Magnus
— Em nome do Pai do filho... Murmurei, enquanto os meus dem*ônios se contorciam ao sentir a água benta ainda úmida na minha testa.
Lucian estava ao meu lado, o seu olhar percorrendo a multidão, sempre alerta. Mamãe apertou o meu braço, com um leve sorriso no rosto. — Que Deus os proteja, meus filhos. Disse ela com aquela voz maternal, embora eu soubesse, no fundo, que ela temia por nossas almas já condenadas. Ela sabia o nosso destino final e onde acabaríamos. Havia um lugar especial reservado para pessoas como nós.
Os meninos abriram caminho pela multidão, com os rostos sérios, as mãos perto das armas. A vida que escolhemos... às vezes eu me perguntava se havia redenção para nós. Duvido muito.
O calor do sol batia no meu rosto quando saímos da catedral. Mamãe agarrou-se ao meu braço esquerdo, firme, mas sempre trêmula, e com a mão direita fixou os meus óculos escuros na minha cabeça.
Olhares nos seguiram, alguns curiosos, outros cheios de medo, outros já acostumados com a nossa presença. Os meninos formaram um círculo ao nosso redor, uma barreira entre nós e o mundo.
Mamãe curvou a cabeça para o padre, o seu rosto demonstrando uma humildade que poucos conheciam.
— Bênçãos, Sra. Corleone. Disse o Padre Antonio.
— Celebração maravilhosa como sempre, Padre Antônio. Cumprimentou a minha mãe, beijando a sua mão respeitosamente.
O olhar do Padre Antônio se voltou para mim, perscrutador. — Bênçãos, padre. Assenti silenciosamente.
— A sua generosa doação fez maravilhas para o orfanato. Continuou o padre com um sorriso genuíno. — Conseguimos expandir a ala e acolher mais crianças.
Mamãe respondeu modestamente: é um pequeno gesto, Padre Antônio. Essas crianças merecem uma chance.
É engraçado, não é? Como buscamos nos redimir por meio de atos de bondade, como se isso pudesse apagar os nossos pecados.
— Diga à Madre Superiora que irei amanhã. Declarou a minha mãe com uma voz gentil.
— Tenho muitas doações para as crianças. Ela acrescentou. O Padre Antônio assentiu, o seu sorriso refletindo gratidão. Embora a sua alma estivesse tão contaminada quanto a nossa, eles sabiam de onde vinha o dinheiro doado e não o recusaram. — Eu direi a elas, senhora Corleone.
Despedimo-nos e caminhamos em direção aos caminhonetes blindadas que nos aguardavam.
Mamãe suspirou, voltando-se para a catedral. — Essas crianças significam tudo para mim. Disse ela com uma ponta de tristeza.
— Pelo menos elas me dão a alegria que os meus netos não dão... ah, agora me lembro, eu não tenho netos. Ela revirou os olhos, exasperada.
— Espero que pelo menos o meu filho mais velho se digne a se casar e me dar netos. Ela continuou, com o tom agora mais insistente. — Quero os meus herdeiros.
Lucian e eu trocamos um olhar, e um pequeno sorriso cruzou os nossos lábios.
O assunto de herdeiros sempre foi delicado. A pressão da mamãe, as expectativas, o peso do legado... às vezes era sufocante, mas ela tinha razão. Afinal, deveríamos ter um herdeiro a quem pudéssemos deixar toda a nossa riqueza.
Beijei a mão da mamãe, tentando acalmar a sua impaciência. — Tudo a seu tempo, mãe. Disse gentilmente.
— Tempo? Ela respondeu, exagerando como sempre. — Estou prestes a morrer.
O meu olhar voltou-se para Robert, que sussurrou algo no ouvido do meu irmão.
Lucian então se aproximou de mim. — Chapeuzinho Vermelho saiu da casa da vovó. Ele sussurrou. Entendi instantaneamente a quem ele se referia.
Um sorriso malicioso espalhou-se pelos meus lábios. Eu sabia exatamente o que tinha que fazer.
— Mãe...
Abri a porta da caminhonete para a mamãe, certificando-me de que ela se sentisse confortável para entrar. Nos despedimos com beijos no rosto, um gesto de carinho em meio à tensão. Ela nos deu sua bênção, um ato de fé e proteção, como se Deus tivesse pena de nós, criminosos, assassinos.
Fechei a porta atrás dela, mas não sem antes me prometer que iria almoçar na sua mansão esta semana.
A caminhonete que levava a minha mãe desapareceu pela avenida, seguida por outra que a protegia. Minha mãe, ela era a mulher mais importante nas nossas vidas. Ela era a nossa rainha. Se você a tocasse, a arranhasse, eu te despedaçaria e te jogaria aos crocodilos, assim como fiz com o meu pai.
— Para onde ela foi? Perguntei, olhando para o meu irmão.
— Para o cemitério. Dei um meio sorriso e entrei no banco de trás da caminhonete.
— Que lugar triste para ir. Eu disse, sorrindo enquanto me recostava e os veículos se moviam para me levar ao meu destino.