O sol já estava baixo quando ouvi alguém chamar meu nome na rua.
Eu estava lavando a louça na pequena pia da cozinha, a água fria escorrendo pelas mãos enquanto meu pai assistia televisão no quarto.
— Cristal!
Reconheci a voz de um dos rapazes do movimento.
Sequei as mãos no pano de prato e fui até a porta.
Ele estava parado na frente da casa, encostado na moto. Capacete pendurado no guidão.
— O que foi? — perguntei.
Ele sorriu de lado, aquele sorriso típico de quem já sabia mais da minha vida do que eu gostaria.
— O patrão mandou isso pra você.
Tirou algo do bolso do casaco e estendeu na minha direção.
Era um celular.
Novo.
Preto, ainda com o plástico da tela.
Fiquei olhando para o aparelho na mão dele sem pegar.
— Pra quê isso?
— Pra ele falar com você — respondeu simples.
Meu coração bateu mais forte.
Peguei o celular devagar.
— Ele disse que agora você atende quando ele ligar.
Assenti.
— Tá.
O rapaz colocou o capacete.
— Qualquer coisa é por ali agora.
Deu partida na moto e desceu a rua levantando poeira.
Fiquei alguns segundos parada na porta olhando para o celular na minha mão.
Aquilo parecia mais pesado do que realmente era.
Uma ligação direta com ele.
Uma forma de me encontrar quando quisesse.
Entrei em casa novamente.
Meu pai apareceu na porta do quarto.
— Quem era?
Guardei o celular rápido no bolso.
— Um rapaz da rua.
Ele assentiu.
Mas naquele momento algo mudou no rosto dele.
A expressão.
A cor.
— Pai?
Ele levou a mão ao peito.
— Eu… — a voz falhou.
Antes que eu pudesse reagir, ele perdeu o equilíbrio.
— Pai!
Corri e consegui segurá-lo antes que caísse no chão.
O corpo dele estava pesado, fraco.
A respiração irregular.
Meu coração começou a disparar.
— Pai, olha pra mim!
Ele tentava falar, mas parecia não conseguir.
Meu desespero começou a crescer.
Peguei o celular do bolso com as mãos tremendo.
Era o único número salvo.
Barão.
Fiquei olhando para a tela por alguns segundos.
A conversa com Jéssica voltou na minha cabeça.
"Nunca deixa ele achar que você é propriedade dele."
Mas naquele momento eu não tinha escolha.
Apertei para ligar.
Chamou duas vezes.
— Fala — a voz dele veio do outro lado.
— Barão… — minha voz saiu quebrada.
Silêncio.
— Cristal?
— Meu pai… ele passou m*l… eu não sei o que fazer…
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Respira.
As palavras vieram firmes.
— Ele tá consciente?
— Mais ou menos…
— Escuta — disse ele. — Fica calma.
Eu sentia meu pai tremendo nos meus braços.
— Barão… eu preciso levar ele pro hospital.
— Então leva.
Engoli seco.
— Eu… eu não tenho dinheiro pra isso.
A frase saiu pesada.
Humilhante.
Silêncio do outro lado da linha novamente.
Meu coração parecia que ia sair pela boca.
— Quanto você precisa?
Olhei para meu pai.
Para a casa simples.
Para a vida que eu estava tentando manter de pé.
— Muito — sussurrei.
Mais alguns segundos de silêncio.
Então ele falou:
— Fica aí.
— O quê?
— Eu vou resolver.
A ligação caiu.
Fiquei sentada no chão da cozinha segurando meu pai.
Minutos depois ouvi o barulho de duas motos chegando na rua.
Passos correndo até a porta.
— Cristal!
Abri rápido.
Dois homens do Barão estavam ali.
— O patrão mandou levar vocês agora.
Um deles já entrou ajudando a levantar meu pai.
O outro colocou um envelope grosso na minha mão.
— Pra qualquer coisa que precisar.
Olhei dentro.
Dinheiro.
Muito.
Mais do que eu tinha visto em toda minha vida.
Levantei os olhos para o rapaz.
— Ele disse mais alguma coisa?
O homem deu um meio sorriso.
— Disse pra você não se preocupar.
Olhei novamente para o dinheiro.
Meu peito apertou.
Porque naquele momento eu entendi algo que me assustou ainda mais.
Eu tinha pedido ajuda.
E Barão respondeu sem pensar duas vezes.
Mas ajuda dele nunca vinha de graça.
E agora…
Eu devia mais a ele do que nunca.