Dylan se levantou e a encarou. Não havia raiva, apenas uma tristeza profunda em seus olhos âmbar.
— Eu sei. Eles fazem isso para marcar território. Para mostrar que o Xerife agora pertence a eles. — Ele deu um passo à frente, hesitando por um segundo antes de tocar a mão dela. O calor dele era mais suave hoje, como o de uma lareira morrendo. — Eu me preocupo com você, Annabella. Naquela casa... o tempo não passa. E o que eles chamam de "ordem" é apenas uma forma de manter as presas quietas.
Ele tateou o bolso da calça jeans e tirou um pequeno pingente de pedra bruta, amarrado em um cordão de couro simples. A pedra tinha veios prateados que pareciam brilhar sozinhos.
— Use isso amanhã. Por baixo do vestido, se precisar. É um pedaço de quartzo da caverna onde meu povo... onde minha família se protegia. Ele guarda o calor da terra. Se você se sentir perdida na frieza daquela mansão, aperte isso. Vai te lembrar que existe um mundo real aqui fora.
Annabella pegou o colar, sentindo a pedra morna.
— Por que você está me contando isso, Dylan? — ela perguntou, tocando o braço dele. — Por que se importa tanto?
— Porque você é a primeira coisa em Silver Falls que me faz querer ser mais do que apenas uma fera na floresta — ele confessou, a voz quase um sussurro, antes de se afastar para as sombras. — Tome cuidado amanhã, Annabella Fisher. O gelo deles morde antes de congelar.
Annabella subiu as escadas em silêncio, fugindo das perguntas de Abigail sobre onde ela estivera. No santuário do seu quarto, ela fechou a porta e encostou as costas nela, sentindo o coração ainda descompassado.
Ela abriu a palma da mão. O pingente de quartzo bruto parecia pulsar com um calor próprio, uma brasa capturada em pedra.
"A primeira coisa que me faz querer ser mais do que apenas uma fera..."
As palavras de Dylan ecoavam em sua mente, densas e enigmáticas. O que ele quis dizer com "fera"? Seria apenas o temperamento dele, ou algo que a lógica da cidade grande não permitia que ela compreendesse ainda? Ela sentia que Dylan vivia em uma corda bamba entre o homem que a ajudara com as caixas e algo vasto e sombrio que rugia sob sua pele.
Annabella caminhou até o espelho de corpo inteiro. Pendurado no cabide da porta do armário, estava o vestido que a mãe escolhera: um modelo de seda azul-marinho, elegante e frio, que parecia feito sob medida para os salões de mármore dos Foster.
Ela segurou o vestido contra o corpo, mas sua outra mão apertava o colar de couro e pedra. O contraste era absoluto. De um lado, a sofisticação de Luke, o brilho da faculdade e a promessa de uma vida perfeita e ordenada. Do outro, o calor sufocante de Dylan, o cheiro de chuva e a incerteza da floresta.
Annabella olhou para o próprio reflexo. Seus olhos pareciam diferentes, mais alertas. Ela escondeu o pingente dentro do punho, sentindo o calor do quartzo queimar suavemente contra sua pele, como um segredo que ela teria que proteger dos olhos perspicazes de Harper e Luke Foster na noite seguinte.
Amanhã, ela entraria na mansão. Mas, pela primeira vez, ela não iria sozinha. Ela levava consigo o calor da terra.
O silêncio na casa dos Willis era tenso, quebrado apenas pelo som do nó da gravata de Thomas sendo ajustado e o farfalhar do vestido de Abigail. No andar de cima, Annabella encarava seu reflexo uma última vez.
O vestido azul-marinho caía perfeitamente, a seda fria contra sua pele. Annabella prendeu o cabelo em um coque elegante, deixando apenas algumas mechas soltas, exatamente como uma estudante de Direito de uma linhagem importante deveria parecer. Mas, antes de calçar os sapatos, ela pegou o cordão de couro sobre a cômoda.
O quartzo bruto de Dylan parecia pulsar contra seus dedos. Ela o colocou no pescoço e sentiu o calor da pedra contrastar imediatamente com o tecido gelado do vestido. Com um gesto rápido, ela escondeu o pingente por baixo do decote, sentindo-o repousar exatamente sobre o coração. Era sua âncora.
— Bella! Estamos atrasados! — o grito de Thomas veio do andar de baixo, carregado de uma ansiedade que ele raramente demonstrava.
Ela desceu as escadas e encontrou o pai impecável em um terno escuro, embora ele parecesse sufocado pelo colarinho. Abigail usava um vestido verde-oliva e um colar de pérolas, parecendo pronta para um evento da prefeitura.
— Você está linda, querida — disse Abigail, ajeitando uma mecha do cabelo de Annabella. — Lembre-se: os Foster são os pilares desta cidade. Vamos tentar causar uma boa impressão.
— Vamos apenas sobreviver ao jantar, Abby — resmungou Thomas, verificando o relógio. — Sinto que estou entrando em um tribunal, não em uma sala de jantar.
O trajeto até a parte alta de Silver Falls foi silencioso. À medida que o SUV subia a colina, a neblina se tornava mais densa, e os portões de ferro forjado da Mansão Foster surgiram como lanças contra o céu escuro. A propriedade era imensa, cercada por carvalhos centenários cujos galhos pareciam dedos esqueléticos tentando tocar o carro.
Ao descerem do carro, o ar parecia mais parado, como se a mansão tivesse seu próprio microclima — um frio constante que nem mesmo a primavera ousava desafiar.
A porta de carvalho maciço se abriu antes mesmo de Thomas tocar a campainha. Luke estava lá. Ele vestia um terno preto sob medida, sem gravata, exalando uma sofisticação que fazia o terno de Thomas parecer barato.
— Xerife. Sra. Willis. Annabella — Luke cumprimentou, a voz melodiosa ecoando no hall de mármore.
Quando seus olhos encontraram os de Annabella, ele deu um passo à frente para pegar a mão dela em um cumprimento formal. No momento em que ele se aproximou, Annabella sentiu o pingente de Dylan esquentar subitamente contra seu peito, como um sinal de alerta.
Luke congelou por uma fração de segundo, o nariz dilatando-se sutilmente. Ele não se afastou, mas seus olhos escureceram enquanto ele fitava o decote do vestido dela, onde o volume da pedra era quase imperceptível.
— Que perfume curioso você está usando hoje, Annabella — ele sussurrou, a voz carregada de uma nota perigosa. — Cheira a terra... e a algo que deveria ter ficado na floresta.
Antes que Luke pudesse prolongar o comentário sobre o "perfume" de Annabella, o som de saltos agulha no mármore anunciou a chegada da matriarca.
— Luke, querido, não deixe nossos convidados parados no hall. Onde estão suas boas maneiras? — A voz de Harper Foster era como o tilintar de cristais.
Ela surgiu no topo da escadaria, usando um vestido de seda cinza-pérola que parecia fundir-se com a própria pele pálida. Ao descer, seus olhos não encontraram os de Thomas ou Abigail primeiro; eles foram direto para Annabella. Foi um olhar de "raio-x", frio e calculista, que pareceu atravessar o tecido do vestido azul-marinho.