Helena
Eu passo o resto da manhã tentando fingir que consigo trabalhar, mas minhas mãos tremem cada vez que lembro da expressão de Damian quando vi o que Beatriz estava fazendo comigo.
Aqueles olhos frios, dominantes, perigosos.
E, ao mesmo tempo, protetores.
É isso que me destrói. Essa contradição que só ele consegue carregar.
Quase no fim do expediente, recebo uma mensagem no computador:
“Preciso falar com você. Sala 34. Agora.”
Sala 34.
A sala de reuniões menor, no final do corredor.
Longe do movimento.
Longe de qualquer pessoa.
Meu coração dispara. Ele nunca usa esse tom comigo tão direto, tão exigente.
Mas eu vou. Claro que vou.
Meus pés quase não tocam o chão enquanto caminho até a porta. Paro, respiro fundo, e empurro devagar.
Damian está lá.
Encostado na mesa, jaqueta tirada, mangas dobradas.
A postura dele é sempre impecável, sempre controlada, mas hoje há algo diferente.
Os ombros tensos, O maxilar travado.
Ele me olha como se estivesse segurando algo dentro de si com força demais.
— Feche a porta, Helena.
A voz baixa. Perigosa.
Eu faço o que ele pede.
Quando me viro, encontro o olhar dele preso no meu.
— O que aconteceu hoje — ele começa, dando um passo à frente não deveria ter acontecido.
— Eu sei — respondo, um pouco envergonhada.
— Eu não queria causar problemas.
— Você não causou problema nenhum.
— O tom dele é firme, quase um comando.
— A irresponsável foi ela. E eu garanti que entendesse isso.
Meus dedos se entrelaçam.
A curiosidade é quase uma dor física.
— O que você fez com ela? — pergunto, hesitante.
Ele se aproxima mais.
Devagar.
Como um predador que não tem pressa, porque sabe exatamente que a presa não vai fugir.
— Não importa — murmura.
— O que importa é que ninguém mais vai ousar tocar em você desse jeito.
Meu corpo inteiro arrepia.
A intensidade dele é sufocante. E viciante.
— Damian — digo, tentando respirar.
— Você não pode agir assim por minha causa. As pessoas vão falar.
Ele ri baixo. Um som sem humor.
— Eu não estou preocupado com o que as pessoas falam, Helena.
— Ele ergue minha mão com delicadeza inesperada.
— Estou preocupado com você.
Meu coração erra uma batida.
Ele segura meus dedos como se fossem frágeis, mas a tensão no toque denuncia o contrário, ele quer apertar.
Ele quer controlar. Ele quer me prender ali.
— Eu não quero te ver sendo humilhada, exposta, machucada — diz, a voz mais rouca. — Jamais.
É estranho como uma parte de mim sabe que isso é errado.
Que essa obsessão dele é perigosa, sufocante, quase doentia.
E ainda assim,
Há outra parte que se derrete inteira.
Que sente algo electrizante quando ele fala assim.
Que quer acreditar que alguém possa me proteger tanto.
Ele se aproxima de um passo.
Agora só há centímetros entre nós.
— Helena — Ele diz meu nome como se fosse uma confissão.
— Me diga para parar.
Eu deveria.
Eu sei que deveria.
Mas eu não consigo.
Meu silêncio é uma rendição.
Ele encosta o rosto no meu, sem tocar de verdade, apenas deixando nossas respirações se encontrarem.
Meu corpo inteiro treme. O dele também.
— Você não sabe o que está fazendo comigo — ele sussurra, a boca quase tocando a minha.
— Eu nunca perdi o controle assim.
A mão dele desliza para meu rosto.
É quente.
Firme.
Dominante.
Meus olhos se fecham por reflexo.
— Helena — ele respira contra minha boca — se eu te beijar agora não vou conseguir fingir que isso não existe mais.
Eu abro os olhos, lentamente, e encontro os dele.
Escuros, Ardentes e Famintos.
— Então não finge — eu digo, sem pensar.
— Não dessa vez.
O efeito é imediato.
A respiração dele falha.
O autocontrole quebra.
E ele me beija.
Não devagar.
Não suave.
É um beijo urgente, intenso, possessivo, como se ele estivesse contendo há meses anos e simplesmente não pudesse mais esperar.
Seu corpo cola ao meu, e minhas mãos sobem para seus ombros quase sem minha permissão.
Ele segura minha cintura, puxando-me contra ele com força, como se tivesse medo de eu desaparecer.
O beijo é quente, Profundo, Profanador.
Eu sinto tudo, a fúria dele, o desejo, a necessidade quase desesperada.
E, dentro de mim, algo explode.
A realidade some.
Só existe o toque dele.
Só existe a boca dele na minha, tão faminta, tão certa, tão Damian.
Ele interrompe apenas para respirar, mas não se afasta, sua testa encosta na minha.
— Eu avisei — ele murmura, a voz rouca, quebrada.
— Se eu começasse, não conseguiria parar.
Eu sorrio, ainda ofegante.
— Então não pare.
Ele agarra meu rosto com as duas mãos e me beija de novo.
E dessa vez.
É ainda mais intenso.
Mais exigente.
Mais dele.
A partir desse momento, tudo mudou.
E eu sei.
Porque sinto isso em cada parte de mim.
Eu acabei de atravessar uma linha da qual não existe volta.