— Ah não, pai! Tá de brincadeira, né? Não, tipo, eu quero trabalhar, mas eu terminei a faculdade faz pouco tempo. Eu quero curtir um pouco depois de tanto sacrifício, né? Eu mereço! — diz Mateus.
— Sacrifício? Você passou na faculdade de Administração porque sua mãe pagou para sua nota ser aprovada. Ela pagou para os professores te aprovarem. Você é um privilegiado mimado que não sabe o que é batalhar para ganhar a vida! De agora em diante, ou trabalha ou não terá para comprar nem uma água mineral… Este gasto com sua fiança foi o último que gasto com você! — fala Diogo.
Mateus passa a mão no rosto, com expressão de indignado…
— Fala sério! Por que isso agora? Somos ricos! O que custa eu viver minha vida? Temos dinheiro que não se acaba! Eu sou seu filho, é meu direito e sua obrigação…
— Direito… Obrigação… Espera, deixa só eu corrigir o que você disse. Eu sou rico, sua mãe é rica… Você só será rico quando nós morrermos e deixarmos a herança para você! Anda, moleque! Eu não vou ficar debatendo com você numa delegacia… É isso ou te deixo aqui preso, para que sinta na pele a responsabilidade de suas ações… Você sabe que não brinco!
— Trabalhar! Caramba, pai! Eu... Eu não tenho escolha, não é? Diferente da mamãe, você não parece ter pena de mim... Você nunca me tratou como um pai trata o filho…
— Mateus, um dia você vai me agradecer, filho… Eu estou exatamente te tratando como um pai deve tratar o filho. Anda, vamos para casa… — diz Diogo.
Sem entender nada, sem muita vontade de trabalhar, Mateus vai junto com o pai. Não era a primeira ameaça. Diogo já havia ameaçado outras vezes… O que mais lhe preocupava era trabalhar…
Nisso, em casa, Ágata, sem saber das confusões em que o filho se meteu, ainda estava encucada com a situação de seu casamento. Ainda lhe ressoava tudo o que a amiga havia lhe dito mais cedo…
— Acho que faz quase um mês que Diogo e eu transamos. Sim, acho que é isso… Será? Será que a Rose tem razão? Que eu preciso ser mais... "safadinha"? Ai, meu Deus! Eu nem sei como ser assim! Trair, eu tenho certeza de que ele não me trai. Diogo é todo certinho… — diz ela.
Ágata pega uma camisola que tinha comprado, uma camisola nova… E começa a imaginar situações…
— Será que ele vai notar? Uma camisola nova! Já sei! E se eu tomar a iniciativa! Eita, que a coisa está ficando ousada! Então eu saio do banho com a camisola nova, abraço ele, beijo-o e depois… Monto em cima dele! Vou pegá-lo de surpresa assim! É, vou tomar a iniciativa e veremos o que acontece…
Ágata estava nervosa em tomar uma nova postura, um pouco insegura, mas, ao mesmo tempo, aquela mudança de postura lhe dava um novo gás, despertava uma ousadia...
Nesse momento, ela escuta o bate-boca entre pai e filho vindo do andar de baixo da casa…
— Ah, não! Estão brigando de novo! — diz ela, indo saber o que aconteceu.
Ágata desce as escadas rapidamente e se depara com a discussão…
— Mateus! Como? Como você comete uma idiotice dessas? E eu achando que te tirar da cadeia tinha sido o ápice da sua estupidez! — diz Diogo.
— Mas, afinal de contas, o que aconteceu? Por que estão brigando? — pergunta Ágata.
— Anda! Fala para tua mãe as babaquices que andou cometendo… Anda, Mateus!
— O pai está exagerando, mãe!
— Diogo! Olha, não sei o que aconteceu, mas não precisa falar assim com nosso filho. Você está pegando pesado com ele… — tenta amenizar Ágata.
— Ágata, eu não vou passar a mão na cabeça desse moleque! Não depois de ter descoberto tudo! Se é para deixar que tudo continue como está, não é nosso filho, é seu filho! — diz Diogo.
Ágata fica com a voz de Diogo ecoando em sua mente, apenas no trecho final…
"Seu filho"... "Seu filho..."
As palavras se repetiam inúmeras vezes, e toda a discussão parecia silenciar ou ficar em segundo plano… Até que ela recobra o pensamento…
— Chega! Chega! — grita ela. No segundo seguinte, já pondera: — Diogo, Mateus é nosso filho! Meu e seu! Ele é nosso filho!
— Ninguém está discordando disso, Ágata! Claro que sou o pai dele! Mas parece que só quando é conveniente! Ele não ouve meus conselhos e você sempre passa a mão na cabeça dele… Olha só! Mateus arrumou uma briga, bateu no carro de um rapaz na saída da boate, bateu no rapaz que ia trabalhar! Um pai de família! Olha só! No carro ele levava três mulheres! Adivinha para onde?
Ágata olha para o filho. Depois de tudo aquilo, depois de ver como Diogo havia ficado bravo, embora ela visse apenas como mais um excesso do filho, era bom ficar do lado do marido desta vez. Afinal, era aniversário de casamento. Não custava nada ficar do lado dele...
— Seu pai tem toda razão… Eu tenho passado a mão na sua cabeça. Sei que ele pode parecer rigoroso, mas ele é seu pai! Isso é para o seu bem...
— Mas, mãe! Ele bloqueou todos os meus cartões, ainda quer que eu vá trabalhar! Vê se pode! — reclama Mateus.
— Se seu pai decidiu, está decidido! Eu o apoio! Filho, mais cedo ou mais tarde você vai ter que assumir suas responsabilidades na empresa! Quanto mais cedo, melhor!
Diogo se aproxima da esposa e fica impressionado com sua postura. Era a primeira vez que ela ficava ao seu lado e o apoiava...
— Achei que ficaria contra mim! Estou surpreso… Mas isso fará bem para ele… Nosso filho precisa crescer...
— Sim, meu amor, nosso! Nosso filho! — diz Ágata com uma sensação de alívio...
— Mãe! Fala sério! Você sempre ficou do meu lado! — apela Mateus.
Diogo aproxima-se do filho e segura em seu ombro...
— Filho, eu já cometi os mesmos erros que você no passado, mas eu abri meus olhos e mudei. Acredite, você ainda é jovem e tem muito a aprender. Ouça o que seu pai tem a lhe ensinar…
E Ágata olha satisfeita para o filho e o marido conversando...
— Acho que tenho errado também. Acho que ficar sempre contra o Diogo e não dar o devido valor aos esforços dele contribuiu para o nosso afastamento… Acho que algumas coisas eu também tenho que mudar… — reflete.