Estruturado

1286 Words
O silêncio no escritório durou alguns segundos depois que Alice terminou de explicar o plano. As folhas com os desenhos ainda estavam espalhadas pela mesa. Pontos marcando becos. Rotas. Possíveis áreas de venda. Cálculos rabiscados com caneta. Valente ficou olhando para aquilo tudo como se estivesse vendo o mapa de uma batalha. Dioguinho ainda parecia meio desconfiado, mas também curioso. Porque a verdade era uma só. Eles estavam sem opção. Valente passou a mão pelo queixo devagar. Pensando. Alice ficou em silêncio. Ela sabia que aquele momento era dele. Era ele quem mandava ali. Se ele dissesse não, nada daquilo ia acontecer. Dioguinho então falou primeiro. — Tu tá pensando demais, chefe. Valente levantou o olhar. — E tu tá falando demais. Dioguinho levantou as mãos. — Só tô dizendo… pior do que já tá não fica. Alice cruzou os braços. — Exatamente. Valente respirou fundo. Olhou de novo para os papéis. Depois para Alice. E finalmente abriu um sorriso pequeno. — Vambora, loira. Alice levantou uma sobrancelha. — Como assim? Valente bateu com a mão na mesa. — Tu manda nessa parada. Ele apontou para os papéis. — Bora vender esse bagulho. Dioguinho abriu um sorriso largo. — Aí sim, porr4! Alice também sorriu. Não era um sorriso de euforia. Era mais um sorriso de quem sabia que o jogo tinha começado. Valente estendeu a mão para o centro da mesa. — Então é isso. Dioguinho colocou a mão por cima. — É isso. Alice olhou para os dois por um segundo. Depois colocou a mão também. Três mãos empilhadas. No meio do escritório. No meio do bunker. Valente falou primeiro. — É hora de vender. Dioguinho completou. — Hora de fazer dinheiro. Alice deu o último impulso. — Então vamos trabalhar. Eles jogaram as mãos para o alto. E naquele momento o clima mudou. Porque pela primeira vez desde o golpe do contador… Parecia que eles tinham um plano. A noite caiu sobre a favela. Lá fora, o morro continuava vivo. Música tocando em algumas casas. Crianças correndo pelas vielas. Barulho de moto subindo e descendo. Mas no bunker o movimento tinha diminuído. A produção estava parada por falta de matéria-prima. A maioria dos homens foram ido embora. Só ficaram alguns seguranças espalhados. E os três no escritório. Valente. Dioguinho. Alice. A mesa agora estava cheia de caixas pequenas. Pacotes embalados. Saquinhos lacrados. Alguns com etiquetas. Outros ainda soltos. O cheiro forte do produto tomava o ambiente. Alice estava sentada novamente na cadeira. Mas agora com o notebook aberto. Planilhas na tela. Cálculos correndo. Dioguinho estava sentado no chão. Abrindo uma caixa atrás da outra. — Caralh0… Ele tirou vários pacotes. — Tem muita coisa aqui. Dá pra ficar doidão por anos Valente estava encostado na mesa, contando alguns pacotes. — A produção tava pesada antes de parar. Alice levantou o olhar da tela. — Isso é bom. Dioguinho respondeu: — Bom nada. — Isso aqui parado não vale nada. Alice apontou para o notebook. — Por isso estamos contando. Ela digitou mais algumas coisas. — Quantidade total precisa bater. Valente jogou alguns pacotes em uma pilha. — Aqui deu cento e cinquenta. Dioguinho respondeu: — Aqui mais duzentos. Alice anotou. — Ótimo. Ela puxou outra planilha. — Agora vamos separar por caixa. Dioguinho levantou uma sobrancelha. — Já? Alice respondeu: — Sim. — Cada aviãozinho vai sair amanhã com uma caixa específica. Valente perguntou: — Quanto em cada? Alice virou o notebook para eles. — Depende do ponto de venda. A gente precisa saber que tipo de droga tá vendendo mais. Ela apontou para o mapa que tinha desenhado. — Beco principal. — Viela da quadra. — Subida do mercado. Ela foi apontando. — Cada lugar tem fluxo diferente. Dioguinho assobiou. — Tu estudou a favela inteira já? Alice respondeu tranquila: — Eu observei e decorei olhando os mapas do Valente. Valente sorriu de canto. — A loira presta atenção em tudo. Alice continuou digitando. — Aqui. Ela apontou para a tela. — Cada caixa vai ter um valor estimado de venda. — E custo. Dioguinho franziu a testa. — Custo? — Aviãozinho também ganha. — Claro que ganha. — Então isso entra na conta. Ela virou a tela. — Se cada um receber uma porcentagem pequena… Mas suficiente para aceitarem trabalhar pra gente... — Ainda sobra muito. Valente olhou os números. — Tu já calculou tudo? Alice respondeu: — Já. Ela fechou o notebook por um segundo. — Se vender tudo isso aqui… Ela apontou para as caixas. — Já começa a entrar dinheiro. Dioguinho riu. — Tu fala como se fosse fácil. Alice respondeu calma: — Não é fácil. — Mas é possível. Eles continuaram trabalhando. Separando pacotes. Montando caixas. Anotando quantidades. O relógio já tinha passado da meia-noite. Valente abriu outra caixa. — Aqui tem mais. Dioguinho pegou alguns pacotes. — Esse aqui vai pro beco da escadaria. Alice anotou. — Dez pacotes ali. — Vinte na entrada. — Quinze na rua de baixo. Ela digitava rápido. Tudo organizado. Valente olhou para ela. — Tu fazia isso na faculdade? Aprendeu a traficar foi? Alice riu. — Não exatamente. — Então como tu sabe tanto de venda de drog4? Alice encostou na cadeira. Pensando por um segundo. — Porque na faculdade o que mais tinha era mauricinho e patricinha viciada. Então dá pra saber o que essa gente gosta e como funciona os esquemas. Dioguinho soltou uma gargalhada. — Sério? — Muito. Ela cruzou as pernas. — Gente com dinheiro. — Muito dinheiro. Valente inclinou a cabeça. — E? Alice respondeu: — Eles compram sem nem perguntar o preço. Dioguinho arregalou os olhos. — Aí sim. Alice continuou: — Mas tem um detalhe. Valente perguntou: — Qual? Alice respondeu: — Eles não vêm até a favela. Silêncio. Valente cruzou os braços. — Então? Alice abriu um pequeno sorriso. — Então o traficante vai até eles. Dioguinho piscou. — Como assim? Alice respondeu simples. — Baladas. — Festas de faculdade. — Eventos. Valente ficou olhando. Alice continuou. — Eu já vi isso acontecer. — Gente vendendo em banheiro de balada. — Em estacionamento. — Em festa universitária. Ela levantou o olhar. — O rico não sobe o morro. — Mas ele paga bem. Dioguinho deu um tapa no joelho. — Caralh0! Como a gente nunca pensou nisso? Valente começou a rir. — A loira é um gênio. Alice pegou outra folha. — Se vocês colocarem alguns vendedores nesses lugares… — O lucro sobe rápido. E dá pra vender até mais caro lá. Valente perguntou: — Tu acha que rola? Alice respondeu: — Eu tenho certeza. Dioguinho já parecia empolgado. — Conheço uns moleque que frequentam essas festas. Valente assentiu. — Dá pra organizar. Alice voltou para o notebook. — Então vamos incluir isso no plano. Ela digitou algumas coisas. — Venda no morro. — Venda externa. — Distribuição ampliada. Valores diferentes. Valente observava. Cada palavra dela parecia encaixar mais uma peça naquele quebra-cabeça. Ele passou a mão pelo rosto devagar. Porque pela primeira vez… O desastre que o contador tinha deixado… Parecia um pouco menos impossível de resolver. Dioguinho fechou a última caixa. — Tá ficando bonito. Alice olhou para as pilhas organizadas. — Amanhã começa. Valente perguntou: — Recrutar? — Sim. Ela levantou da cadeira. — Aviãozinho em cada beco. — Gente vendendo. — Propaganda rodando. Dioguinho abriu um sorriso. — Favela inteira vendendo. Alice respondeu: — Exatamente. Valente olhou para as caixas empilhadas. Depois para ela. E falou baixo. — Vamos ver se teu plano salva a gente, loira. Alice respondeu tranquila. — Vai salvar. E pela primeira vez em muitos dias… O bunker não parecia mais um lugar prestes a afundar. Parecia uma máquina prestes a voltar a funcionar.
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