LOBO NARRANDO
Eu nunca acreditei muito nessa parada de destino. Aqui no morro, tudo é consequência. Do que você faz. Do que você deixa de fazer. Do que escolhem por você quando você ainda é pequeno demais pra entender.
Minha mãe sumiu quando eu ainda era moleque. Não teve despedida, não teve explicação, não teve nada. Um dia ela tava ali, no outro… vazou. Simples assim. Deixou eu e meu pai pra trás como se a gente fosse bagulho velho, fácil de largar no canto.
Eu lembro pouco dela. Lembro mais da ausência do que do rosto. Lembro do silêncio dentro de casa, do jeito que meu pai ficou mais fechado, mais duro. Foi ali que eu aprendi, cedo demais, que confiar demais em alguém pode te quebrar no meio.
Meu pai sempre disse que família é o que mantém a cabeça no lugar. Que é o que dá força pra seguir em frente quando o mundo tenta te esmagar. Engraçado… porque, ao mesmo tempo, ele nunca foi de falar de sentimento. Nunca foi de abraço, de conversa longa. O jeito dele de amar sempre foi trabalhando, protegendo, garantindo que nada faltasse.
Sempre fomos só nós dois. Parceiros em tudo. Eu cresci andando atrás dele, observando, aprendendo sem precisar perguntar. O morro foi minha escola. Ele me ensinou a ler gente, a desconfiar, a não baixar a guarda. Me ensinou que aqui, quem vacila não dura.
Relacionamento nunca foi uma parada que me brilhou os olhos. Nunca vi sentido em dividir minha vida com alguém só por dividir. Mulher nunca faltou. Pelo contrário. Sempre teve várias andando atrás de mim. Não por mim exatamente, mas pelo que eu vou ser um dia. Todo mundo sabe que, cedo ou tarde, eu vou assumir o morro. Mesmo sem estar oficialmente no comando, eu já resolvo metade das paradas da boca.
Só que isso nunca me fez querer compromisso. Nunca senti vontade real de construir família, de planejar futuro a dois. Sempre fui eu e meu pai. Sempre funcionou assim.
Até a Jaqueline chegar.
Desde que ela entrou na vida dele, tudo mudou. Meu pai ficou diferente. Mais atento a essa parada de relacionamento, de família estruturada. Agora ele vive repetindo que eu só assumo o comando quando virar “homem de verdade”. Tradução dele: arrumar uma mulher e construir uma família.
E eu tô suave dessa parada.
Se ele quiser deixar o comando com ele até o fim, deixa. Eu faço minha parte, ajudo, seguro as pontas. Mas não vou forçar sentimento pra agradar ninguém.
Naquela noite, eu tava na minha sala, terminando de conferir a contabilidade da semana. Dinheiro da boca não é brincadeira. Qualquer erro vira problema grande. Eu revisava tudo com atenção, já separando o que ia levar pro meu pai, quando a porta abriu sem aviso.
Helo.
Ela entrou com aquele sorriso malicioso de sempre, usando uma roupa curta demais pra quem diz que só veio “visitar”. Fechou a porta atrás dela e encostou, me olhando como se eu fosse sobremesa.
— Tá fazendo o quê aqui, Helo? — perguntei, sem nem levantar muito a cabeça.
Ela começou a andar na minha direção, rebolando de propósito, o dedo enrolando o cabelo.
— Vim te ver, meu gato. Tô com saudade de você.
Soltei um suspiro impaciente e finalmente olhei pra ela.
— Tô ocupado. Então mete o pé, porque tenho várias paradas pra resolver. Mais tarde eu passo lá na sua goma.
Antes que ela conseguisse responder qualquer coisa, a porta da sala abriu de novo. Dessa vez, pesado.
Meu pai.
O olhar dele foi direto pra Helo, carregado de reprovação.
— Sai — ele disse, seco.
Ela nem discutiu. Saiu apressada, evitando olhar pra mim ou pra ele. Assim que a porta fechou, senti o clima pesar.
— Quando é que você vai aprender, Lobo? — ele começou. — Tu já tem 25 anos. Enquanto você tiver levando essa vida, eu não vou passar o comando do meu morro pra você.
Passei a mão no rosto, tentando manter a calma.
— Eu tô ligado, pai. O senhor já repetiu isso uma pá de vez. Só que eu não vou arrumar alguém só porque você quer. Quando eu achar alguém, pode ter certeza que o senhor vai saber. Mas, por enquanto, eu não quero nada com ninguém.
Ele me encarou firme.
— As condições pra assumir o morro você sabe muito bem, coração. O dia que você aprender a virar homem e criar responsabilidade, eu saio.
— Eu já entendi, pai. O senhor não precisa ficar toda hora esfregando isso na minha cara, não.
Ele ficou me olhando por alguns segundos, como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas desistiu.
— A Jaqueline saiu. Eu tô indo resolver umas paradas. Segura as pontas aí e depois leva a grana pro cofre lá em casa.
— Pode pá.
Ele saiu, me deixando sozinho com meus pensamentos. Fiquei alguns minutos parado, encarando os papéis na mesa, mas já sem conseguir me concentrar. Aquela conversa sempre mexia comigo, mesmo eu fingindo que não.
Terminei o que faltava, organizei o dinheiro e coloquei tudo numa bolsa. Peguei a chave e segui pra casa, do jeito que ele tinha mandado.
A noite já tinha caído, o morro tava mais quieto do que o normal. Quando cheguei, estranhei as luzes acesa. Empurrei devagar e entrei.
Foi aí que eu vi.
Uma mina descendo as escadas, celular colado no ouvido. Ela falava baixo, parecia nervosa. Não reconheci o rosto. Não era ninguém daqui. Não era nenhuma das mulheres que costumavam circular pela casa.
Fiquei parado, observando. Ela passou direto por mim como se eu nem existisse, foi pra cozinha e continuou falando no telefone. Aquilo me irritou. Na minha casa, ninguém me ignora.
Fui atrás dela e parei encostado na porta da cozinha, cruzando os braços. Esperei. Ela terminou a ligação, soltou um suspiro pesado e guardou o celular.
Foi aí que ela finalmente me olhou.
— Quem é você? — perguntei, direto, sem rodeio.
Ela me encarou por alguns segundos, como se estivesse tentando entender onde tinha se metido.
E alguma coisa, que eu ainda não sabia explicar, começou a me incomodar por dentro.
— Tá fazendo o quê na minha casa?.— eu pergunto pra ela.