A porta do escritório do bunker estava entreaberta quando Valente subiu a escada de concreto.
Lá embaixo, o barulho das máquinas continuava constante — aquele ronco metálico que parecia fazer parte da própria estrutura do lugar. Mas conforme ele subia, o som ia ficando mais distante, abafado pelas paredes grossas de concreto.
O escritório era o único lugar ali dentro que parecia minimamente organizado.
Mesa grande de madeira escura.
Computador ligado.
Luz branca de luminária.
E um monte de pastas abertas espalhadas pela mesa.
Alice estava sentada na cadeira, com as pernas cruzadas, inclinada sobre os papéis.
Concentrada.
Muito concentrada.
O cabelo loiro caía pelo ombro enquanto ela analisava um dos relatórios com uma caneta na mão.
Ela nem percebeu quando Valente parou na porta.
Ele ficou alguns segundos só observando.
Era estranho ver aquela mulher ali.
No meio daquele caos.
No meio de um bunker de produção ilegal numa favela do Rio.
E ainda assim ela parecia… confortável.
Como se estivesse no escritório de uma empresa qualquer.
Alice virou uma página.
Depois outra.
Franziu a testa.
Fez uma anotação num caderno.
Só então levantou o olhar.
E viu ele.
— Ah, apareceu.
Ela apoiou o cotovelo na mesa.
— Pensei que tinha desistido de encarar seus próprios números.
Valente entrou devagar.
— E aí? Descobriu alguma coisa?
Alice não respondeu de imediato.
Pegou uma das pastas.
Folheou algumas páginas.
Depois empurrou para ele.
— Explica isso aqui.
Valente puxou a pasta.
Olhou rapidamente.
— Produção mensal.
— Eu sei ler.
Ela falou seca.
— O que eu quero saber é outra coisa.
Ela pegou outra pasta.
Abriu.
Virou na direção dele.
— Aqui estão as entradas de capital.
Valente olhou.
— E?
Alice inclinou o corpo para frente.
— Você disse que perdeu dez milhões.
Valente respondeu na hora.
— Foi o que o contador levou. Ele tinha que fazer o pagamento naquele dia.
Alice ficou olhando para ele em silêncio por alguns segundos.
Depois pegou mais uma pasta.
Abriu.
— Então você vai precisar me explicar isso aqui.
Ela virou a página para ele.
Valente fingiu analisar.
Mas por dentro ele já sabia exatamente o que estava ali.
Alice bateu a ponta da caneta no papel.
— Aqui estão os registros de investimento.
Ela apontou para as linhas.
— Transferências.
— Depósitos.
— Capital externo.
Ela ergueu o olhar.
— Vinte milhões.
O silêncio ficou pesado no escritório.
Valente franziu a testa.
— Como assim?
Alice inclinou a cabeça.
Observando a reação dele.
— Como assim o quê?
— Isso aí tá errado.
Alice soltou uma risadinha curta.
— Não.
Ela bateu na pasta.
— Não está.
Ela puxou outra pasta.
— Está aqui também.
Outra.
— E aqui.
Outra.
— E aqui.
Ela abriu os braços.
— Quer mais prova?
Valente passou a mão no rosto.
— Esse filho da put4…
Alice ficou observando.
Ele parecia irritado.
De verdade.
— Esse desgraçad0 roubou vinte milhões?
Alice corrigiu.
— Não.
Ela cruzou os braços.
— Vinte milhões eram o investimento. Você perdeu mais um pouco em produção, já que ele sumiu com a carga naquele dia também.
Valente olhou para ela.
— Então só o rombo é de vinte.
Alice assentiu.
— Exatamente.
Valente se levantou da cadeira de repente.
Deu um soco na mesa.
— Filho da put4!
Os papéis tremeram.
— Se eu encontro esse cara…
Ele respirou fundo.
Passou a mão pelo cabelo.
— Eu mato ele.
Alice não se assustou.
Só ficou olhando.
Calma.
Muito calma.
— Socar e quebrar mesa não vai resolver.
Valente soltou o ar pesado.
— Tu não tá entendendo.
— Tô entendendo perfeitamente.
Ela apontou para os papéis.
— Alguém administrava esse dinheiro.
— Esse alguém fugiu.
— E agora você está no prejuízo.
Valente andou de um lado para o outro no escritório.
— Prejuízo é pouco.
Ele chutou a cadeira.
— Esse cara acabou comigo!
Alice apoiou o queixo na mão.
— Drama desnecessário.
Valente parou.
— Drama?
— Sim.
Ela fechou uma das pastas.
— Porque esse dinheiro não desapareceu.
Ele olhou para ela.
— Como assim?
— Ele foi transferido.
— Lavado.
— Movimentado.
Ela pegou o caderno com as anotações.
— E deixou rastros.
Valente ficou olhando.
Alice continuou.
— Seu contador era bom.
— Mas não perfeito.
Ela virou o caderno para ele.
— Ele usou empresas fantasmas.
— Contas intermediárias.
— Mas fez transferências grandes demais.
Valente se aproximou da mesa.
— Dá pra achar?
Alice deu de ombros.
— Talvez.
— Talvez?
— Não é simples.
Ela cruzou as pernas.
— Mas também não é impossível.
Valente apoiou as duas mãos na mesa.
— Quanto tempo?
Alice pensou.
— Algumas semanas para mapear tudo.
— E depois?
— Depois depende.
— Depende do quê?
— De como você pretende recuperar o dinheiro.
Valente franziu a testa.
— Recuperar?
— Sim.
Ela olhou diretamente para ele.
— Porque encontrar para onde o dinheiro foi não significa que ele ainda está lá.
Valente ficou em silêncio.
Alice abriu um pequeno sorriso.
— Mas tem uma coisa boa nisso tudo.
— O quê?
— Você tem potencial para recuperar essa grana.
Valente soltou uma risada sem humor.
— Potencial…
— Sim.
Ela pegou outra pasta.
— Sua produção mensal gira em torno de vinte milhões.
Valente assentiu devagar.
— Com organização financeira…
— Melhor controle…
— E expansão de distribuição…
Ela bateu a caneta na mesa.
— Isso pode até dobrar.
Valente levantou uma sobrancelha.
— Dobrar?
— Fácil.
Ele cruzou os braços.
— Fácil pra quem?
— Pra mim.
Ela sorriu de lado.
— Eu já vi empresas muito mais bagunçadas que isso.
Valente ficou olhando para ela.
Por um momento.
A confiança daquela mulher era quase irritante.
Mas também…
Impressionante.
Ele ia responder alguma coisa quando a porta do escritório abriu de repente.
Dioguinho entrou.
Sem bater.
— Valente.
O tom dele já dizia que não era coisa boa.
Valente virou.
— Fala.
Dioguinho coçou a cabeça.
— Deu r**m.
— O que foi agora?
— Acabou.
Valente franziu a testa.
— Acabou o quê?
Dioguinho respondeu direto.
— A matéria-prima.
O silêncio caiu no escritório.
Alice olhou de um para o outro.
— Matéria-prima?
Valente encarou Dioguinho.
— Como assim acabou?
— O último lote foi pra produção agora pouco.
— E?
— E não tem mais nada no estoque.
Valente passou a mão pelo rosto.
— E o fornecedor?
Dioguinho balançou a cabeça.
— Não entrega sem pagamento.
Valente ficou imóvel.
— Quanto?
— Quatrocentos mil.
Alice levantou as sobrancelhas.
Valente perguntou baixo:
— E caixa?
Dioguinho respondeu:
— Zero. A gente mandou o último cascalho de garantia ontem.
Alice descruzou as pernas devagar.
— Espera.
Ela olhou para os dois.
— Vocês estão dizendo que…
Ela apontou para as pastas.
— Um negócio que movimenta milhões…
— Está sem quatrocentos mil?
Dioguinho deu uma risada nervosa.
— Pois é.
Valente ficou em silêncio.
Alice olhou para ele.
— Você não tem nem um milhão em caixa?
Valente não respondeu.
E aquilo respondeu tudo.
Ela soltou um suspiro longo.
— Impressionante.
Dioguinho cruzou os braços.
— Eu falei pra ele que era melhor ter caixa de reserva.
Valente lançou um olhar irritado.
— Agora tu vira economista?
Alice se levantou da cadeira.
— Não adianta discutir.
Ela começou a caminhar pelo escritório.
Pensando.
— Sem matéria-prima…
Ela apontou para baixo.
— A produção para.
Valente respondeu seco.
— Eu sei.
— Sem produção…
— Sem dinheiro.
Valente fechou os olhos por um segundo.
Alice parou na frente dele.
— Ok.
Ele abriu os olhos.
— Ok o quê?
— Situação complicada.
Ela cruzou os braços.
— Mas não impossível.
Dioguinho soltou um riso descrente.
— Tu gosta de problema né, loira.
Alice olhou para ele.
— Eu gosto de resolver problema.
Depois voltou para Valente.
— Me dá 48 horas.
Ele franziu a testa.
— Pra quê?
— Pra organizar isso aqui. Vamos vender o que você tem, mas vai ter que subir valor.
Ela bateu nas pastas.
— Mapear o dinheiro roubado.
— Reestruturar fluxo.
— E achar um jeito de levantar capital rápido.
Valente ficou olhando.
— E tu acha que consegue?
Alice sorriu.
— Eu não acho.
Ela inclinou a cabeça.
— Eu sei.
Dioguinho murmurou:
— Essa mina é maluca…
Valente ainda estava olhando para ela.
Tentando entender.
Se aquilo era confiança…
Ou loucura.
Porque a verdade era uma só.
Ela estava tentando salvar um império que já estava quase afundando.
E ela ainda nem sabia.
Que se falhasse…
Não seria só dinheiro que estaria em jogo.
Seriam vidas. A dele e agora, a dela também, por mais que ainda não soubesse.