CAPÍTULO 13

1223 Words
Helena Eu sabia que trabalhar perto de Damian traria problemas. Só não imaginava que alguns deles viriam disfarçados de sorrisos falsos, perfumes caros e salto agulha. Beatriz. O tipo de mulher que não precisa dizer claramente que te odeia, ela apenas existe no ambiente e você sente. Ela carrega aquele ar arrogante, como se fosse dona da empresa, da sala de reunião e, principalmente, dele. Hoje foi o primeiro ataque. Aberto. Direto. Descarado Estou concentrada revisando relatórios quando ela aparece na porta da minha sala, sem bater, sem pedir licença, como se eu fosse invisível ou, pior, insignificante. — Helena, certo? — ela diz, com um sorriso que não chega aos olhos. — Preciso falar com você. — Claro — respondo, mesmo sabendo que, com Beatriz, nada é claro. Ela se aproxima, os saltos ecoando pelo chão com pequenas ameaças ritmadas, e joga uma pasta sobre minha mesa, sem nenhum cuidado. — Esses documentos estão todos errados. Meu estômago se contrai. — Errados? Eu revisei duas vezes e — Pois revise três — ela me interrompe, cruzando os braços. — Aqui não é lugar para amadoras. Eu aperto os lábios. Ela quer me provocar. Quero ver se eu quebro. Se eu abaixo a cabeça. Não vou. — Se puder me mostrar onde está o problema, eu corrijo. Ela dá uma risadinha. — Se eu tivesse tempo para isso, eu mesma faria, querida. Querida. O veneno escorre por essa palavra. — Mas como parece que você está aprendendo — ela continua — pensei que seria uma boa oportunidade para você treinar. Cada sílaba é calculada. Cada olhar é uma lâmina. Ela não quer que eu aprenda. Ela quer que eu fracasse. E pior, ela quer que Damian veja e confirme sua teoria a de que eu não passo de uma incompetente ocupando espaço que não deveria. — Claro. Eu cuido disso — digo, mantendo a voz calma. Os olhos dela brilham, satisfeitos. Ela quer que eu reaja. Que eu perca o controle. Mas hoje, pelo menos hoje não vou dar esse prazer. Ela vira para sair, mas antes de cruzar a porta, diz: — Ah… e Damian gostaria que você levasse o café dele daqui a pouco. Do jeito que ele gosta. Você sabe, não é? Meu coração aperta. É óbvio que ela sabe que eu não faço ideia. É óbvio que ela faz isso de propósito. — Pergunte a alguém se não souber — ela acrescenta, sorrindo com malícia. — Ou então improvise. Tenho certeza que ele vai adorar. Ela pisca. E vai embora. Passo os minutos seguintes tentando não explodir. Não chorar. Não jogar a pasta pela janela. Eu sabia que ela não gostava de mim. Mas hoje ficou claro: ela me odeia. Me vê como ameaça. Como intrusa. Ou talvez como alguém que chamou atenção demais do homem que ela tenta agradar há anos. Damian. Meu chefe. O motivo desse inferno. E enquanto tento respirar fundo para continuar trabalhando, não deixo de me perguntar. Beatriz está agindo sozinha, ou apenas fazendo o trabalho sujo que alguém mandou? ******* Eu achava que o pior da manhã tinha sido a humilhação de Beatriz. Eu estava enganada. O pior ainda estava por vir. Estou na copa da empresa tentando descobrir pela terceira vez como preparar o tal café “do jeito que Damian gosta”, porque ninguém sabe, ninguém quer me ajudar ou, pior, fingem não ouvir quando pergunto. A sensação de isolamento é quase física. Respiro fundo, tentando não deixar que Beatriz vença dentro da minha cabeça. Eu só quero fazer meu trabalho, manter distância de problemas e especialmente manter distância dele. Mas parece que o universo não colabora. Quando termino o café, minhas mãos tremem um pouco. O cheiro forte me dá enjoo talvez pelo nervosismo mas seguro firme e caminho até a sala dele. Paro diante da porta. Bato duas vezes, controlando a respiração. — Entre — ele responde, com aquela voz baixa que sempre me desequilibra. Abro a porta. Damian está de pé, ao lado da mesa, mexendo nos punhos da camisa. É automático, meus olhos descem para suas mãos, longas, fortes perigosas. Depois sobem para seu rosto. E ele está diferente. Tenso. Fechado. Mais sombrio do que o normal. — Seu café — digo, tentando manter a voz neutra. Ele me observa em silêncio, por tempo demais. O tipo de silêncio que faz qualquer pessoa querer correr. E então, sem aviso, ele diz: — O que aconteceu com você hoje? Meu coração dá um salto. — Nada. — Não minta. — O tom não é alto. Não precisa ser. É firme, afiado, como uma lâmina pressionada contra a pele. Engulo seco. — Só foi um dia difícil. Ele dá um passo na minha direção. Depois outro. Meu corpo inteiro entra em alerta. — Porque Beatriz falou com você? — ele pergunta, como alguém que já sabe a resposta. Fico rígida. — Eu não acho que, — Helena. — Ele me corta, com uma calma que arrepia. — Eu quero ouvir a verdade. Sinto meu rosto esquentar. Minha garganta aperta. — Ela, ela me tratou m*l. Disse que eu errei um relatório que eu nem fiz. E colocou mais trabalho na minha mesa. Só isso. Ele sorri. Mas não é um sorriso normal. É um sorriso perigoso. Lento. Letal. — “Só isso”? — repete ele, se aproximando até ficar perto demais. — Ela humilhou você. Eu não deveria ficar nervosa com a proximidade dele. Mas fico. Ele abaixa o olhar para minhas mãos ainda tremendo. E quando volta a olhar para mim, há algo escuro em seus olhos. — Eu aviso a todos — ele diz, num tom frio. — que ninguém toca no que é meu. Meu coração dispara. — Eu não sou “seu”, Damian — — Eu estou falando do meu departamento. — Ele interrompe, mas o olhar dele diz outra coisa. — E você está nele. Eu abro a boca para responder, mas a porta se abre violentamente. Beatriz. — Damian, eu preciso falar — Ela para ao me ver tão perto dele. Seus olhos se estreitam. Posso sentir o veneno subindo pela garganta dela. — Estou ocupado — ele diz, sem olhar para ela. — É urgente. Damian finalmente a encara. Mas não da forma como olha para mim. O olhar que ele lança a Beatriz é puro gelo. — Helena, espere um minuto — ele diz, sem desviar os olhos dela. — Não vá a lugar nenhum. É uma ordem. E uma promessa. Beatriz percebe. E por um segundo, a máscara dela cai. Dá para ver claramente o ódio. Comprimo os lábios. Me afasto um pouco. Damian vai até a porta, sem pressa, e a segura aberta para ela sair. Mas antes de fechar, ele diz, num tom baixo e letal. — Da próxima vez que você se dirigir à Helena do jeito que fez hoje eu garanto que será a última. Meu corpo inteiro gela. Beatriz empalidece. E de repente eu percebo , pela primeira vez , que o perigo ao redor dele não é apenas uma sensação. É real. Concreto. Damian protege. Sim. Mas o modo como ele faz isso, não é normal. É possessivo. É obsessivo. É perigoso. E agora, mais do que nunca, eu não sei se devo me sentir segura, ou completamente apavorada.
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