O eco dos tiros continuava rasgando a madrugada. Primeiro distante. Depois mais perto. Depois perto demais. Valente ficou parado por um segundo no meio do beco estreito, ouvindo o som se espalhar pelo morro como uma onda. Quem cresceu em lugar assim aprende cedo a reconhecer barulho de tiro. A distinguir de onde vem. A perceber quando é coisa pequena… e quando é coisa grande. Aquilo não era coisa pequena. Mais dois disparos ecoaram. Gritos. Portas batendo. Cachorros latindo. O morro acordava no susto. Dioguinho desceu do caminhão correndo e veio até ele. — Tá dando r**m. Valente já tinha percebido. Ele olhou para o alto da favela, onde as casas subiam coladas umas nas outras, iluminadas por lâmpadas improvisadas, fios cruzando o céu como teias. Alguma coisa estava acontecend

