O perigo

2593 Words
Ainda não havia feito a denúncia, pois em todos os momentos que cheguei a sair de casa para ir, pensava na minha relação com George e desistia da ideia. Por mais que Melissa e Carter me encorajassem durante nossas conversas, eu desistia no meio do caminho e retornava à estaca zero. Enquanto isso, o detetive tentava fazer contato comigo de todas as formas. Até mesmo mandando o seu assistente ir em minha casa para saber se eu realmente o estava ignorando. Sua última tentativa foi aparecer pessoalmente no Morgan's, no horário que eu tinha costume de ir. Por sorte Jonathan o colocou para fora com poucas palavras ditas num canto reservado do lugar. Jonathan manteve seu comportamento indiferente todas as vezes que tentei fazê-lo rir. Eu havia decretado que aquela seria uma das minhas meta para o final do ano, mesmo que parecesse impossível. Já Carter se incomodou com minhas tentativas de aproximação para com seu irmão. Por isso resolvi mostrar a todos que meu interesse era apenas uma experiência fracassada de dar alegria a alguém. — London! — gritou Melissa, acenando para mim de uma barraca no meio do estacionamento do Morgan's. Jonathan havia liberado o amplo espaço para que sua irmã pudesse organizar o evento. Em sua barraca havia diversos livros que a biblioteca iria descartar e que poderiam ser doados a quem passasse por ali interessado. Eles não colocaram nada à venda. Seu irmão parecia que ainda não tinha chegado, mas ela havia encontrado um ajudante para aquele evento e o garoto realmente estava empolgado com tudo aquilo. Me aproximei da bibliotecária para lhe cumprimentar e consegui ver finalmente o jovem Carter conversando com Jonathan em sua barraca tecnológica logo em frente. O senhor Morgan demonstrava uma enorme angústia ao falar e não deixava o pobre rapaz se explicar. Até tentei ouvir a discussão, mas eles sabiam ser realmente discretos. Encostei no balcão improvisado de Melissa que observava com atenção enquanto seu chefe e irmão mexia rapidamente os lábios de maneira furiosa. — Ele destruiu a máquina de capuchino, não é? — perguntei divertida à garota, tentando puxar sua atenção. — Vai por mim, eles não brigam pelo trabalho. — Eu a olhei curiosa e Melissa deu de ombros. — Não tenho ideia do que possa ser. John chegou nervoso há dez minutos, puxou Victor dizendo que queria conversar e estão lá desde então. A morena revirou os olhos e voltou à organização de seu estande, como se aquela conversa dos dois fosse algo totalmente comum. — Devem estar gostando da mesma garota, de novo — concluiu. — E Carter gosta de alguém por acaso? — Ela sorriu quando viu meu olhar de indignação e sussurrou um “bingo”. — Bom, você vive se esquivando das investidas dele. Obviamente ele não iria esperar muito — disse ela. Carter pareceu ter ouvido, pois me olhou com seus orbes azuis brilhantes e sorriu, o que me deixou um tanto inquieta. Só de lembrar das brincadeiras em formas de cantadas dele já me deu vontade de rir. Jonathan se afastou do irmão quando terminou e o outro caminhou em direção à nós, colocando as mãos no pescoço em forma de estrangulamento, depois me deu uma piscada de olhar. Segurei o riso para que o homem de costas não sentisse curiosidade em saber qual era a palhaçada que me levara à vontade de gargalhar. Poderia acabar encrencando o barista. — Nossa artista convidada chegou! Como vai? — Tudo bem! — Olhei por cima de seu ombro para o outro moreno. — Ele está realmente bravo, o que você fez? — Eu não tenho ideia, ele tem brigado bastante comigo desde o dia que voltou e eu não consigo entender. Agora, por exemplo, reclamou do modo como eu estou agindo. Como se eu tivesse mudado da água para o vinho. — Por essas e outras que amo meu trabalho. Ninguém manda ou desmanda além de mim mesma. Bom, pelo menos quando fujo dos clientes — brinquei e os irmãos sorriram. Carter pegou o livro de capa azul no balcão, entregando-o a mim. — Encontrei no meio daqueles que você doou, era de George e acho que foi parar lá sem querer. — Meu coração parou quando peguei o diário em minhas mãos, me lembrando que havia pegado uma caixa velha de livros para que Melissa pudesse colocar como doação no estande. Abracei o objeto com força em pedido de desculpas e sussurrei um, "obrigada" ao rapaz que sorriu. — Sabe, London, eu queria saber mais sobre seu trabalho e sobre George também. Estava pensando se você não queria me contar tudo num passeio. Carter definitivamente estava motivado a sair comigo. No entanto, eu ainda estava revestindo meu coração por conta de uma certa decepção e ainda não me sentia pronta para aquilo. Suspirei antes de responder ao rapaz. — Eu até gosto da ideia de sair entre amigos — abri meu melhor sorriso. — E Melissa poderia nos acompanhar. Os olhos azuis dela me fuzilaram por uns instantes e implorei com a súplica estampada em minha face. Ela revirou os olhos jogando suas mãos para o ar em rendimento. — Então te pegamos na próxima sexta, depois do trabalho. Tudo bem? — o rapaz tornou a dizer e vi seu olhar entediado para mim. Eu apenas assenti a proposta para finalizar aquela conversa de uma vez. Carter me olhou com uma pitada de decepção e admiração ao mesmo tempo. Era claro que minha resposta o havia golpeado no estômago, mas eu não iria sair tão rápido assim com outra pessoa. Principalmente uma tão desesperada. Continuamos conversando de assuntos aleatórios durante a arrumação do evento. O rapaz havia entendido meu recado, mas não desistia de sugerir mudanças em nosso futuro passeio. Eu me limitava em rir de suas opções e brigas sutis com a irmã. Quando finalizamos a organização, já estavam chegando às primeiras pessoas para comemorar o aniversário da cidade. Então fiquei em meu posto, no estande de artes que havíamos montado com algumas obras minha, bem ao lado do pequeno espaço de leitura. Carter se prontificou a ajudar tanto eu quanto sua irmã, já que as comidas e bebidas haviam sido trazidas por cada um que morava no local e que iriam participar. Então, basicamente, seu trabalho era nos fazer rir de suas análises sobre as pessoas que passavam por nós. Em meio a uma de suas brincadeiras eu acabei rindo tanto que quase caí da cadeira. Por sorte meu ajudante segurou meus ombros e me equilibrou antes do tombo. Arregalei meus olhos e encarei as íris azuis centímetros próximos as minhas. Tornei a rir quase perdendo o fôlego, mas fui interrompida rapidamente quando ouvimos o som estridente. Melissa soltou um grito assustado olhando na direção de onde vinha o som e tanto eu quanto seu irmão, seguimos seu movimento. O senhor Morgan soltou um palavrão e retirou sua mão da fina tela do computador enquanto me encarava com toda a raiva possível. Em seguida ele segurou o monitor soltando os cabos conectados na parte de trás e puxou-o para que o último cabo se soltasse da extensão. A ira que ele usou para aquele momento me deixou perplexa. Contudo me atentei ainda mais às gotas vermelhas pingando do corte enquanto ele fazia esforço com seu equipamento. A mão dele sangrava, o que me levou a pegar minha bolsa embaixo do balcão para tirar o algodão e a água boricada. — A mesma comprada para cuidar dele, no dia que foi cortado pelo maluco do beco. — Corri para dentro do Morgan's, na direção que ele havia ido seguindo o pequeno corredor atrás da assistência técnica que dava para o escritório de bugigangas com aparelhos desmontados por toda parte. Lá estava o grande homem resmungando de algo enquanto socava os fios em uma pequena gaveta. — Jonathan, será que posso ver sua mão? — perguntei-lhe ao entrar em seu ambiente. — Não! — Jonathan, está sangrando! — Ele deu de ombros, continuando a abrir o monitor. — Por favor? — Já disse… não — ele repetiu, sua frase havia começado de maneira alta e irritada, mas ele voltou ao controle no final enquanto limpava a gota de sangue que havia beijado a mesa. — O que aconteceu lá? — Escorreguei… — Com o punho? — Essa merda! Não importa. O tom de voz do moreno era claro, ele me queria bem longe ou, se eu o conhecesse realmente, diria que estava com ciúmes. Ele se limitou a respirar fundo. — Só me deixa cuidar do ferimento, vou embora e não te incomodo mais. Sei que ultimamente tenho te aborrecido, mas prometo que vou cuidar da sua mão e deixá-lo em paz. Ele me olhou surpreso por breves segundos, parecia que eu havia dito uma coisa totalmente absurda. Seus olhos encararam o chão por mais alguns instantes, pensativos. Até que ele retirou os óculos e limpou a testa dando uma leve gargalhada. Ao ver aquela cena fiquei encantada. Eu o fiz rir, e que risada deliciosa. Quando finalmente se recompôs, o senhor Morgan voltou os olhos castanhos para mim. Percebi que sem os óculos cobrindo seu rosto ele ficava bem melhor. — Não vai me incomodar com sua beleza? — ele perguntou por fim, fazendo minhas bochechas esquentarem. — Posso cobrir o rosto, se quiser. — Ele deu outra risada e achei bom fazê-lo sorrir mais de uma vez. O moreno puxou uma banqueta e me estendeu a mão que sangrava em seguida, dando sua permissão para que eu o ajudasse. Logo me sentei de frente para ele. John era realmente alto e fazia eu me sentir minúscula. Sua mão conseguia envolver a minha, escondendo-a, e isso me fez sorrir. Pedi que a fechasse em punho para que eu pudesse ver melhor o machucado em seus dedos. Ele obedeceu e eu consegui ver os ferimentos pequenos com cacos de vidro cravados na carne. Procurei em minha necessaire uma pinça para retirá-los e joguei o líquido da água nos machucados. Lentamente passei o algodão por cima para limpar o sangue. O homem deu alguns gemidos e pulos de reflexo por conta da dor. — Fico feliz que tenha ficado para o evento. — Tentei distraí-lo ao iniciar uma conversa. O homem me olhou de uma forma divertida e eu me prendi àqueles olhos chamativos por uns instantes. — Quis ver seu trabalho e foi bom ajudar algumas pessoas também. — Passei novamente o algodão no machucado sem conseguir tirar os olhos dele. Jonathan tentou puxar a mão e gemeu com a dor, mas eu a segurei firme. — Calma, estou tentando te ajudar! Um homem desse tamanho choramingando… — falei, voltando a observar meu trabalho. — Não estou choramingando. — Percebi seu nariz torcido como se estivesse ofendido e soltei uma gargalhada. Ele ficou ali, me admirando rir, e me deixando sem graça. — Você é incrivelmente bonita. Jonathan soltou a frase, mas em seus olhos ele dizia que não era para ter saído. Minha reação não foi das melhores, corei e me calei encarando minha mão limpar a dele. Não tive mais coragem de retornar para seus olhos brilhantes depois de ouvi-lo. Quando terminei o moreno me agradeceu, ainda com olhos presos em mim. Minha língua coçou para perguntar se tinha sido bom sorrir depois de um tempo. No entanto, não cheguei a iniciar outra conversa. Ouvi a voz de Carter me chamar parecendo estar bem próxima, e John simplesmente mudou seu humor de imediato. Ele se virou ao monitor quebrado fazendo sinal para que eu saísse. Naquele instante estranhei sua atitude mudar em questão de segundos, mas entendi que era seu jeito natural e eu já deveria estar acostumada. Então, não insisti. Sai dali indo ao encontro de Carter, parado no meio do corredor com seus braços cruzados. — Ele se machucou feio… — sussurrei, vendo que o olhar do rapaz era preocupado. — Ele te deixou entrar na toca! Mas está melhor? — perguntou e eu assenti. — Enfim, nosso passeio está valendo ainda? Sua pergunta saiu como se ele falasse para mais alguém ouvir e eu o encarei de maneira desconfiada. — Sim. Eu, você e Melissa na sexta. Ele me lançou um olhar de cansaço que tentou esconder com um sorriso sutil. Eu também sorri, ainda que meus olhos entregassem minha inquietação ao lembrar do suposto encontro. O evento aconteceu até o fim do horário comercial. Quando voltei para casa dispensei o jantar, comendo apenas uma maçã enquanto ainda pensava no estilo estranho de Jonathan e no tipo de pessoa difícil que ele era. O sono me alcançou depressa durante meus devaneios. Fizeram meu corpo implorar pela cama. Escovei os dentes e penteei os cabelos, amarrando-os num r**o de cavalo no alto da cabeça. Por fim vesti minha roupa de dormir e liguei a televisão, colocando num canal de filmes que me fez apagar rapidamente. Em algum momento da madrugada meu sono foi interrompido pelo barulho de vidro se espatifando no piso. Abri os olhos e ergui meu corpo com tudo, sentando na cama. O susto fez meus batimentos se elevarem. Levei a mão ao peito tentando acalmar o coração com os olhos fixos na porta. Eu ouvi vidro e não sabia dizer se era real ou parte de um sonho, mas por precaução peguei o taco de golfe na cabeceira da cama para me defender. Andei em passos mansos do corredor até as escadas e aparentemente estava tudo em seu lugar visto de cima. Respirei fundo, criando coragem para descer cautelosamente, cogitando ter apenas sonhado com aquele som. As escadas ficavam de frente à porta de entrada da sala de estar. Analisei o chão daquela região, procurando o estrago. Até aquele momento não havia nada. Virei-me então na direção do corredor ao lado das escadas para recomeçar os passos. Em nenhum dos cômodos ao decorrer do caminho havia vestígios de vidro no chão. Segui até onde ficava a cozinha, adentrando-a com toda a calma possível. Encontrei finalmente a porta dos fundos aberta enquanto batia contra parede de fora e, próximo à saída, o que era meu antigo vaso de flores estava espalhado em pedaços no piso. — Ladrão i****a! — exclamei colocando o taco sobre a ilha gourmet de mármore. Peguei um jornal na gaveta da bancada e me abaixei para recolher os cacos. O vaso era grande, de maneira que se alastrou por toda cozinha. Levaria tempo para achar caco por caco para poder reconstruir a peça, mas eu já estava pensando em ir comprar a cola e a tinta para tentar reaver aquele objeto pela manhã. Foi quando paralisei com a sombra escura sobre meus ombros, que foi refletida no vidro cinza ao passar atrás de mim. Apertei o pedaço de vidro que eu segurava entre os dedos com os pensamentos agitados. Sem dar muito tempo me levantei, girando o corpo rapidamente com a mão armada na direção desse alguém. Senti o vidro rasgar a carne do invasor e corri na direção do taco, porém não o encontrei. A sombra veio em minha direção ao mesmo tempo que a campainha tocou e, junto ao desespero, fui para o corredor com a intenção de tentar gritar. Contudo, antes que pudesse fazer aquilo, algo me acertou a cabeça deixando minha visão turva. Totalmente escura como um apagão e, de relance, senti meu corpo tombar para lado. Ainda ouvia a campainha distante como se eu estivesse muito longe dali. Não toquei no chão, pois alguém me tomou nos braços antes que eu fosse envolvida pela completa e silenciosa escuridão.
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