Subi para o camarote acompanhando Jéssica, tentando controlar o nervosismo que crescia a cada passo. O ambiente lá em cima era ainda mais intenso do que o resto do baile. As luzes eram mais suaves, quase íntimas, mas a presença dos homens armados e das mulheres ao redor deixava claro que aquele espaço não era para qualquer um. Jéssica, por outro lado, parecia completamente à vontade. Assim que chegamos, ela se jogou nos braços de CL, como se o mundo lá fora não existisse. Ele a recebeu com um sorriso, mas, quando seus olhos se voltaram para mim, algo no seu olhar me deixou desconfortável.
Ele me observou por um momento, de forma estranha, quase como se soubesse exatamente por que eu estava ali. Era como se aquele olhar estivesse me testando, medindo minhas intenções. Não entendi completamente o que ele estava pensando, mas decidi ignorar. Afinal, eu já tinha decidido o que precisava fazer.
Sentei-me ao lado deles, tentando parecer relaxada, embora meu corpo estivesse tenso. CL se afastou por um instante e voltou com duas latinhas de cerveja. Uma para Jéssica e a outra para mim. Meu primeiro instinto foi recusar. O gosto amargo do álcool sempre me incomodava, e o ambiente, tão distante do que eu estava acostumada, me fazia querer manter o mínimo de controle que me restava. Mas, então, lembrei por que estava ali.
Eu não estava mais no meu mundo. Esse era o universo de Jéssica, e agora, de certa forma, também seria o meu. Não havia espaço para fraquezas ou recusas. Aceitar a cerveja era como aceitar as regras daquele jogo, me moldar às expectativas que todos ali tinham de mim. Respirei fundo e, com um leve aceno de cabeça, peguei a latinha, forçando um sorriso.
O som do lacre se abrindo me pareceu mais alto do que a própria música, como se fosse o sinal de que eu estava realmente cruzando a linha entre o que eu era e o que precisava me tornar. Dei um gole, sentindo o gosto amargo escorrer pela garganta, e tentei esconder o quanto isso me desagradava. Ao meu lado, Jéssica ria e conversava com CL, completamente imersa no ambiente, enquanto eu tentava me adaptar, observando tudo ao redor.
Eu sabia que aquele era apenas o começo. Cada escolha que eu fizesse naquela noite me levaria mais fundo nesse mundo, e cada movimento, cada olhar, teria consequências. O que me assustava era que, mesmo sabendo disso, já não via outra saída. O desespero que me trouxera até ali era maior do que qualquer desconforto ou medo que eu pudesse sentir.
Me levantei devagar e comecei a caminhar em direção ao banheiro. Precisava de um momento para respirar, para processar tudo que estava acontecendo ali. As luzes piscavam, a música alta reverberava no chão, e eu sentia o peso dos olhares ao meu redor, como se cada movimento meu fosse observado e avaliado. No meio do caminho, uma voz grave e arrastada, já marcada pelos excessos da vida, me interceptou.
— E aí, novinha.
Meu instinto foi continuar andando, ignorar e sair dali o mais rápido possível. Mas, então, me lembrei do motivo pelo qual estava ali. Não podia mais me dar ao luxo de recuar ou evitar. Já tinha cruzado a linha. Parei, respirei fundo e me virei para encarar quem havia falado comigo.
Era Barão, o subchefe do morro. O homem de cabelos descoloridos que Jéssica mencionara antes, o segundo no comando. Ele me olhava de cima a baixo com uma intensidade que me fez arrepiar dos pés à cabeça. Havia algo no olhar dele que era diferente dos outros. Não era só desejo, mas também uma espécie de poder cru, como se ele soubesse que podia ter tudo o que quisesse. E naquele momento, eu era o foco desse olhar.
Meu corpo inteiro gritava para sair correndo, mas minha mente me lembrava que o medo não tinha mais espaço ali. Forcei um sorriso, mesmo sentindo o coração martelar no peito, e tentei parecer confiante, embora o pânico estivesse à flor da pele.
— Oi — respondi, a voz saindo mais baixa do que eu pretendia.
Ele deu um passo à frente, ainda com os olhos fixos em mim. Barão era alto, magro, mas com uma postura que impunha respeito. Seus cabelos descoloridos contrastavam com a pele marcada pelo sol e pela vida nas ruas. O cheiro forte de cigarro e álcool o envolvia, e por um momento, eu me senti pequena diante dele, como se fosse um peixe nadando entre tubarões.
— Não te vi antes por aqui — ele comentou, inclinando a cabeça, o olhar ainda me analisando. — Nova no pedaço, né?
Assenti, tentando não demonstrar o quanto suas palavras e sua presença me afetavam.
— Tô só acompanhando uma amiga — respondi, apontando vagamente para onde Jéssica estava.
Ele sorriu de canto, um sorriso que não chegava aos olhos, e se aproximou um pouco mais. O cheiro dele agora era mais forte, o calor do corpo a poucos centímetros do meu. Tudo em mim queria recuar, mas forcei meu corpo a ficar parado, tentando manter o sorriso no rosto, mesmo sentindo o medo crescendo.
— Novinha... nesse mundo, você vai ter que aprender a jogar o jogo rápido. E eu gosto de quem aprende rápido.
Aquelas palavras ficaram no ar por um segundo, como uma ameaça velada. Eu sabia que Barão era perigoso, talvez até mais que CL, e naquele momento, percebi que estava caminhando numa corda bamba. Qualquer movimento errado poderia me colocar em apuros. Mas agora, não havia mais como voltar atrás.
Sorri novamente, tentando parecer confiante, mas por dentro, eu estava travando uma batalha contra o medo.
— Eu aprendo rápido — respondi, embora eu mesma não tivesse certeza disso.
Barão riu baixinho, como se minha resposta o tivesse divertido. Ele olhou para mim mais uma vez, dos pés à cabeça, como se estivesse me avaliando, e então, finalmente, deu um passo para trás.
— Vamos ver, novinha. Vamos ver.
Com isso, ele se afastou, mas não sem antes lançar um último olhar que fez minha espinha gelar. Continuei meu caminho em direção ao banheiro, mas agora, com a cabeça a mil. Estava jogando um jogo perigoso, e pela primeira vez, senti o verdadeiro peso das escolhas que tinha feito.