A Festa no Alto

1141 Words
‎O Morro das Garças brilhava naquela noite. ‎Lá de baixo, da avenida principal, as luzes coloridas pareciam vaga-lumes elétricos piscando no alto da comunidade. O som grave do funk atravessava os prédios e subia pela cidade como um aviso: ali em cima, quem mandava era outro tipo de lei. ‎E no centro de tudo isso… estava ele. ‎Bruno Valente. ‎Mas ninguém ousava chamá-lo assim. ‎Para o morro inteiro — e para quem vinha de fora negociar — ele era apenas Valente. ‎O dono das Garças. ‎O chefe. ‎O homem que decidia quem ficava… e quem descia o morro dentro de um saco preto. ‎Ele estava encostado no parapeito da laje principal, observando o baile de cima, como um rei assistindo seu reino. Camisa preta justa, corrente grossa no pescoço, tatuagem tribal subindo pelo antebraço. O olhar era sempre duro, sempre avaliando. ‎Valente não sorria à toa. ‎Dinheiro entrava. ‎Dinheiro saía. ‎Arma girava. ‎Confiança se comprava. ‎E traição… se pagava com sangue. ‎Ele nunca acreditou em lealdade. Só acreditava em controle. ‎— Quanto entrou hoje? — perguntou sem olhar para o lado. ‎Dioguinho, braço direito desde a adolescência, respondeu rápido: ‎— Muito, chefe. A boca da parte alta vendeu tudo. Tá fluindo. ‎Valente assentiu. ‎Mas sua mente não estava totalmente ali. ‎Ele odiava festa grande demais. Gente demais. Movimento demais. Quanto mais olhos, maior o risco. ‎E foi exatamente por isso que ele a viu. ‎Ela destoava. ‎Como uma mancha branca no meio do escuro. ‎Cabelo loiro impecável. Pele clara demais. Roupas caras demais. ‎Postura ereta demais. ‎Alice Prado não parecia pertencer àquele lugar. ‎E ainda assim… estava ali. ‎Alice ‎Ela odiava ambientes onde precisava fingir. ‎Nos jantares da família Prado, cada palavra tinha peso. Cada gesto era calculado. Cada sorriso era ensaiado. ‎Ali no morro… ninguém ligava para etiqueta. ‎E aquilo era estranhamente libertador. ‎Ela estava com as amigas da faculdade. ‎Camila e Jéssica moravam ali desde sempre. Foram as únicas que nunca a trataram como “a herdeira”. Na sala de aula, Alice era apenas a melhor aluna de contábeis. ‎A que desmontava balanços como quem resolve sudoku. ‎A que via erro onde ninguém via. ‎Números eram simples. Pessoas não. ‎— Relaxa, Alice — Camila riu — aqui ninguém vai te sequestrar. ‎— Eu não tô com medo. ‎Ela estava irritada. ‎Com os pais. ‎Com o pai, principalmente. ‎"Você vai assumir o financeiro da holding da família." ‎"Não é uma opção." ‎Sempre não era uma opção. ‎Sempre uma ordem. ‎Ela queria construir algo sozinha. Provar que era mais do que o sobrenome Prado. ‎E naquela noite, ela queria sentir qualquer coisa que não fosse controle. ‎Só não imaginava que encontraria um tipo diferente de controle. ‎O Primeiro Olhar... ‎Valente desceu da laje. ‎Ele não gostava de novidade. ‎E aquela garota era novidade demais. ‎A multidão abria espaço automaticamente quando ele passava. Respeito. Medo. Ambos. ‎Alice estava rindo de algo que Camila falou quando sentiu a energia mudar. ‎O som parecia mais distante. ‎As pessoas ficaram mais tensas. ‎Ela virou o rosto. ‎E viu. ‎Moreno. Alto. Mandíbula travada. Olhos escuros que não piscavam à toa. ‎Ele não tinha cara de garoto do morro. ‎Tinha cara de quem mandava no morro. ‎Ele parou na frente dela. ‎Analisando. ‎Como se fosse mercadoria suspeita. ‎— E você é o quê? — a voz era grave, baixa, perigosa. — Veio fazer turismo de favela? ‎Camila imediatamente se colocou na frente. ‎— Ela é minha amiga. ‎— Amiga? — ele arqueou a sobrancelha. — Com essa cara de condomínio fechado? ‎Alice cruzou os braços. ‎Não desviou o olhar. ‎— E você é sempre m*l-educado assim ou só quando tá se sentindo inseguro? ‎Silêncio. ‎Alguém mais longe soltou um "ihhh". ‎Dioguinho quase engasgou. ‎Ninguém falava daquele jeito com Valente. ‎Ninguém. ‎O maxilar dele travou. ‎Ele deu um passo mais perto. ‎— Escuta aqui, Barbie — ele falou baixo, só para ela ouvir — gente como você entra aqui, olha tudo, depois vai lá pra baixo dedurar esquema. ‎Alice não recuou. ‎— Gente como eu? Você nem sabe quem eu sou. ‎— Sei o suficiente. ‎— Então fala. ‎Ele inclinou levemente a cabeça. ‎— Problema. ‎Ela sorriu de canto. ‎— Engraçado. Eu estou pensando a mesma coisa sobre você. ‎O ar entre os dois ficou pesado. ‎Não era só provocação. ‎Era desafio. ‎E Valente odiava desafio. ‎Mas também… se alimentava dele. ‎— Some do meu morro — ele disse, por fim. — Enquanto eu tô pedindo com educação. ‎Alice inclinou o rosto. ‎— Eu não recebo ordem de estranho. ‎Ele quase riu. ‎Quase. ‎Mas apenas virou as costas. ‎— Se ela pisar aqui de novo, quero saber. ‎Depois da Festa ‎No carro, descendo o morro, Alice sentia o coração acelerado. ‎Não de medo. ‎De adrenalina. ‎Ele era insuportável. ‎Arrogante. ‎Autoritário. ‎Mas havia algo ali. ‎Uma intensidade crua. ‎Sem máscara. ‎Sem fingimento. ‎Enquanto isso, lá em cima, Valente estava irritado demais para admitir o motivo. ‎— Essa garota não me cheira bem, eu nunca vi ela aqui — Dioguinho comentou. ‎— Fica de olho. ‎Mas a verdade? ‎Ele não estava preocupado com denúncia. ‎Ele estava incomodado porque ela não abaixou a cabeça pra ele. ‎E poucas pessoas no mundo tinham coragem de enfrentá-lo olhando nos olhos. ‎ ‎Na semana seguinte, Alice voltou. ‎E na outra também. ‎Sempre para ver as amigas, curtir as festas. ‎Sempre sob o olhar atento dos soldados do morro. ‎Valente fingia que não se importava. ‎Mas sempre sabia quando ela estava ali. ‎Até que, numa tarde abafada, o som de tiros ecoou pelo morro. ‎Não era briga pequena. ‎Era guerra interna. ‎E naquela noite, Valente anunciou na laje: ‎— Tinha traidor entre nós. Levou a grana. Achou que ia fugir. Não vai. ‎O morro inteiro ficou em silêncio. ‎— Mas estamos zerados. Quem roubou vai pagar. E quem ajudar… também. ‎Alice ouviu aquilo de dentro da casa de Camila. ‎“Estamos zerados.” ‎Sem dinheiro. ‎Sem controle financeiro. ‎Sem rastreio. ‎Sem contabilidade estruturada. ‎Ela sentiu algo diferente. ‎Não medo. ‎Oportunidade.
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