…
Ela era minha.
Cheguei em casa quando o dia ainda estava nascendo.
O céu começava a clarear, aquele tom cinza antes do sol aparecer. O morro ainda estava quieto, só alguns cachorros latindo e uma mulher varrendo a frente da casa.
Entrei devagar para não acordar meu pai.
Mas ele já estava acordado.
Sentado na cama.
— Você chegou — disse ele.
A voz cansada.
Forçei um sorriso.
— Cheguei.
Ele me olhou por alguns segundos, como se estivesse tentando adivinhar alguma coisa.
— Foi bom sair um pouco?
Engoli seco.
— Foi.
Fui até a pequena mesa da cozinha e coloquei o dinheiro sobre ela.
Minhas mãos tremiam.
Comecei a separar as notas.
Aluguel.
Remédio.
Comida.
Meu pai ficou olhando.
— Cristal…
Parei.
— De onde veio esse dinheiro?
Meu coração disparou.
Eu já tinha pensado na resposta.
Mas tudo.
Pelo menos por um tempo.
Peguei parte das notas e coloquei dentro de uma sacola.
— Vou pagar o seu Antunes.
Saí antes que ele pudesse perguntar mais alguma coisa.
O sol já estava subindo quando bati na porta da casa do dono.
Seu Antunes abriu com cara de poucos amigos.
—mesmo assim parecia difícil dizer.
— Arrumei um trabalho.
Ele franziu a testa.
— Que trabalho paga assim de uma vez?
— Um bico… — respondi rápido.
Ele ficou em silêncio.
Eu sabia que ele não acreditava totalmente.
Mas também sabia que ele não queria perguntar demais.
Olhei para o dinheiro novamente.
Aquilo resolvia O que foi?
Estendi o dinheiro.
— O aluguel.
Ele olhou surpreso.
Pegou as notas e começou a contar.
— Hm.
Depois me encarou.
— Pensei que vocês iam ter que sair.
— Não vamos.
Ele deu de ombros.
— Melhor assim.
Voltei caminhando pela rua estreita do morro.
As pessoas passavam por mim normalmente.
Mas dentro de mim parecia que todo mundo sabia.
Sabia o que eu tinha feito.
Sabia de onde tinha vindo aquele dinheiro.
Quando cheguei em casa novamente, meu pai estava na mesma posição.
Ele me olhou.
— Pagou?
Assenti.
Ele suspirou, aliviado.
— Ainda bem…
Olhei para ele.
E naquele momento entendi uma coisa.
Valia a pena.
Se aquilo mantivesse ele em casa…
Eu faria de novo.