O Morro das Garças brilhava naquela noite.
Lá de baixo, da avenida principal, as luzes coloridas pareciam vaga-lumes elétricos piscando no alto da comunidade. O som grave do funk atravessava os prédios e subia pela cidade como um aviso: ali em cima, quem mandava era outro tipo de lei.
E no centro de tudo isso… estava ele.
Bruno Valente.
Mas ninguém ousava chamá-lo assim.
Para o morro inteiro — e para quem vinha de fora negociar — ele era apenas Valente.
O dono das Garças.
O chefe.
O homem que decidia quem ficava… e quem descia o morro dentro de um saco preto.
Ele estava encostado no parapeito da laje principal, observando o baile de cima, como um rei assistindo seu reino. Camisa preta justa, corrente grossa no pescoço, tatuagem tribal subindo pelo antebraço. O olhar era sempre duro, sempre avaliando.
Valente não sorria à toa.
Dinheiro entrava.
Dinheiro saía.
Arma girava.
Confiança se comprava.
E traição… se pagava com sangue.
Ele nunca acreditou em lealdade. Só acreditava em controle.
— Quanto entrou hoje? — perguntou sem olhar para o lado.
Dioguinho, braço direito desde a adolescência, respondeu rápido:
— Muito, chefe. A boca da parte alta vendeu tudo. Tá fluindo.
Valente assentiu.
Mas sua mente não estava totalmente ali.
Ele odiava festa grande demais. Gente demais. Movimento demais. Quanto mais olhos, maior o risco.
E foi exatamente por isso que ele a viu.
Ela destoava.
Como uma mancha branca no meio do escuro.
Cabelo loiro impecável. Pele clara demais. Roupas caras demais.
Postura ereta demais.
Alice Prado não parecia pertencer àquele lugar.
E ainda assim… estava ali.
Alice
Ela odiava ambientes onde precisava fingir.
Nos jantares da família Prado, cada palavra tinha peso. Cada gesto era calculado. Cada sorriso era ensaiado.
Ali no morro… ninguém ligava para etiqueta.
E aquilo era estranhamente libertador.
Ela estava com as amigas da faculdade.
Camila e Jéssica moravam ali desde sempre. Foram as únicas que nunca a trataram como “a herdeira”. Na sala de aula, Alice era apenas a melhor aluna de contábeis.
A que desmontava balanços como quem resolve sudoku.
A que via erro onde ninguém via.
Números eram simples. Pessoas não.
— Relaxa, Alice — Camila riu — aqui ninguém vai te sequestrar.
— Eu não tô com medo.
Ela estava irritada.
Com os pais.
Com o pai, principalmente.
"Você vai assumir o financeiro da holding da família."
"Não é uma opção."
Sempre não era uma opção.
Sempre uma ordem.
Ela queria construir algo sozinha. Provar que era mais do que o sobrenome Prado.
E naquela noite, ela queria sentir qualquer coisa que não fosse controle.
Só não imaginava que encontraria um tipo diferente de controle.
O Primeiro Olhar...
Valente desceu da laje.
Ele não gostava de novidade.
E aquela garota era novidade demais.
A multidão abria espaço automaticamente quando ele passava. Respeito. Medo. Ambos.
Alice estava rindo de algo que Camila falou quando sentiu a energia mudar.
O som parecia mais distante.
As pessoas ficaram mais tensas.
Ela virou o rosto.
E viu.
Moreno. Alto. Mandíbula travada. Olhos escuros que não piscavam à toa.
Ele não tinha cara de garoto do morro.
Tinha cara de quem mandava no morro.
Ele parou na frente dela.
Analisando.
Como se fosse mercadoria suspeita.
— E você é o quê? — a voz era grave, baixa, perigosa. — Veio fazer turismo de favela?
Camila imediatamente se colocou na frente.
— Ela é minha amiga.
— Amiga? — ele arqueou a sobrancelha. — Com essa cara de condomínio fechado?
Alice cruzou os braços.
Não desviou o olhar.
— E você é sempre m*l-educado assim ou só quando tá se sentindo inseguro?
Silêncio.
Alguém mais longe soltou um "ihhh".
Dioguinho quase engasgou.
Ninguém falava daquele jeito com Valente.
Ninguém.
O maxilar dele travou.
Ele deu um passo mais perto.
— Escuta aqui, Barbie — ele falou baixo, só para ela ouvir — gente como você entra aqui, olha tudo, depois vai lá pra baixo dedurar esquema.
Alice não recuou.
— Gente como eu? Você nem sabe quem eu sou.
— Sei o suficiente.
— Então fala.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Problema.
Ela sorriu de canto.
— Engraçado. Eu estou pensando a mesma coisa sobre você.
O ar entre os dois ficou pesado.
Não era só provocação.
Era desafio.
E Valente odiava desafio.
Mas também… se alimentava dele.
— Some do meu morro — ele disse, por fim. — Enquanto eu tô pedindo com educação.
Alice inclinou o rosto.
— Eu não recebo ordem de estranho.
Ele quase riu.
Quase.
Mas apenas virou as costas.
— Se ela pisar aqui de novo, quero saber.
Depois da Festa
No carro, descendo o morro, Alice sentia o coração acelerado.
Não de medo.
De adrenalina.
Ele era insuportável.
Arrogante.
Autoritário.
Mas havia algo ali.
Uma intensidade crua.
Sem máscara.
Sem fingimento.
Enquanto isso, lá em cima, Valente estava irritado demais para admitir o motivo.
— Essa garota não me cheira bem, eu nunca vi ela aqui — Dioguinho comentou.
— Fica de olho.
Mas a verdade?
Ele não estava preocupado com denúncia.
Ele estava incomodado porque ela não abaixou a cabeça pra ele.
E poucas pessoas no mundo tinham coragem de enfrentá-lo olhando nos olhos.
Na semana seguinte, Alice voltou.
E na outra também.
Sempre para ver as amigas, curtir as festas.
Sempre sob o olhar atento dos soldados do morro.
Valente fingia que não se importava.
Mas sempre sabia quando ela estava ali.
Até que, numa tarde abafada, o som de tiros ecoou pelo morro.
Não era briga pequena.
Era guerra interna.
E naquela noite, Valente anunciou na laje:
— Tinha traidor entre nós. Levou a grana. Achou que ia fugir. Não vai.
O morro inteiro ficou em silêncio.
— Mas estamos zerados. Quem roubou vai pagar. E quem ajudar… também.
Alice ouviu aquilo de dentro da casa de Camila.
“Estamos zerados.”
Sem dinheiro.
Sem controle financeiro.
Sem rastreio.
Sem contabilidade estruturada.
Ela sentiu algo diferente.
Não medo.
Oportunidade.