CAPÍTULO 15

713 Words
Helena Eu achei que, depois da conversa que Damian teve com Beatriz, tudo iria finalmente esfriar. Ingênua. Eu deveria saber que pessoas como ela não recuam e se vingam. E eu estou prestes a ver isso da pior maneira possível. Chego ao escritório um pouco mais cedo do que o habitual, tentando evitar olhares curiosos. Ontem… ontem foi demais. A intervenção de Damian, a forma como ele me defendeu, o jeito como me olhou. Eu não deveria pensar nisso. Não posso. Ele é meu chefe. Meu chefe. Mas é impossível esquecer a intensidade nos olhos dele. A fúria. A proteção. A sensação perigosa de que eu significava algo para ele , algo que nem eu mesma entendia. Respiro fundo e entro na sala geral. É aí que percebo o clima diferente. As pessoas cochicham. Olham rápido para mim e desviam. Meu estômago se contorce. E então eu a vejo. Beatriz, de pé no centro da sala, segurando alguns papéis. Sorriso vitorioso. Malicioso. Aquele tipo de sorriso que me faz gelar até a alma. — Ah, Helena — ela diz alto, chamando atenção. — Que bom que chegou. Precisamos conversar sobre suas qualificações. Meu coração dispara. — O que você quer, Beatriz? — Tento manter a voz firme, mas sei que ela percebeu o tremor. Ela ergue os papéis, abanando-os no ar. — Sabe, fui dar uma olhada no seu currículo. — Seus olhos brilham, cruéis. — E descobri umas inconsistências. Sinto o chão sumir por um instante. Meu passado não é perfeito. Eu estudei, lutei, fiz cursos, mas nem tudo na minha vida é linear. Eu tinha medo, sim, de que alguém fuçasse demais. Mas nunca imaginei que ela fosse usar isso de forma tão suja. — Você não tem o diploma completo da pós-graduação que disse estar cursando — ela continua. — E também não encontrei registros no sistema do curso avançado de gestão que você mencionou. Eu paralisada. É verdade eu ainda não terminei a pós. Parei por falta de dinheiro e por causa de tudo o que aconteceu com meu pai. Eu pretendia terminar , mas isso não me transforma em uma fraude. Mas para Beatriz, qualquer falha é munição. — Você é uma mentirosa — ela conclui, alto o suficiente para todos ouvirem. — E eu aposto que foi assim que conseguiu chamar a atenção do Damian. Manipulando. Falsificando coisas. O golpe é tão baixo que o ar some do meu peito. — Eu nunca falsifiquei nada! — respondo, indignada. — E você não tem direito de expor minha vida assim! Ela abre um sorriso falso. — Quando alguém tenta subir onde não pertence sempre cai. As pessoas ao redor olham, algumas com pena, outras apenas curiosas. Mas ninguém intervém. Meu corpo treme, não de medo, mas de humilhação. De raiva. De impotência. E então, antes que eu consiga pensar no que fazer, uma porta se abre atrás de nós. Uma porta que faz todos se calarem instantaneamente. A porta do escritório dele. Damian sai, impecável, a expressão fria como gelo e mortal. O tipo de frieza que precede uma tempestade devastadora. Os olhos dele encontram os meus primeiros , e eu sei que ele percebe o que aconteceu. Ele lê meu rosto como se tivesse treinado a vida inteira para isso. Depois, ele olha para Beatriz. E o que vejo ali, Não é raiva comum. É algo mais profundo. Mais sombrio. Mais pessoal. — Beatriz — ele diz, a voz baixa, suave demais para ser segura — entre na minha sala. Agora. Ela empalidece. — Eu só estava — Agora. — Ele corta, sem elevar o tom, mas com uma autoridade tão intensa que o ar parece mais pesado. Ele não olha para ela de novo. Ele olha para mim. E nesse olhar tem algo que me desarma completamente cuidado. E algo que me assusta ainda mais a promessa silenciosa de que ele vai lidar com isso do único jeito que ele sabe. Ele se afasta, deixando a porta da sala dele aberta, esperando que Beatriz entre. Ela passa por mim, encolhida, com a arrogância evaporada. E eu fico ali, parada, tentando controlar a respiração. Porque sei que, quando Damian fecha aquela porta. Nada do que acontece lá dentro é suave. E nada nunca mais será o mesmo.
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