Mando chamar

690 Words
Barão Fiquei parado na sala observando ela desaparecer pelo corredor. Dava pra ver o nervosismo no jeito que ela andava. Passos curtos, inseguros, como se estivesse entrando numa armadilha. E talvez estivesse mesmo. Apaguei o cigarro no cinzeiro e peguei outra carreira na mesa. A adrenalina corria nas minhas veias. Parte por causa da cocaína, parte por causa dela. Cristal não era como as outras. As meninas do morro vinham cheias de atitude, se oferecendo, rindo alto, querendo aparecer. Ela não. Ela parecia… perdida. Mas mesmo assim estava ali. E isso dizia muito sobre o tamanho do desespero dela. Sorri sozinho. Agora que entrou no meu mundo, não sai mais. Cristal Entrei no quarto com as pernas tremendo. O cômodo era maior do que eu imaginava. Tinha uma cama grande no meio, lençóis escuros, um armário aberto cheio de roupas caras e uma televisão enorme na parede. Era estranho ver algo tão confortável no meio do morro. Fechei a porta devagar atrás de mim. Minhas mãos estavam suando. Eu fiquei parada alguns segundos olhando para o chão, tentando respirar direito. Foi você que escolheu isso. A voz na minha cabeça era c***l. Lembrei do meu pai sentado na cama de casa, tentando fingir que estava tudo bem mesmo sem comida direito. Lembrei do dono da casa falando do despejo. Lembrei da panela vazia. Fechei os olhos. — É só uma vez… — murmurei para mim mesma. Minhas mãos foram até o zíper do short. O tecido deslizou devagar. Cada peça que eu tirava parecia arrancar um pedaço da vida que eu tinha antes. Quando terminei, abracei meu próprio corpo tentando esconder o frio que subia pela minha pele. Foi quando ouvi passos no corredor. Meu coração disparou. A porta se abriu. Barão entrou. E o olhar dele sobre mim fez meu estômago revirar. Não era só desejo. Era posse. Ele entrou no quarto e fechou a porta atrás de si. O clique da fechadura soou alto demais. Meu corpo inteiro ficou tenso. Barão parou na minha frente, me olhando em silêncio. O olhar dele percorreu meu corpo devagar, sem nenhuma pressa, como se estivesse analisando cada detalhe. Aquilo me fez sentir pequena. — Tá tremendo — ele disse, a voz baixa. Não era uma pergunta. Era um fato. — Eu… — minha voz falhou. Ele deu um passo mais perto. — Relaxa, Cristal. — disse. — Você veio porque quis. Aquilo não era exatamente verdade. Mas também não era mentira. A mão dele segurou meu queixo e levantou meu rosto. Os olhos dele eram escuros, pesados, dominantes. Eu sabia que não tinha volta. Barão me puxou para perto pela cintura, o toque firme, como alguém acostumado a mandar. O cheiro de cigarro e perfume forte me envolveu. Meu coração parecia que ia sair pela boca. Mas eu não recuei. Aquela noite aconteceu rápido e devagar ao mesmo tempo. Um acordo silencioso. Um preço pago sem palavras. Quando tudo terminou, o quarto ficou em silêncio. Barão se levantou da cama sem pressa nenhuma, vestindo a camisa como se aquilo fosse apenas mais uma noite comum na vida dele. Eu fiquei sentada na beira da cama, tentando organizar os pensamentos. Ele abriu a gaveta da cômoda. Ouvi o som de notas sendo contadas. — Toma. Levantei os olhos. Barão estendeu um maço de dinheiro na minha direção. Minhas mãos demoraram um segundo para pegar. Era muito. Muito mais do que eu esperava. — Agora pode ir — disse ele, frio. Sem carinho. Sem despedida. Como se aquilo fosse apenas um negócio. Engoli seco e comecei a me vestir. Cada peça parecia mais pesada do que antes. Quando terminei, caminhei até a porta. — Cristal — ele chamou. Parei. — Quando eu quiser você de novo… eu mando chamar. Não respondi. Abri a porta e saí. Lá fora, o ar frio da madrugada bateu no meu rosto. Segurei o dinheiro com força nas mãos. Minha cabeça girava. Eu tinha conseguido o que queria. Dinheiro. Mas enquanto caminhava pela rua escura do morro, uma coisa ficou clara dentro de mim: Eu tinha acabado de entrar em um mundo do qual talvez nunca conseguisse sair.
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