Helena
Passei a noite repetindo para mim mesma que precisava manter distância.
Distância dele.
Da forma como ele me olha.
Da intensidade que ele carrega como se fosse parte da respiração.
Dos sentimentos que crescem dentro de mim e que eu não tenho capacidade — nem coragem — de decifrar.
Eu preciso respirar longe dele.
Pensar longe dele.
Ser eu mesma longe dele.
Mas quando entro no prédio da empresa, percebo que isso não vai ser tão simples quanto parece.
Porque a primeira coisa que sinto não é o cheiro do café do corredor, ou o peso da minha bolsa no ombro.
É ele.
É como se a presença de Damian impregnasse o ar.
Como se o ambiente inteiro soubesse a quem pertence.
E eu… eu tento fingir que não sinto nada.
Quase corro para minha mesa. Deixo minha bolsa, ligo o computador, mantenho a cabeça baixa. Minha estratégia é clara:
Não olhar para o corredor dele.
Não ouvir a voz dele.
Não lembrar do beijo.
Não lembrar das mãos dele na minha cintura.
Não lembrar do jeito como ele disse meu nome.
Impossível.
Laurinha, a recepcionista, aparece ao meu lado com um sorriso curioso.
— Uau, você chegou cedo hoje. — Ela inclina a cabeça.
— Está tudo bem?
— Claro — respondo rápido demais, rápido o suficiente para parecer exatamente o contrário.
Ela estranha, mas não insiste.
Graças a Deus.
Abro relatórios, digito, reviso, respondo e-mails.
Faço qualquer coisa para manter as mãos ocupadas e a mente longe do perigo que atende pelo nome de Damian.
Mas é claro que a paz não dura.
Não com ele.
Às nove e vinte, a porta do escritório dele se abre. Meus ombros se enrijecem imediatamente.
Ouço passos firmes, lentos, calculados os passos de alguém que sempre sabe exatamente o que quer.
E como chegar até lá.
Eu olho para a tela.
Fico imóvel.
Nem respiro.
Ele para atrás da minha mesa.
Eu sinto antes de ver.
O ar perde temperatura.
Minha espinha inteira reage.
— Bom dia, Helena.
A voz dele me atravessa como um impacto.
Respiro fundo antes de responder.
— Bom dia, senhor Damian.
Forço o “senhor”.
Forço a neutralidade.
Forço a distância.
Mas nada nele respeita distância.
— Meu escritório — ele diz.
— Agora.
Eu fecho os olhos por um segundo, pedindo paciência a qualquer força disponível no universo.
— Estou ocupada no momento — respondo, mantendo o tom profissional.
Ouço a leve pausa.
Um silêncio que parece um aviso.
— Repita — ele diz, mais baixo.
Engulo em seco.
— Estou ocupada, senhor Damian. Termino este relatório em pouco tempo.
Ele dá um passo para mais perto.
Eu não olho, mas sinto.
Meu corpo inteiro sente.
— Não estou pedindo para você ir — ele diz.
— Estou mandando.
E é aí que algo dentro de mim quebra.
Porque eu sei que se eu entrar lá,
Se eu ficar sozinha com ele,
Se ele me olhar daquele jeito de novo,
Eu não sei se consigo dizer não.
— Com licença — digo, levantando de repente. Pegando minha pasta.
— Vou levar esses documentos ao arquivo.
Não vou.
Mas é a primeira desculpa que surge.
Passo por ele sem olhar para cima. Sinto o olhar dele queimando minhas costas, mas não paro.
Entro no corredor, viro à direita, depois à esquerda, e me escondo no setor quase vazio dos arquivos.
Finalmente respiro.
Finalmente sinto que posso pensar sem o peso dele sobre mim.
Apoio as mãos na mesa do arquivo e fecho os olhos.
Eu preciso me afastar.
Preciso.
Por mais que meu corpo queira outra coisa
Por mais que minha pele implore pelo toque dele
Por mais que meu coração bata mais rápido só de ouvir o nome Damian
Eu sei que isso pode me destruir.
E ainda assim…
— Então é isso que você chama de afastamento?
A voz dele ecoa atrás de mim.
Eu congelo.
Lentamente, me viro — e ele está ali.
Encostado à porta.
Braços cruzados.
Olhar escuro, frio e quente ao mesmo tempo.
Respiração controlada, mas o corpo tenso.
Como se eu tivesse acabado de testar a paciência dele.
— Você me segue agora? — digo, tentando soar firme, mas a voz sai quase fraca.
— Se você foge, eu vou atrás — ele responde, sem hesitar.
— Sempre.
Meu coração salta no peito.
— Você está ultrapassando limites — sussurro.
— Você é o meu limite — ele devolve, avançando um passo.
— E você o atravessou ontem quando me deixou te beijar daquele jeito.
Meu corpo inteiro treme.
Ele se aproxima mais.
E mais.
Até que está perto o suficiente para eu sentir o perfume dele.
O calor dele.
O perigo dele.
— Helena — ele diz, baixinho, mas firme. — Você pode tentar me evitar. Pode tentar correr. Pode se esconder em qualquer canto dessa empresa. Mas eu vou encontrar você.
Respiro fundo, tentando manter a distância emocional que meu corpo se recusa a aceitar.
— Eu só… preciso de tempo — digo, implorando para que ele entenda.
Ele levanta meu queixo com um dedo, fazendo meus olhos encontrarem os dele.
— Eu te dou tempo. — Ele promete.
Depois, inclina a cabeça e sussurra:
— Mas não vou te dar fuga.
Meu coração se entrega por um segundo.
E é isso que me apavora.
Mais do que ele.
Mais do que o desejo.
Eu mesma.
Eu mesma estou me perdendo nele.