Capitulo 01

1286 Words
BÁRBARA NARRANDO. Eu ainda estava com a roupa preta do enterro quando tudo desabou de vez. O tecido parecia mais pesado do que deveria, grudando na minha pele como se carregasse junto o luto inteiro. O cheiro das flores do velório não saía de mim. Era um perfume doce demais, enjoativo, que se misturava com aquele silêncio estranho que fica depois que todo mundo vai embora. A casa da minha avó parecia grande demais sem ela. Vazia. Fria. Cada passo que eu dava ecoava alto, como se eu estivesse invadindo um lugar que já não me pertencia, mesmo eu tendo vivido ali a vida inteira. Deixei a bolsa em cima da mesa e encostei na pia, tentando respirar. Minhas mãos tremiam. O espelho da cozinha refletia um rosto que eu m*l reconhecia: olhos inchados, maquiagem borrada, um cansaço que vinha de dentro, não do corpo. O enterro tinha sido rápido. Seco. Sem tempo pra despedidas de verdade. Como se a morte dela fosse só mais uma notícia r**m no meio de tantas outras. Mas pra mim era o fim de tudo. Minha avó não era só minha avó. Era minha casa, minha segurança, minha família inteira resumida numa pessoa só. Eu m*l tive tempo de chorar. A porta foi aberta com força, batendo na parede, me arrancando do torpor. Minha tia entrou sem me olhar direito. O rosto duro, os braços cruzados, como quem já tinha ensaiado aquele momento na cabeça. Eu soube na hora que nada de bom vinha dali. — Bárbara, a gente precisa conversar. Meu estômago revirou. — Agora não… — murmurei, a voz falhando. — Eu acabei de chegar do enterro. Ela deu de ombros, indiferente, como se eu estivesse reclamando de uma chuva chata. — Pois é. E eu não vou ficar enrolando. Essa casa agora é minha. Eu senti o ar sumir dos meus pulmões. — Como assim… sua? — Sua avó deixou tudo pra mim. — Ela apontou em volta, impaciente. — E eu não quero ninguém aqui. Muito menos você. Quero você fora daqui, até amanhã. Meu coração começou a bater tão forte que doía. Doía de verdade, físico, como se alguém estivesse apertando por dentro. — Tia, eu sempre morei aqui… — tentei argumentar. — Essa casa também é minha lembrança com ela. Ela riu. Um riso curto, sem humor nenhum. — Lembrança não paga conta. Você já é maior de idade. Não é mais minha responsabilidade. Senti as pernas fraquejarem. Me apoiei na mesa pra não cair. — Você tá me expulsando? — perguntei, mesmo sabendo a resposta. — Tô sendo clara. — Ela finalmente me encarou. — Você tem até amanhã de manhã pra sair. Arruma suas coisas e dá um jeito na sua vida. — Mas, eu não tenho pra onde ir. — Falei sentindo o desespero tomar conta do meu corpo. — Isso não e problema meu. Cada palavra caiu como um tapa. Um atrás do outro. Eu não gritei. Não chorei na frente dela. Não implorei. Só fiquei parada, sentindo a dor se espalhar pelo meu peito, pesada demais pra caber em mim. Ela saiu do jeito que entrou, deixando a porta aberta e um silêncio ensurdecedor atrás de si. Quando fiquei sozinha, eu desabei. Me sentei no chão da sala, ainda de preto, abraçando as pernas, chorando do jeito que não chorei no enterro. Chorei pela minha avó, pela injustiça, pela solidão, pelo medo. Chorei porque não tinha pra onde ir. Chorei porque, de repente, eu não tinha mais chão. Peguei o celular com a mão tremendo. O nome da minha mãe apareceu na tela quando procurei na agenda e, por um segundo, eu hesitei. A gente m*l se falava. Existia amor ali, eu sabia, mas também existia distância, escolhas erradas, tempo perdido. Eu sabia tão pouco da vida dela quanto ela da minha. Mesmo assim, não existia outra opção. Disquei. Ela atendeu no terceiro toque. — Bárbara? — a voz dela veio surpresa. — Aconteceu alguma coisa? Eu tentei falar, mas só consegui chorar. — Filha… calma, respira… me conta. — a aflição na voz dela atravessou a linha. E eu contei. Do enterro. Da casa. Da minha tia. Do prazo até de manhã. Contei tudo entre soluços, com vergonha de estar ligando só quando precisava, com medo de ouvir um “não”. Do outro lado da linha, ela ficou em silêncio por alguns segundos. Eu prendi a respiração. — Você vem pra cá — ela disse, firme, mas doce. — Você é minha filha. Sua casa é comigo. Você sabe que eu sempre estive aqui. Eu senti algo quebrar dentro de mim. Não de um jeito r**m. Como se uma parede antiga tivesse caído. — Mãe… eu não queria atrapalhar… — falei baixo. — Atrapalhar? — ela respondeu rápido. — Bárbara, isso é tudo o que eu mais quero. Ter você comigo. Eu devia ter feito isso antes. Minha garganta fechou de novo. — Eu vou te buscar — ela continuou. — Hoje. Agora, se você quiser. Você não vai passar essa noite sozinha. Fechei os olhos, deixando as lágrimas caírem livres. Pela primeira vez desde que minha avó morreu, eu senti um fio de segurança atravessar o caos. — Tá bom… — sussurrei. — Eu espero você. Desliguei o celular e fiquei ali, sentada no chão da casa que já não era mais minha, cercada de lembranças e dor. Mas, pela primeira vez em dias, eu não estava completamente sozinha. E isso, naquele momento, era tudo o que eu tinha. Subi pro meu quarto devagar, como se cada degrau fosse uma despedida. O corredor parecia menor, as paredes cheias de marcas do tempo. Empurrei a porta e fui engolida por anos de lembranças. Meu quarto ainda era o mesmo. A cama encostada na parede, o guarda-roupa antigo que rangia ao abrir, os porta-retratos em cima da cômoda. Cada coisa ali tinha sido feita com amor. Minha avó sempre deu um jeito. Quando não tinha dinheiro, tinha cuidado. Quando não tinha tempo, tinha abraço. Peguei uma caixa e comecei a guardar minhas coisas sem pressa. Cada objeto que eu tocava vinha com uma memória grudada. O uniforme da escola dobrado no fundo da gaveta. A primeira medalha que ganhei. A carta que ela escreveu quando eu fiz dezoito anos, dizendo que eu era o orgulho dela, que tinha certeza que eu ia longe, que o mundo podia ser c***l, mas eu era mais forte do que pensava. Sentei na cama com a carta na mão e chorei de novo. — Eu prometo, vó… — murmurei, com a voz quebrada. — Isso não vai mudar. Eu ainda vou ser tudo o que você acreditou. Arrumei só o essencial. Roupas, documentos, fotos. O resto ficou ali, como se a casa ainda guardasse uma parte de mim que eu não conseguia levar. Quando ouvi o som de um carro parando na frente, meu coração disparou. Desci as escadas com a mala na mão. Olhei uma última vez pra sala, pra cozinha, pro cantinho onde minha avó gostava de sentar à tarde. Respirei fundo e fechei a porta atrás de mim. Minha mãe desceu do carro rápido, me puxou pra um abraço apertado, desses que seguram a gente de verdade. — Você não tá sozinha, filha — ela sussurrou no meu ouvido. Eu chorei no ombro dela, sem vergonha nenhuma. Enquanto o carro se afastava, eu olhei pela janela e vi a casa ficando pra trás. Doía. Ainda doía muito. Mas, no meio daquela dor toda, existia algo novo nascendo. Talvez fosse esperança. Talvez fosse só sobrevivência. Mas eu sabia de uma coisa: mesmo quebrada, eu ainda estava de pé. E isso, de algum jeito, minha avó teria orgulho de ver.
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