Era nítido que algo estava me incomodando, por mais que eu tentasse o máximo fugir das lembranças eu não conseguia disfarçar o fato de estar triste. Já estava ficando tarde quando Daniel foi embora e Carol me chamou para dormir na casa dela, no fundo ela sabia que aquilo que falei sobre o a noite passada não era toda a verdade por isso o convite, assim ela poderia tentar descobrir a verdadeira história.
Assim que terminamos o jantar fui me arrumar para dormir, quando saí do banheiro passei pelo corredor que dava acesso aos quartos e vi a mãe de Carol no quarto dela sozinha com uma foto polaroid em suas mãos. Ela parecia estar triste olhando para aquela foto, fiquei por alguns segundos a observando para tentar entender o que estava acontecendo até que ela notou minha presença e me chamou.
— Já vai dormir Elisa?
Perguntou Sofia enxugando os olhos cheios de lágrimas.
— Sim, já estava indo para o quar…
Ela me interrompeu me pedindo para eu sentar na cama ao seu lado.
— Você lembra do seu primeiro amor? Lembra como é bom? Lembra como dói? Às vezes esse amor fica guardado com a gente por toda nossa vida, podemos falar que não sentimos nada ou nem lembramos da pessoa, mas isso é você tentando mentir para si mesma.
Disse ela segurando firme aquele retrato.
— Quem é ele?
Apontei para a foto.
— Meu pai costumava me dizer que a primeira vez que uma pessoa se apaixona, isso irá mudar a vida dela para sempre e por mais que você tente, esse sentimento nunca irá desaparecer. Esse rapaz na foto foi o meu primeiro amor e não importa o tempo que passe ou com quem eu esteja no futuro as lembranças e o sentimento vai ficar comigo para sempre.
Disse Sofia com um olhar tão profundo que parecia passar um filme em seus olhos.
— E oque aconteceu com vocês?
Perguntei com a esperança de ouvir uma grande história de amor.
— Elisa, sabe qual a melhor coisa sobre uma fotografia?
— Não, o'que?
— É como se você congelasse um momento especial de sua vida, só que a melhor parte é que a pessoa dessa foto nunca vai mudar mesmo que se hoje em dia ela seja totalmente diferente.
— Mas hoje você é casada com o seu marido, né? Não é feliz com ele?
— A questão não é essa Elisa, e sim, eu sou casada com o Carlos e sou muito feliz com a família que construímos.
Disse ela com um sorriso contagiante no rosto, mas ainda dava para notar as lágrimas em seus olhos.
— E porque está chorando?
Perguntei um pouco intrigada com oque estava acontecendo.
— Não é tristeza e sim de felicidade. Sabe, olhar essa foto e lembrar das cartas, do cheiro, das risadas, dos momentos em que tudo parecia ser perfeito é a melhor forma de vê que por mais que ambos seguiram suas vidas, o carinho um pelo outro ainda está aqui. As melhores coisas da vida não são aquelas que vão durar para sempre e sim aquelas que deixam boas lembranças, nunca se esqueça disso Elisa.
Disse Sofia com um sorriso no canto da boca.
— Já pensou em reencontrar ele?
— Não, realidades diferentes. É melhor ficar só com as lembranças…
“Triiiiiiim”...
Nossa conversa foi interrompida pelo barulho do meu celular tocando, para minha surpresa era a Vih. Pensei se deveria realmente atender depois do jeito que ela me tratou mais cedo na escola, sei que a noite passada foi turbulenta mas precisava mesmo ela agir daquela forma comigo?
— Não vai atender?
Perguntou Carol entrando no quarto e me olhando com um olhar fixo.
— Vo-vo-vou…
Já sentiu alguma vez na sua vida aquela sensação de desespero? Sentir meu coração acelerado, minhas mãos começaram a suar frio, parecia que alguém estava me sufocando e por um momento os segundos pareciam horas. Me levantei mesmo com as pernas tremendo e saí do quarto para atender o celular.
— Alô, Vih?
— Oi, você pode falar agora?
— Posso.
— Desculpa …
Disse Vih com uma voz baixa e rouca, dava pra sentir a frieza em seu tom de voz.
— Pelo que?
— Por ontem, e por eu ter sido uma escrota hoje de manhã e ao menos ter explicado o que aconteceu. A verdade é que eu nem sei se deveria ter te ligado, mas sinto que te devo uma explicação.
— É, você estava estranha.
— Eu gosto de você e quero muito tentar ter algo, mas eu preciso que você tenha paciência porque tem muitas coisas acontecendo em minha vida que você não entenderia.
— Então resolva esses problemas primeiro antes da gente dar o próximo passo, não quero ser um ponto onde você desconta suas frustrações. Eu gosto de você, mas gostar de você está me machucando.
— Eu sei que errei, fui infantil a ponto de te deixar sem nenhuma explicação. Mas…
Um silêncio tomou conta do momento, parecia que ela havia se engasgado com suas próprias palavras.
— Estou ouvindo.
Afirmei.
— É complicado, sabe, minha família é muito tradicional e eles têm o seu próprio jeito de agir. Não quero te machucar com isso.
— Entendo, foram seus pais que te mandaram a mensagem?
— Não, foi meu irmão. Ele me viu no restaurante com você e disse que papai não gostaria de saber disso pois eu estava estragando os planos…
— Planos? Mas que planos?
— Eu falei planos? Não, quero dizer… Ele não gostaria de me ver envolvendo com alguém no momento, não é a hora certa para eles.
Aquela conversa estava cada vez mais confusa, parecia que ela estava inventando essa história toda para não ter que falar a verdade. Por alguns segundos só pude escutar a respiração pesada e tensa do outro lado da ligação, deixando assim um clima muito tenso e frio.
— Tá, mas como você está?
Tentei quebrar aquele clima frio que estava.
— Estou bem! A gente podia sair qualquer dia desses, precisamos conversar sobre o que está acontecendo entre a gente.
— Claro! Se você não sair do encontro novamente sem ao menos me explicar o que está acontecendo.
— Prometo que dessa vez vai ser diferente, com o tempo as coisas vão ficar claras. Mas agora preciso ir, te vejo amanhã?
Perguntou a Vih com um tom de voz agitado como se quisesse acabar com aquela conversa o mais rápido possível.
— Pode ser.
E quando eu menos esperava a ligação terminou, curta e simples. Aquela Vih do outro lado da ligação nem parecia a garota que eu havia conhecido há uns meses atrás. Eu consigo lembrar com toda clareza o dia em que nós nos conhecemos, ela estava linda como sempre e roubava toda a atenção na festa; parecia que ela fazia aquilo de propósito e gostava de ver que a atenção estava sendo toda voltada para ela. De todas as pessoas que estavam na festa ela me escolheu e eu nem poderia imaginar o que viria depois do primeiro “oi”... Consigo lembrar a sensação boa de borboletas no estômago depois do primeiro beijo, a sensação de minhas mãos percorrendo lentamente por seu corpo e sentir a leveza de tua pele, o suave toque dela e aquele perfume em teu pescoço que deixou um cheiro marcado em minha alma.
— E esse sorriso boba no rosto?
Perguntou Carol, chegando de surpresa.
— Aa.. Não é nada de mais.
— E você acha que me engana? Sou sua amiga, eu te conheço bem.
Afirmou Carol sentando ao meu lado com um olhar curioso.
— Pode começar a falar, sei que a responsável por esse sorriso era a garota do outro lado da ligação. Mas a questão é, quem era?
Perguntou Carol dando um leve suspiro.
— Você tem razão, Carol sempre tive medo de afirmar isso e você melhor que ninguém sabe disso. Pensei que seria algo passageiro mas não, hoje vejo que estou totalmente apegada naquela menina…
— ESPERAAAA!! Não venha me dizer que você está falando daquele ser humano.
Dava para notar de longe a raiva nos olhos de Carol.
— Espera, a gente começou errado e não custa tentar de novo…
E sem que eu pudesse terminar a frase Carol me interrompeu.
— Elisa Rossi escute bem, eu não sei oque aconteceu com vocês duas naquela noite mas de uma coisa eu sei, é que te fez muito m*l. E você acha que ela ligando aqui e jogando um monte de palavras vazias e sem valor anula tudo oque ela te causou?
Exclamou Carol erguendo as sobrancelhas com um olhar fixo à mim.
— Eu não falei que anula, a gente ainda vai conversar sobre tudo que ela fez e tentar entender oque rolou. Você é minha amiga e deveria me apoiar nisso já que tenho quase certeza que o Daniel não vai.
— E ele tem toda razão né! Toda vez que você se entrega demais à ela você volta machucada, e o'que te garante que dessa vez vai ser diferente?
Perguntou Carol com um tom debochado.
— Pela primeira vez ela me pediu desculpas, acho que de fato ela quer tentar mas tem medo.
E outra vez sou interrompida pela Carol.
— Medo de que pelo amor de Deus, de te amar? De aparecer com você em público? Por ta gostando de uma garota? A Elisa para né, tá na cara que ela só te enrola e só sai com você quando não tem outra opção!
— Não é isso…
— Então me explica! Quero detalhes, porque pelo oque estou vendo ela só está te usando.
Disse Carol cruzando os braços e me olhando fixamente.
— Bom… É quem… Sabe… É complicado…
— Para de enrolar, complicado é você querer sempre fugir do assunto e ficar dando uma desculpa para não contar a verdade!!
Já se podia sentir ódio na voz de Carol, normalmente ela costuma ser bem calma e quando ela chega a esse ponto é porque realmente algo tirou toda paciência dela. A Carol às vezes se preocupa demais comigo, ela esquece de se preocupar com sigo mesma e volta toda a atenção para mim.
— Tá, vou te contar tudo que aconteceu só que antes quero que me prometa algo. Me promete que não vai brigar comigo? Eu estou cansada de pedir conselhos e todo mundo vim me julgar ou ficar brigando pelo oque aconteceu. Se eu quisesse uma mãe no meu pé eu conversaria com a minha.
— Tá bom, eu só quero entender o porque defende tanto uma pessoa que só te faz m*l.
— A Vih me chamou para ir jantar e acabei indo com ela e como eu falei mais cedo estava tudo indo de acordo como planejado, ela estava sendo a pessoa mais fofa e atenciosa que já conheci. Ela não estava muito interessada no celular no começo mas depois de um tempo um número começou a ligar para ela a cada minuto e só parou quando ela leu a mensagem que havia recebido e ela mudou completamente comigo. Depois que ela leu a mensagem ela disse que não deveria ter feito isso é que estava estragando tudo, que tínhamos que nos afastar. Ela falou que eu era um erro na vida dela e que ela estava começando a se apegar e isso não poderia acontecer.