Eu estava deitada na minha cama, olhando para o teto.
O ventilador velho girava devagar acima da minha cabeça, fazendo aquele barulho irritante de sempre. O quarto estava escuro, só a luz fraca da rua entrando pela janela.
Eu tentava dormir.
Mas minha cabeça não parava.
Barão.
Meu pai.
O dinheiro.
Tudo se misturava dentro de mim.
Fechei os olhos mais uma vez, tentando forçar o sono.
Foi quando meu celular começou a tocar.
O som alto cortou o silêncio do quarto.
Suspirei irritada e peguei o aparelho no criado-mudo.
Jéssica.
Atendi.
— Alô?
— Amiga! — a voz dela veio animada demais para aquela hora. — Tu vai comigo pro baile hoje!
Fechei os olhos de novo.
— Jéssica…
— Vai ter festa grande hoje! — continuou ela, sem nem me deixar falar. — O pessoal de outro morro tá descendo, vai ter DJ, bebida, tudo.
Passei a mão no rosto.
— Eu não tô com a mínima vontade de ir.
Silêncio do outro lado por um segundo.
— Ah para — disse ela. — Você precisa sair um pouco.
— Eu já saí demais esses dias.
— Você tá aí pensando demais.
Ela me conhecia bem demais.
— Eu só quero dormir.
Jéssica riu.
— Dormir nada.
— Sério, amiga… hoje não.
Ela suspirou.
— Tá assim por causa do Barão?
Meu estômago apertou.
— Não.
— Cristal…
— Eu disse que não.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
Então ela falou, mais calma dessa vez:
— Você não pode ficar se escondendo dele.
Olhei para o teto outra vez.
— Eu não tô me escondendo.
— Tá sim.
Mais silêncio.
— Só vem comigo — insistiu ela. — A gente dança, bebe um pouco… distrai a cabeça.
Pensei por alguns segundos.
O baile.
Barão provavelmente estaria lá.
E naquele momento… eu não sabia se queria ver ele.
Ou se queria evitar.
— Eu penso — murmurei.
Jéssica riu.
— Isso quer dizer que você vai.
— Não prometi nada.
— Se arruma.
A ligação caiu.
Fiquei olhando para o celular na minha mão.
Meu coração estava batendo mais rápido agora.
Porque no fundo…
eu sabia que se fosse ao baile naquela noite…
era quase impossível não encontrar Barão.
No fim, não teve jeito.
Jéssica apareceu na minha porta antes mesmo que eu pudesse inventar outra desculpa.
— Bora — disse ela, já entrando na casa. — Você prometeu que ia pensar. Pensar aqui significa ir.
Revirei os olhos.
— Eu não prometi nada.
Ela riu.
— Anda logo, Cristal.
Acabei cedendo.
Coloquei um short jeans, uma blusa simples e prendi o cabelo. Não estava com vontade de me produzir como as outras meninas faziam para o baile.
Saímos juntas.
O morro já estava diferente naquela hora da noite.
A música ecoava pelas vielas antes mesmo de chegarmos perto da quadra. O grave da batida fazia o chão vibrar levemente sob nossos pés.
Quando viramos a última rua, o baile apareceu na nossa frente.
Lotado.
Gente de todo canto do morro — e até de outros lugares.
Meninas dançando em cima das caixas de som, homens encostados nas motos, barracas vendendo bebida e churrasquinho espalhadas pelos lados.
As luzes coloridas piscavam sobre a multidão.
O som estava tão alto que era impossível conversar sem gritar.
Os traficantes estavam espalhados pelo baile.
Alguns nas laterais.
Outros no camarote mais alto.
Fuzis pendurados nos ombros como se fossem apenas parte da roupa.
Eles observavam tudo.
Quem chegava.
Quem saía.
Quem estava falando com quem.
Era assim que funcionava.
— Tá vendo? — gritou Jéssica no meu ouvido. — Eu falei que ia estar bom!
Olhei ao redor.
A energia do baile era intensa, quase elétrica.
Mas dentro de mim ainda havia aquele aperto no peito.
— Vamos beber! — ela puxou meu braço.
Caminhamos pela multidão.
Foi quando senti algo estranho.
Aquela sensação de estar sendo observada.
Olhei para cima.
O camarote.
E lá estava ele.
Barão.
Encostado na grade, com um copo na mão.
Os olhos dele estavam em mim.
Como se ele já soubesse que eu viria.
Meu coração acelerou.
Jéssica percebeu.
— Ih…
Ela seguiu meu olhar.
— Ele tá te olhando desde que a gente entrou.
Engoli seco.
— Eu sei.
Barão não desviou o olhar.
Nem por um segundo.
Como se o resto do baile simplesmente não existisse.
Só eu.