Voltei para casa com as sacolas pesadas nas mãos.
O sol estava quente, mas eu m*l sentia.
A imagem dele passando de moto não saía da minha cabeça.
A mulher agarrada na cintura dele.
Rindo.
Como se fosse dona do lugar.
Talvez fosse mesmo.
No morro todo mundo sabia que Barão tinha mulheres.
Jéssica tinha avisado.
"Não se apega."
Empurrei a porta de casa com o pé.
— Pai, trouxe comida! — falei tentando parecer animada.
Ele apareceu na porta do quarto apoiado nas muletas.
— Ainda bem… já estava pensando em pedir uma pizza fiado.
Sorri de leve.
Fui colocando as coisas na pequena prateleira da cozinha.
Arroz.
Feijão.
Carne.
Pão.
Aquele dinheiro realmente resolvia muita coisa.
E era exatamente isso que me assustava.
Meu pai me observava em silêncio.
— Cristal…
Parei.
— Você anda diferente.
Meu coração apertou.
— Diferente como?
Ele deu de ombros.
— Não sei.
Voltei a guardar as coisas rapidamente.
— Só estou cansada.
Ele não insistiu.
Mas eu senti que ele não estava convencido.
Foi quando ouvi alguém assobiar lá fora.
Olhei pela janela.
Um rapaz do movimento estava parado na rua.
Ele me viu e levantou o queixo em direção à moto.
Meu estômago afundou.
Sabia o que aquilo significava.
Barão.
Meu pai percebeu.
— Quem é?
Peguei a bolsa.
— Jéssica me chamou.
Saí antes que ele pudesse perguntar mais alguma coisa.
O rapaz sorriu quando me aproximei.
— Bora.
Subi na moto.
— Pra onde?
Ele deu partida.
— O patrão quer te ver.
O vento da subida do morro bateu no meu rosto.
Meu coração começou a bater mais rápido.
— Ele não estava ocupado? — perguntei sem pensar.
O rapaz riu.
— Patrão nunca fica ocupado demais pra mulher que ele gosta.
Meu estômago virou.
A moto parou na frente da casa dele.
Desci devagar.
A porta estava aberta.
E Barão estava encostado no batente.
Me olhando.
Como se estivesse esperando.
Ele estava encostado no batente da porta quando eu parei na frente da casa.
O olhar dele passou por mim devagar.
Como se estivesse avaliando alguma coisa.
— Demorou — disse.
— Você mandou me chamar.
Ele deu um meio sorriso.
— E você veio.
Não respondi.
Passei por ele entrando na casa. O cheiro de cigarro e bebida ainda estava no ar, como sempre.
— Quer beber alguma coisa? — perguntou ele.
— Não.
Barão fechou a porta atrás de mim.
O som do trinco fez meu corpo ficar alerta.
Ele se aproximou devagar.
— Tá nervosa hoje — murmurou.
— Não.
Ele riu baixo.
— Mentira.
A mão dele segurou minha cintura e me puxou para perto. O toque era firme, sem delicadeza, como se ele estivesse acostumado a pegar o que queria.
— Viu eu hoje mais cedo?
Meu coração deu um pulo.
— Vi.
Ele inclinou a cabeça.
— E?
Dei de ombros.
— Nada.
Barão me observou por alguns segundos.
Então aproximou o rosto do meu, os olhos escuros.
— Você aprende rápido.
O beijo veio forte, sem aviso.
Não tinha carinho.
Era bruto.
As mãos dele seguravam meu corpo com força, como se estivesse marcando território.
Para ele aquilo não era amor.
Era posse.
Era desejo.
Era controle.
Quando terminou, ele soltou minha cintura como se nada tivesse acontecido.
Foi até a mesa, pegou a carteira e tirou algumas notas.
— Toma.
Olhei para o dinheiro.
— Não precisa.
Ele levantou uma sobrancelha.
— Eu não perguntei.
Estendeu as notas.
Peguei.
Porque no fundo eu sabia.
Aquilo nunca seria sobre sentimentos.
Para Barão, eu era apenas mais uma mulher do morro.
Uma que ele chamava quando queria.
E pagava quando terminava.