O pequeno escritório dentro do bunker parecia ainda mais apertado agora que Alice estava cercada por pilhas de pastas.
Valente abriu um armário de metal encostado na parede.
De dentro dele começaram a surgir várias pastas grossas.
Azuis.
Verdes.
Cinza.
Algumas com etiquetas.
Outras com anotações feitas à mão.
Ele jogou a primeira sobre a mesa.
Depois outra.
E mais outra.
Em poucos segundos a mesa inteira estava coberta.
Alice arregalou os olhos.
— Meu Deus.
Valente deu de ombros.
— Você pediu números.
Ela abriu uma das pastas.
Folhas.
Planilhas impressas.
Anotações.
Contas.
Listas de pagamentos.
— Isso aqui é muita coisa.
Valente puxou uma cadeira e se sentou de lado.
— Pois é.
Alice levantou o olhar.
— Você já analisou isso tudo?
Ele respondeu imediatamente:
— Não.
Ela piscou.
— Não?
Valente cruzou os braços.
— Eu não entendo nada disso.
Alice franziu a testa.
— Como assim?
— Eu sei quanto entra.
— Sei quanto sai.
— Sei quanto deveria sobrar.
Ele apontou para as pastas.
— Mas quem mexia nisso era o contador.
Alice ficou alguns segundos olhando para ele.
Depois disse devagar:
— O contador…
— Que fugiu com o dinheiro.
Valente assentiu.
— Exatamente.
Alice encostou na cadeira.
— Então deixa eu ver se entendi.
Ela levantou uma das pastas.
— Você construiu um império clandestino.
— Controla centenas de pessoas.
— Administra territórios.
— Coordena produção e venda.
Ela levantou o olhar.
— Mas confiou toda a parte financeira em um cara só?
Valente estreitou os olhos.
— Era o trabalho dele. E você já sabia disso, nem vem tirar onda.
Alice soltou uma pequena risada.
Não foi uma risada divertida.
Foi mais… incrédula.
— Impressionante.
Valente inclinou a cabeça.
— O que foi?
Alice abriu outra pasta.
Folheando rapidamente.
— Você é poderoso.
— Inteligente.
— Claramente sabe o que precisa fazer para manter esse lugar funcionando.
Ela levantou o olhar lentamente.
— Mas financeiramente…
Ela deu um pequeno sorriso debochado.
— Você foi muito... inocente.
O silêncio caiu pesado dentro da sala.
Valente ficou imóvel.
Os olhos dele ficaram um pouco mais escuros.
— Inocente?
Alice deu de ombros.
— Sim.
— Confiar em uma pessoa só para controlar tudo isso…
Ela bateu levemente na pilha de pastas.
— É pedir para dar problema.
Valente se inclinou para frente.
— Você está me chamando de burro?
Alice levantou as mãos.
— Eu não disse isso.
— Mas pensou.
— Eu disse que você confiou demais.
Valente levantou da cadeira.
O movimento foi brusco o suficiente para fazer o metal ranger no chão.
— Você chegou ontem aqui.
— Não sabe metade do que acontece nesse lugar.
Alice não recuou.
Pelo contrário.
Ela inclinou a cabeça.
— E mesmo assim já encontrei o maior erro da sua operação.
Valente ficou olhando para ela.
A irritação estava clara.
Mas havia outra coisa ali também.
Curiosidade.
Alice abriu uma pasta.
— Olha isso aqui.
Ela virou o papel para ele.
— Pagamentos duplicados.
— Comissões infladas.
— Registros que não fecham.
Valente franziu a testa.
— E?
Alice bateu com o dedo na folha.
— Isso aqui é dinheiro evaporando. Se duvidar, o seu prejuízo é muito maior, esse cara atava te roubando na sua cara, já faz tempo.
Ela abriu outra pasta.
— E aqui também.
— E aqui.
Valente ficou em silêncio.
Observando ela virar as páginas.
— Quanto você acha que ele levou?
Valente perguntou.
— Muito.
— Quanto é muito?
— Alguns milhões a mais.
Ele levantou as sobrancelhas.
— Ele trabalhou nisso por muito tempo.
Valente cruzou os braços.
— Provavelmente.
Alice suspirou.
— Isso é pior do que eu pensei.
— Por quê?
— Porque isso aqui não é só roubo.
Ela apontou para as planilhas.
— É sistema.
— Ele montou um esquema para tirar dinheiro sem você perceber.
Valente ficou olhando.
— Você consegue provar?
Alice respondeu sem hesitar.
— Se você me der tempo.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
Depois disse:
— Então prova.
Alice já estava puxando uma cadeira para perto da mesa.
— Eu vou precisar de café.
Valente soltou uma pequena risada.
— Aqui não é escritório de empresa.
— Então manda alguém buscar, você é o chefe.
Ele ficou olhando ela.
Depois virou.
— Eu vou ver como está a produção.
Alice já estava mergulhada nas pastas.
— Vai lá.
— Só não atrapalha meu trabalho.
Valente parou na porta.
— Você é muito folgada.
Alice respondeu sem levantar a cabeça:
— E você é muito dramático. Para um criminoso, você é bem sensível.
Ele saiu da sala.
A porta fechou com um clique seco, ele ficou irritado, mas ela era a única que tinha essa marra toda com ele.
O galpão continuava cheio de movimento.
O barulho das máquinas.
Conversas.
Caixas sendo arrastadas.
Valente caminhou entre os trabalhadores.
Alguns levantaram a cabeça.
Ele respondendo com acenos curtos.
Olhou algumas mesas.
Conferiu caixas.
Observou o ritmo do trabalho.
Dioguinho apareceu alguns minutos depois.
Boné virado para trás.
Camiseta preta.
Olhar atento.
— E aí, chefe.
Valente respondeu:
— Tudo certo por aqui?
— Produção rodando.
Dioguinho olhou na direção do corredor que levava ao escritório.
— E a loirinha?
Valente respondeu:
— Trabalhando.
Dioguinho soltou um pequeno assobio.
— Corajosa.
Valente deu de ombros.
— Ou curiosa.
Dioguinho cruzou os braços.
— Tu tá confiando muito nela. Tu acha isso normal?
Valente não respondeu imediatamente.
Continuou observando os trabalhadores.
Depois perguntou:
— Por quê?
— Porque a última vez que você confiou em alguém assim…
Dioguinho não terminou a frase.
Mas não precisava.
Valente sabia exatamente do que ele estava falando.
O contador.
O dinheiro.
A traição.
Dioguinho continuou:
— Você não tem medo de acontecer de novo? Tu sabe, os caras te ameaçaram, se a grana não aparecer... Você já era. A Barbie não sabe dessa parte, mas tu colocou tua vida na mão dessa garota.
Valente ficou em silêncio.
Depois virou levemente o rosto.
O olhar dele foi para a porta do escritório.
Lá dentro…
Alice estava sentada.
Cercada de pastas.
Concentrada.
Analisando números.
Completamente absorvida no trabalho.
Dioguinho seguiu o olhar dele.
— Ela parece esperta.
Valente respondeu calmamente:
— É.
— Parece mesmo.
Diguinho perguntou:
— E se ela resolver te enganar também? Tu vai rodar irmão, eu tô preocupado.
Valente continuou olhando para o escritório.
A expressão dele ficou neutra.
Quase fria.
— Então ela vai descobrir que foi uma péssima ideia, se resolver me enganar. Você sabe como se resolve essas paradas, a gente só não mandou pra cova aquele contador traidor porque o cara sumiu do mapa.
Dioguinho assentiu devagar.
— Entendi.
Os dois ficaram alguns segundos em silêncio.
Observando.
Alice virou uma página.
Depois outra.
Anotou algo em um caderno.
Nem percebeu que estava sendo observada.
Valente finalmente se virou.
— Vamos voltar ao trabalho.
Dioguinho bateu duas vezes no corrimão da passarela.
— Bora.
Enquanto isso…
Dentro do escritório…
Alice continuava mergulhada nas planilhas.
Os olhos atentos.
A mente funcionando rápido.
E sem perceber…
Ela estava começando a entender algo muito maior.
Não apenas o erro que tinha sido cometido naquele império.
Mas também…
O tamanho real do poder do tráfic0.