Helena
Eu sabia que trabalhar perto de Damian traria problemas.
Só não imaginava que alguns deles viriam disfarçados de sorrisos falsos, perfumes caros e salto agulha.
Beatriz.
O tipo de mulher que não precisa dizer claramente que te odeia, ela apenas existe no ambiente e você sente.
Ela carrega aquele ar arrogante, como se fosse dona da empresa, da sala de reunião e, principalmente, dele.
Hoje foi o primeiro ataque.
Aberto.
Direto.
Descarado
Estou concentrada revisando relatórios quando ela aparece na porta da minha sala, sem bater, sem pedir licença, como se eu fosse invisível ou, pior, insignificante.
— Helena, certo? — ela diz, com um sorriso que não chega aos olhos.
— Preciso falar com você.
— Claro — respondo, mesmo sabendo que, com Beatriz, nada é claro.
Ela se aproxima, os saltos ecoando pelo chão com pequenas ameaças ritmadas, e joga uma pasta sobre minha mesa, sem nenhum cuidado.
— Esses documentos estão todos errados.
Meu estômago se contrai.
— Errados? Eu revisei duas vezes e
— Pois revise três — ela me interrompe, cruzando os braços.
— Aqui não é lugar para amadoras.
Eu aperto os lábios.
Ela quer me provocar.
Quero ver se eu quebro.
Se eu abaixo a cabeça.
Não vou.
— Se puder me mostrar onde está o problema, eu corrijo.
Ela dá uma risadinha.
— Se eu tivesse tempo para isso, eu mesma faria, querida.
Querida.
O veneno escorre por essa palavra.
— Mas como parece que você está aprendendo — ela continua — pensei que seria uma boa oportunidade para você treinar.
Cada sílaba é calculada.
Cada olhar é uma lâmina.
Ela não quer que eu aprenda.
Ela quer que eu fracasse.
E pior, ela quer que Damian veja e confirme sua teoria a de que eu não passo de uma incompetente ocupando espaço que não deveria.
— Claro. Eu cuido disso — digo, mantendo a voz calma.
Os olhos dela brilham, satisfeitos.
Ela quer que eu reaja.
Que eu perca o controle.
Mas hoje, pelo menos hoje não vou dar esse prazer.
Ela vira para sair, mas antes de cruzar a porta, diz:
— Ah… e Damian gostaria que você levasse o café dele daqui a pouco. Do jeito que ele gosta. Você sabe, não é?
Meu coração aperta.
É óbvio que ela sabe que eu não faço ideia.
É óbvio que ela faz isso de propósito.
— Pergunte a alguém se não souber — ela acrescenta, sorrindo com malícia.
— Ou então improvise. Tenho certeza que ele vai adorar.
Ela pisca. E vai embora.
Passo os minutos seguintes tentando não explodir.
Não chorar.
Não jogar a pasta pela janela.
Eu sabia que ela não gostava de mim.
Mas hoje ficou claro: ela me odeia.
Me vê como ameaça.
Como intrusa.
Ou talvez como alguém que chamou atenção demais do homem que ela tenta agradar há anos.
Damian.
Meu chefe.
O motivo desse inferno.
E enquanto tento respirar fundo para continuar trabalhando, não deixo de me perguntar.
Beatriz está agindo sozinha, ou apenas fazendo o trabalho sujo que alguém mandou?
*******
Eu achava que o pior da manhã tinha sido a humilhação de Beatriz.
Eu estava enganada.
O pior ainda estava por vir.
Estou na copa da empresa tentando descobrir pela terceira vez como preparar o tal café “do jeito que Damian gosta”, porque ninguém sabe, ninguém quer me ajudar ou, pior, fingem não ouvir quando pergunto.
A sensação de isolamento é quase física.
Respiro fundo, tentando não deixar que Beatriz vença dentro da minha cabeça.
Eu só quero fazer meu trabalho, manter distância de problemas e especialmente manter distância dele.
Mas parece que o universo não colabora.
Quando termino o café, minhas mãos tremem um pouco.
O cheiro forte me dá enjoo talvez pelo nervosismo mas seguro firme e caminho até a sala dele.
Paro diante da porta.
Bato duas vezes, controlando a respiração.
— Entre — ele responde, com aquela voz baixa que sempre me desequilibra.
Abro a porta.
Damian está de pé, ao lado da mesa, mexendo nos punhos da camisa.
É automático, meus olhos descem para suas mãos, longas, fortes perigosas. Depois sobem para seu rosto.
E ele está diferente.
Tenso.
Fechado.
Mais sombrio do que o normal.
— Seu café — digo, tentando manter a voz neutra.
Ele me observa em silêncio, por tempo demais.
O tipo de silêncio que faz qualquer pessoa querer correr.
E então, sem aviso, ele diz:
— O que aconteceu com você hoje?
Meu coração dá um salto.
— Nada.
— Não minta. — O tom não é alto. Não precisa ser.
É firme, afiado, como uma lâmina pressionada contra a pele.
Engulo seco.
— Só foi um dia difícil.
Ele dá um passo na minha direção.
Depois outro.
Meu corpo inteiro entra em alerta.
— Porque Beatriz falou com você? — ele pergunta, como alguém que já sabe a resposta.
Fico rígida.
— Eu não acho que,
— Helena. — Ele me corta, com uma calma que arrepia.
— Eu quero ouvir a verdade.
Sinto meu rosto esquentar.
Minha garganta aperta.
— Ela, ela me tratou m*l. Disse que eu errei um relatório que eu nem fiz. E colocou mais trabalho na minha mesa. Só isso.
Ele sorri.
Mas não é um sorriso normal.
É um sorriso perigoso.
Lento.
Letal.
— “Só isso”? — repete ele, se aproximando até ficar perto demais. — Ela humilhou você.
Eu não deveria ficar nervosa com a proximidade dele.
Mas fico.
Ele abaixa o olhar para minhas mãos ainda tremendo.
E quando volta a olhar para mim, há algo escuro em seus olhos.
— Eu aviso a todos — ele diz, num tom frio.
— que ninguém toca no que é meu.
Meu coração dispara.
— Eu não sou “seu”, Damian —
— Eu estou falando do meu departamento. — Ele interrompe, mas o olhar dele diz outra coisa.
— E você está nele.
Eu abro a boca para responder, mas a porta se abre violentamente.
Beatriz.
— Damian, eu preciso falar — Ela para ao me ver tão perto dele. Seus olhos se estreitam.
Posso sentir o veneno subindo pela garganta dela.
— Estou ocupado — ele diz, sem olhar para ela.
— É urgente.
Damian finalmente a encara. Mas não da forma como olha para mim.
O olhar que ele lança a Beatriz é puro gelo.
— Helena, espere um minuto — ele diz, sem desviar os olhos dela.
— Não vá a lugar nenhum.
É uma ordem.
E uma promessa.
Beatriz percebe.
E por um segundo, a máscara dela cai.
Dá para ver claramente o ódio.
Comprimo os lábios.
Me afasto um pouco.
Damian vai até a porta, sem pressa, e a segura aberta para ela sair. Mas antes de fechar, ele diz, num tom baixo e letal.
— Da próxima vez que você se dirigir à Helena do jeito que fez hoje eu garanto que será a última.
Meu corpo inteiro gela.
Beatriz empalidece.
E de repente eu percebo , pela primeira vez , que o perigo ao redor dele não é apenas uma sensação.
É real.
Concreto.
Damian protege.
Sim.
Mas o modo como ele faz isso, não é normal.
É possessivo.
É obsessivo.
É perigoso.
E agora, mais do que nunca, eu não sei se devo me sentir segura, ou completamente apavorada.