Estratégia da Noite

1519 Words
A noite caiu devagar sobre o Morro das Garças. Primeiro veio o tom alaranjado do entardecer, queimando atrás dos prédios distantes da cidade. Depois o céu foi escurecendo aos poucos, até que as primeiras luzes começaram a aparecer no morro — lâmpadas fracas nas casas, faróis de motos subindo as vielas, televisões acesas iluminando janelas abertas. Lá embaixo, no galpão, o clima era diferente do de qualquer outro dia. Mais silencioso. Mais concentrado. Menos gente circulando. Valente tinha mandado dispensar quem não precisava estar ali naquela noite. Quanto menos gente soubesse do que estava acontecendo, melhor. Alice — ou Barbie, como ele chamava — já tinha transformado uma das paredes do escritório do bunker em um quadro improvisado. Um pedaço grande de madeira branca apoiado na parede, cheio de anotações feitas com marcador preto. Setas. Círculos. Horários. Rotas. Pontos marcados com cuidado. Ela estava parada na frente do quadro agora. Cabelo preso num r**o de cavalo alto, camisa social dobrada até os cotovelos, calça jeans justa e um salto que parecia completamente fora de lugar naquele ambiente de concreto e armas. Mesmo assim, ela dominava a sala. Valente, Dioguinho e mais dez homens estavam espalhados pelo escritório do bunker. Alguns sentados em caixas. Outros encostados na parede. Todos olhando para ela. Alice bateu a ponta da caneta no quadro. — Atenção. O burburinho acabou. Ela apontou para o primeiro desenho. Um retângulo grande. — Esse é o galpão onde os caminhões precisam parar. Uma seta saía dali. — Eles chegam aqui na cidade entre meia-noite e duas da manhã. Ela virou para o grupo. — A informação mais provável é perto das duas. Dioguinho perguntou: — E se atrasar? — A gente espera — respondeu ela. — E se adiantar? — Também estamos prontos. Ela desenhou dois pequenos quadrados na estrada. — Aqui é o ponto da interceptação. Valente cruzou os braços. — Estrada industrial. Alice assentiu. — Pouco movimento depois da meia-noite. Ela continuou: — Vocês dois… Apontou para Valente e Dioguinho. — Vão estar posicionados antes da curva. Valente perguntou: — Nos carros? — Sim. Ela virou a caneta entre os dedos. — Quando os caminhões aparecerem… Ela fez um gesto rápido com a mão. — Vocês fecham a frente deles. Um dos homens perguntou: — E os motoristas? Alice olhou para ele. — Vocês rendem. O silêncio na sala ficou pesado por um segundo. Ela não desviou o olhar. — Sem hesitação. Valente permaneceu quieto. Ele sabia exatamente o que aquilo significava. Alice voltou ao quadro. Desenhou dois caminhões. — Depois disso, vocês assumem os caminhões. Apontou para Valente. — Você dirige o primeiro. Depois para Dioguinho. — Você o segundo. Dioguinho fez um gesto de confirmação. — Certo. Alice então apontou para outro ponto no mapa. — Aqui é o terreno abandonado. Uma área escura perto de uma antiga fábrica desativada. — Os caminhões nossos vão estar esperando aqui. Ela apontou para os dez homens. — Vocês ficam posicionados nesse ponto. Um deles perguntou: — Com os caminhões ligados? — Sim. Alice respondeu sem hesitar. — Tudo pronto para transferência. Ela desenhou várias caixas entre os caminhões. — Assim que Valente e Dioguinho chegarem… — A carga começa a ser passada. Ela olhou para todos. — Rápido. — Sem conversa. — Sem distração. Dioguinho perguntou: — Quanto tempo? Alice pensou alguns segundos. — Dez minutos. Um dos homens riu nervoso. — Dez minutos? Ela encarou ele. — Se demorar mais que isso, já deu errado. Esses caminhões devem ter rastreadores, vai ser questão de tempo até alguém notar que saiu da rota e aparecer lá. Silêncio novamente. Valente sorriu de lado. — Ela tá certa. Alice continuou: — Depois que os caminhões do morro rival estiverem vazios… Ela fez um risco forte no quadro. — Fogo. Um dos homens comentou: — Vai chamar atenção. Alice respondeu: — Já estaremos longe. Valente apoiou as mãos na mesa. — E os corpos? A sala ficou quieta. Alice respondeu de forma direta: — Vocês tiram da estrada. — Levam para dentro do terreno. — Depois resolvem. Ela não entrou em detalhes. Nem precisava. Dioguinho passou a mão pelo rosto. — Isso vai dar trabalho. Alice cruzou os braços. — Trabalho que vai salvar o estoque do morro. Valente olhou para os homens. — Ela tem razão. Ele deu dois passos para frente. — A gente tá zerado. — Sem matéria-prima. — Sem carga. — Sem margem. Ele apontou para o quadro. — Essa entrega muda tudo. Dá pra produzir muita parada e vender, pra recuperar uma parte da grana e fazer girar. Os homens trocaram olhares. Todos sabiam. Aquilo podia colocar o Morro das Garças novamente no jogo. Alice respirou fundo. — Agora vamos falar da comunicação. Ela tirou dois rádios de cima da mesa. — Um com Valente. — Um com Dioguinho. — Eu fico no bunker. Valente ergueu uma sobrancelha. — Controlando tudo. Ela assentiu. — Eu acompanho o tempo. — A rota. — Qualquer movimento estranho. Dioguinho perguntou: — E se der problema? Alice respondeu sem hesitar. — Vocês me avisam. — E a gente adapta. Ela então apagou parte do quadro. E escreveu três palavras grandes: DISCIPLINA. VELOCIDADE. SILÊNCIO. — Se alguém vacilar… — ela disse — o plano quebra. Valente apoiou o ombro na parede. Observando ela falar. Ele não podia negar. Alice parecia completamente no controle. Confiante. Fria. Calculista. Exatamente o que aquele tipo de operação precisava. Depois de quase uma hora revisando cada detalhe, ela finalmente fechou o marcador. — Dúvidas? Ninguém falou nada. Valente olhou ao redor. — Então vamos trabalhar. O resto da noite virou preparação. Os caminhões do morro foram buscados em um terreno afastado. Velhos. Mas potentes. Os motores foram ligados para garantir que tudo funcionava. Dioguinho passou quase vinte minutos verificando freios, faróis e combustível. — Não quero ficar parado no meio da estrada — resmungou. Valente apareceu com duas garrafas de água. — Relaxa. Dioguinho pegou uma. — Tu tá relaxado demais. Valente deu um gole. — Porque esse plano vai funcionar. — Ou porque tu gosta do risco? Valente sorriu. — Um pouco dos dois. Mais tarde, já perto da meia-noite, todos voltaram para o bunker. Alice estava na sala principal. Agora com três telas de computador ligadas. Mapas. Relógios. Um rádio em cada lado da mesa. Ela parecia um centro de controle. Valente entrou. — Tudo pronto? Alice nem olhou para ele. — Caminhões posicionados? — Sim. — Homens no ponto de transferência? — Sim. — Combustível suficiente? — Sim. Ela finalmente levantou os olhos. — Então estamos prontos. Dioguinho entrou logo atrás. — Que horas são? Alice olhou o relógio. — 00:37. Valente pegou um dos rádios. — Então é agora. Alice entregou dois fones. — Comunicação direta comigo. Dioguinho colocou o dele no ouvido. — Vamos nessa. Valente caminhou até a porta do bunker. Antes de sair, olhou para Alice. — Confia no plano? Ela respondeu com calma. — Confio em mim. Valente riu. — Justo. Ele saiu. Dioguinho foi atrás. Lá fora, a noite estava fria. As luzes da cidade brilhavam ao longe. Os dois caminharam até os carros que usariam para chegar ao ponto da interceptação. Valente entrou no banco do motorista. Ligou o motor. O rádio chiou. A voz de Alice apareceu no fone. — Teste de comunicação. Valente respondeu: — Te ouvindo. Dioguinho também: — Claro aqui. Alice respirou fundo do outro lado da linha. — Então vamos começar. Os carros saíram do morro. Descendo devagar pelas ruas estreitas. A estrada industrial ficava a cerca de vinte minutos dali. Enquanto dirigia, Valente sentia aquela sensação familiar crescendo no peito. Adrenalina. Expectativa. Perigo. Ele gostava daquilo. Dioguinho, no banco de trás, parecia mais tenso. Haviam mais dois homens junto com eles, que levariam o carro, quando Valente e Dioguinho assumissem a direção dos caminhões roubados, mas esses, nem falavam. — Se isso virar emboscada… — ele falou. Valente respondeu: — A gente resolve. Alice entrou na conversa. — Foco. — Vocês estão a dez minutos da posição. Valente olhou a estrada. Quase vazia. Postes iluminando trechos irregulares do asfalto. — Visual limpo — ele disse. No bunker, Alice acompanhava tudo. Um mapa aberto na tela. Pontos marcando as rotas. Relógio correndo. Ela pegou o telefone e ligou para o outro grupo. — Equipe de transferência? A voz de um dos homens respondeu: — Posicionados. — Caminhões prontos? — Sim. Ela anotou algo no caderno. — Fiquem atentos. Voltou para o rádio principal. — Valente, Dioguinho… vocês estão chegando. Alice era esperta, acompanhava tudo por rastreadores acoplados no carro e nos caminhões da favela. Então os dois carros desaceleraram. A curva da estrada apareceu à frente. Escura. Silenciosa. Perfeita para uma emboscada. Valente estacionou o carro. Apagou os faróis. Os dois saíram do veículo. Ficaram encostados esperando. O vento frio passava pela estrada vazia. Valente olhou o relógio. 00:58. No bunker, Alice acompanhava cada segundo. — Fiquem atentos — ela disse no rádio. — Os caminhões devem aparecer a qualquer momento. O silêncio voltou a dominar a estrada. E naquele momento todos sabiam: o plano estava em movimento.
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