O movimento no galpão já tinha virado rotina.
Caixas indo e vindo, vozes se cruzando, gente entrando, gente saindo. O lugar que dias antes parecia improvisado agora funcionava como um organismo vivo. Tudo tinha horário, fluxo, responsável. E no centro de tudo estava Alice.
Ela andava de um lado para o outro com uma prancheta na mão, o cabelo preso de qualquer jeito, uma caneta entre os dentes enquanto fazia contas rápidas.
— Não, não, não… — ela murmurou, riscando um número. — Isso aqui tá errado. Quem anotou essa saída?
Um dos moleques levantou a mão.
— Fui eu.
Ela ergueu os olhos.
— Então vem cá ver comigo.
O garoto se aproximou meio sem jeito.
Alice virou a prancheta para ele.
— Tá vendo isso aqui? — apontou. — Você anotou duas saídas iguais com o mesmo horário. Ou saiu duas vezes… ou alguém esqueceu de registrar direito.
O garoto coçou a nuca.
— Acho que foi erro meu.
Alice suspirou.
— Então presta atenção. Se a gente perde o controle dos números, perde o controle de tudo.
Do outro lado do galpão, Valente observava.
Encostado num dos pilares de concreto, os braços cruzados no peito, ele assistia Alice trabalhar como se fosse um espetáculo.
A garota parecia um furacão.
Mandava, corrigia, explicava, organizava, brigava e, em menos de cinco minutos, resolvia problemas que antes levavam horas.
Dioguinho se aproximou dele com um copo de café.
— Tu tá olhando pra ela faz uns dez minutos.
Valente nem piscou.
— Tô olhando o trabalho.
Dioguinho deu uma risada curta.
— Sei.
Valente finalmente virou o rosto.
— Sei o quê?
— Tá parecendo vidrado, já falei.
Valente franziu a testa.
— Vidrado nada.
Dioguinho bebeu um gole do café.
— A garota chegou tem poucos dias e virou esse lugar de cabeça pra baixo. Antes era bagunça. Agora parece empresa.
Valente soltou um resmungo baixo.
— Ela é insuportável cara, chata.
Dioguinho abriu um sorriso.
— Mas tu gosta.
Valente balançou a cabeça.
— Eu gosto do resultado.
Ele voltou a olhar para Alice.
— Aquela garota é a salvação disso aqui.
Dioguinho seguiu o olhar dele.
Alice estava agora explicando alguma coisa para três dos vendedores novos, gesticulando, falando rápido, desenhando algo numa folha.
— Ela pensa rápido — comentou Dioguinho.
Valente concordou em silêncio.
Foi então que um dos moleques novos apareceu.
Ele não chegou como os outros.
Não veio rindo, nem falando alto.
Veio andando devagar.
Olhou para um lado.
Depois para o outro.
Parou perto de Valente e Dioguinho.
— Posso falar com vocês?
Valente ergueu uma sobrancelha.
— Pode falar.
O moleque engoliu seco.
— Aqui não.
Dioguinho estreitou os olhos.
— Como assim?
O garoto deu mais uma olhada ao redor.
— É coisa séria.
Barbie apareceu nesse momento, atravessando o galpão.
Ela vinha mexendo no celular, mas parou quando viu o grupo reunido.
— O que foi?
O moleque ficou ainda mais nervoso.
— Preciso falar com vocês três.
Barbie fechou a cara.
— Sobre o quê?
Ele hesitou.
— Informação.
Valente e Dioguinho trocaram um olhar rápido.
Barbie guardou o celular no bolso.
— Então vamos pro escritório.
Eles atravessaram o galpão.
O escritório ficava numa sala menor, no fundo do prédio.
Porta de madeira grossa, uma mesa grande no centro.
Quando entraram, Valente fechou a porta.
O moleque ficou parado no meio da sala.
As mãos suadas.
O olhar inquieto.
Barbie puxou uma cadeira e sentou.
— Fala.
O garoto respirou fundo.
— Eu descobri uma coisa.
Dioguinho cruzou os braços.
— E?
— É importante.
Valente se encostou na mesa.
— Então desembucha.
O moleque balançou a cabeça.
— Informação dessas… vale dinheiro.
Barbie soltou uma risada curta.
— Tá achando que isso aqui é banco?
O garoto não respondeu.
Mas manteve a postura firme.
Valente observava tudo em silêncio.
Depois falou:
— Se ele veio até aqui, não foi à toa.
Barbie virou o rosto para ele.
— A gente não pode sair pagando qualquer um que aparece.
Valente deu de ombros.
— Depende do que ele sabe.
Dioguinho olhava o garoto com desconfiança.
— E se for história inventada?
O moleque levantou as mãos.
— Não é.
Barbie suspirou.
— Quanto?
O garoto pensou alguns segundos.
— O suficiente pra valer a pena.
Barbie olhou para Valente.
Valente manteve o olhar no garoto.
— Fala primeiro o que é.
— Não.
O silêncio tomou a sala.
Barbie tamborilou os dedos na mesa.
— Eu não gasto dinheiro sem saber no quê.
Valente se inclinou para frente.
— Ele não teria vindo aqui se fosse mentira.
Barbie estreitou os olhos.
— Você tá confiando muito fácil, pra um bandido.
Valente respondeu com calma:
— Eu tô apostando.
Ele olhou para o moleque.
— Se a informação for boa… tu ganha. Senão tu vai levar azeitona, moleque.
O garoto assentiu.
Barbie bufou.
— Tá.
Ela abriu a gaveta da mesa e tirou um envelope.
Colocou na mesa.
— Metade agora.
O moleque olhou para o envelope.
Depois começou a falar.
A voz baixa.
Cuidando das palavras.
Ele contou o que tinha ouvido.
Coisas que tinham circulado por outras áreas.
Movimentações estranhas.
Gente comentando sobre uma entrega grande chegando na região naquela mesma noite. No morro vizinho, soube que os caras fizeram um pedido grande matéria-prima, a mesma que Valente estava zerado. E que vinha difarçado em caminhões de farmácia, que ficariam parados e carregados em um galpão na cidade.
Enquanto ele falava, Valente endireitava a postura.
Os olhos atentos.
Dioguinho não parecia tão convencido.
— E tu ouviu isso onde? — perguntou.
— Em conversa de rua.
— Conversa de rua não vale muita coisa.
— Essa vale.
Barbie observava em silêncio.
O moleque continuou.
Disse horários.
Disse lugares.
Disse detalhes que faziam sentido.
Quando terminou, o escritório ficou quieto.
Valente passou a mão pelo queixo.
Pensando.
Dioguinho foi o primeiro a falar.
— Isso pode ser armadilha.
Valente não respondeu.
Barbie perguntou:
— Você tem certeza do que ouviu?
O moleque assentiu.
— Tenho.
Dioguinho balançou a cabeça.
— Eu não gosto disso.
Valente finalmente falou.
— Mas é uma oportunidade. A gente precisa.
Dioguinho virou para ele.
— Ou isso é uma cilada.
Valente olhou para Barbie.
— O que tu acha?
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
Depois falou:
— Informação assim… nunca vem limpa. Se esse menino sabe que você tá zerado, sem máteria-prima, muita gente sabe. Se essa carga some, quem você acha que esses caras vão desconfiar?
Valente sorriu de leve.
— Então?
Barbie abriu o envelope e empurrou para o moleque.
— Se for verdade… você volta aqui amanhã.
O garoto pegou o envelope.
— Vai ser.
Ele saiu da sala logo depois.
Quando a porta fechou, Dioguinho soltou um suspiro.
— Eu ainda acho que isso pode dar r**m.
Valente caminhou até a janela.
O bunker continuava cheio de movimento.
Alice analisando a situação.
Falando.
Organizando.
Transformando o caos em ordem.
Ele ficou olhando por alguns segundos.
Depois disse:
— Talvez.
Dioguinho cruzou os braços.
— “Talvez” não é resposta.
Valente virou de volta para eles.
Um brilho diferente nos olhos.
— Mas às vezes… é o tipo de risco que muda o jogo.
Barbie encostou na cadeira.
— Então vamos descobrir.
Ela franziu a testa.
Como se tivesse percebido que alguma coisa estava prestes a acontecer.