Confesso que meu ânimo de sair com Mierra havia passado. Olhei para o relógio e conforme o horário que marcamos de ir a cafeteria se aproximava maior era minha vontade de ligar e desmarcar.
Faltando dez minutos para a cinco, tomei coragem de mandar mensagem a ela dizendo que seria melhor agendarmos o café pra outra ocasião. Que eu estava m*l da garganta.
Mas Mierra não se deu por vencida. “Já estou a caminho da sua casa, tarde demais para me dispensar, mocinha” respondeu com seu bom humor.
Duas buzinadas em frente a minha casa. Pela janela do quarto vi o carro dela parado rente ao meio fio. Ela me viu e acenou retirando seu óculos de sol. O carro era conversível e isso era o máximo que eu podia explicar sobre automóveis. m*l sei diferenciar um fusca de uma Brasília.
- Entre. - disse dando passagem.
- Com licença - Mierra pendurou o óculos na camisa - mas que casa mais bonita!
Ela observou tudo ao redor num tom apreciativo.
- Obrigada.
- Você mora só aqui?
Engoli seco.
- Agora moro. Me separei há poucos dias - respondi sem graça.
Na verdade m*l havia completado vinte e quatro horas desde que Roger me pedira o divórcio. Mas menti.
- Ah, ok. Não precisamos falar disso. Parece um tema sensível pra você.
Um alívio tomou conta de mim por Mierra ter sido perspicaz em perceber que o assunto me incomodava.
- Eu vou pegar um chá gelado pra você!
- Samantha, não. Vamos logo antes que o por do sol se vá.
Ao menos se ela quisesse ficar em casa seria menos torturante. Fato era que eu me sentia f**a, nada atraente. Era como se me apresentar em público reforçasse essa ideia de que eu não era bonita o suficiente para Roger. E não seria para os demais. Óbvio que eu me compararia com qualquer mulher que visse. E pior: eu poderia esbarrar com Roger nesse café. Todo mundo da cidade ia lá.
O café estava cheio. Uma atendente simpática nos guiou até uma mesa para duas pessoas.O sol já se inclinava para trás das montanhas e os raios laranjas e amarelados pintavam o céu azul. O crepúsculo estava lindo.
- Esse cheiro de canela é delicioso - Mierra inspirou profundamente - acho que vou pedir esse capuccino.
- Ah, é ótimo - afirmei - a espuminha deles é incomparável. Mas acho que vou de chá gelado.
A atendente anotou os pedidos e minutos depois já tomávamos nossas bebidas.
- Nossa, eu quero te agradecer pela companhia., Samantha.
- Que isso, Mierra. Eu que devo agradecer por me trazer aqui. Eu não ando muito bem. Ter feito uma amiga tem sido importante - o chá desceu deliciosamente pela minha garganta. O gosto de menta refrescou minha boca.
- Acho que os homens são a pior m***a que existe na vida de uma mulher heterossexual.
- Também sofreu por alguém?
- Bom, sofrer não é a palavra certa. Eu terminei a relação mas o cara não superou bem. Esse foi um dos motivos que me trouxe aqui, ficar longe dele.
- Eu fui trocada mesmo. Bom, acho que fui. Ele me pediu o divórcio ontem - queria esconder minha tristeza atrás daquele sorriso amarelo que lancei a Mierra. Não consegui encara-la.
- Poxa. Que bad. Eu sinto muito por você Samantha.
- Tá tudo bem, Mierra. Essas coisas acontecem.
Mierra me contou outras coisas sobre sua vida. Era jornalista mas pedira demissão para se mudar para o interior. Era filha única e amava dirty dancing. A conversa estava realmente agradável e a companhia dela me fez esquecer do mundo por um tempo e não me preocupar se eu estava bonita ou vestida adequadamente.
A porta da cafeteira se abriu e o sino tocou. Voltei minha atenção para o homem alto de jaqueta de couro preta que parou no meio do saguão. Parecia procurar por algo.
Quando ele mirou em nossa mesa, dirigiu-se até nós. Eu não conhecia aquele cara.
- Mierra. Será que podemos conversar?
Mierra virou-se para observar aquele estranho. Delicadamente ela sorriu para mim.
- Samantha, esse é meu ex marido.
Eu fiquei em silêncio. Era o cara de quem ela estava “fugindo”?
- Prazer, Marcos. - ele me entendeu a mão e eu o cumprimentei.
Sem ser convidado, Marcos puxou uma cadeira de outra mesa e sentou-se conosco. Pela feição de Mierra eu percebi que ela estava desconfortável.
- Está há muito tempo aqui? - Mierra tragou seu capuccino num pequeno gole. O olhar desconfiado para Marcos.
- Cheguei ontem pela noite. Achei que seria mais fácil te encontrar. A cidade é pequena.
- Entendi. E o que aconteceu com aquele nosso trato sobre o tempo que você me daria? - disse Mierra sem meias palavras.
Eu notei que estava assistindo uma DR de camarote. Talvez fosse o momento de tomar um ar do lado de fora.
- Com licença. Eu vou fazer uma ligação. Já retorno - era a desculpa mais que Perfeita.