"Nova York ignora corações em carne viva. No JFK, o peso dos Bellini e o gelo de novembro não resfriavam minha raiva. Escolhi a simplicidade por autopreservação; já bebi veneno o suficiente. Em Manhattan, decidi: ninguém verá meu ouro ou minhas feridas. Não sou um homem em fuga, sou uma promessa de sobrevivência."
— Enzo Romano
Nova York não é uma cidade para amadores, muito menos para quem carrega o peito em carne viva.
No momento em que desembarquei no JFK, o ar gelado de novembro cortou minha pele como uma navalha.
Era um contraste brutal com o calor que ainda emanava da minha raiva, aquela brasa que eu trouxe da Toscana.
Eu não era apenas um imigrante com uma mala surrada; eu era um homem em fuga, mas uma fuga financiada pelo sangue Bellini.
Embora eu tivesse dito ao meu pai que não queria nada dele, eu estava longe de estar desamparado.
Meus avós, Joseph e Aurora, garantiram que o legado de minha mãe estivesse seguro sob minha guarda absoluta.
A herança não era pequena. Os Bellini eram os barões do azeite, e cada centavo cheirava a lealdade e oliveiras.
Mas tomei uma decisão no instante em que pisei no asfalto molhado de Manhattan: eu teria uma vida simples.
Não por necessidade, mas por autopreservação.
Eu precisava desaparecer para me reconstruir do zero.
Se eu ostentasse o ouro que possuía, atrairia as mesmas cobras que infestavam a Tenuta Romano.
E eu já tinha tido minha dose vitalícia de veneno antes mesmo de completar vinte e dois anos.
Aluguei um apartamento minúsculo no Lower East Side, onde o barulho do metrô abafava meus pensamentos.
Era um lugar descascado, com cheiro de café velho e chuva, mas era meu.
O primeiro lugar onde Máximo Romano não mandava.
Passei as primeiras semanas caminhando pelas ruas, observando as pessoas que se atropelavam na pressa de serem alguém.
Eu não queria ser alguém. Eu queria ser invisível até que minha técnica na cozinha falasse por mim.
Encontrei trabalho em um bistrô francês de terceira categoria, lavando pratos e cortando cebolas por dez horas por dia.
— Você corta rápido demais para um novato — o chef, um homem amargo chamado Pierre, comentou certa noite.
— Aprendi com a melhor — respondi seco, sem desviar os olhos da lâmina que brilhava sob a luz fluorescente.
— Se é tão bom, por que está aqui limpando gordura de fogão por salário mínimo? — ele insistiu, desconfiado.
— Porque aqui ninguém me faz perguntas. E eu não tenho respostas para dar — retruquei, encerrando o assunto.
Eu lavava o chão, carregava sacos de farinha e aguentava os gritos de Pierre sem pestanejar.
Minha mente estava sempre no caderno de receitas de Laura.
Eu lia aquelas páginas à noite, sob a luz de um abajur barato.
Cada anotação dela era uma lição de vida. "O fogo deve ser controlado, Enzo, ou ele consome o sabor e o cozinheiro."
Eu estava controlando meu fogo.
Estava transformando minha fúria em precisão, minha dor em disciplina militar.
Três meses depois, Pierre faltou ao serviço por causa de uma bebedeira, e o dono do bistrô estava desesperado.
— Romano, você disse que sabia cozinhar. O salão está cheio. Consegue segurar a linha? — ele perguntou, suando.
— Eu não apenas seguro a linha. Eu domino essa cozinha — respondi, tirando o avental de limpeza e vestindo o dólmã.
Naquela noite, o bistrô serviu pratos que aqueles clientes nunca haviam provado.
Eu não segui o menu de Pierre.
Coloquei a alma da Toscana em cada redução, a técnica dos Bellini em cada emulsão de azeite.
O dono me ofereceu o cargo de chef na manhã seguinte.
Eu aceitei, mas com uma condição absoluta.
— Eu escolho minha equipe. Eu dito as regras. E ninguém entra na minha cozinha sem minha permissão.
Ele aceitou. E assim, o nome "Enzo" começou a sussurrar pelos cantos gastronômicos de Nova York.
Mas eu ainda voltava para o meu apartamento vazio.
Ainda dormia com o caderno de receitas sob o travesseiro.
A solidão era minha única aliada fiel.
Ela não mentia, não traía e não esperava nada em troca.
Eu via as fotos de Sofia e Milla nas redes sociais, vivendo a vida de luxo que o meu pai proporcionava com o sangue de Laura.
Elas pareciam felizes. Radiantes.
Como se a morte de uma mãe e a fuga de um irmão fossem apenas notas de rodapé.
— Aproveitem — eu murmurava para a tela do celular antes de bloqueá-la. — O banquete de vocês tem data de validade.
Eu estava crescendo. O dinheiro dos Bellini permanecia intocado em contas suíças, rendendo e esperando o momento certo.
Eu não usaria aquela herança para comprar ternos caros ou carros esportivos.
Eu a usaria para construir meu império.
Um império onde a traição não teria lugar.
Onde eu seria o único juiz, júri e carrasco.
Anos se passaram nessa rotina de aço e fogo.
Deixei o bistrô e abri meu primeiro lugar pequeno, o Aurora.
O nome era uma homenagem à minha avó, mas também à promessa de um novo dia que eu fiz no JFK.
O sucesso foi imediato. A crítica de Nova York tentava entender quem era o homem por trás daquelas massas perfeitas.
Eu raramente aparecia no salão. Eu não queria aplausos.
Eu queria o controle absoluto de cada prato.
Até que, em uma tarde de chuva persistente, a vida decidiu que meu isolamento precisava de algo mais do que apenas o barulho das panelas.
Eu estava na linha de frente do bistrô quando três figuras atravessaram a porta, trazendo consigo uma aura de poder que Manhattan raramente ignora.
Alex e Jasmine sentaram-se à mesa principal, mas foi Christopher quem me chamou a atenção.
Ele era filho do Senador Richard Davis, herdeiro de um sobrenome que abria portas em Washington, mas carregava uma simplicidade intrigante.
Eles não vieram apenas para comer; vieram porque o burburinho sobre o "italiano de mãos de ouro" já corria pelas coberturas da Quinta Avenida.
Após provarem o prato principal, Christopher fez questão de me chamar ao salão.
Ele não agia como o filho de um senador, mas como alguém que reconhecia a dor em outro homem.
— Você não cozinha para alimentar as pessoas, Romano — Christopher disse, observando-me com uma calma que me desarmou. — Você cozinha para sobreviver a algo.
— O que eu faço na cozinha não é da conta de quem senta à mesa, contanto que o prato esteja perfeito — respondi, mantendo a minha guarda habitual.
— Ele é arrogante. Eu gostei dele — Jasmine interveio, soltando uma risada seca enquanto tomava seu vinho. — Precisamos de alguém assim no nosso círculo.
Alex apenas assentiu, analisando-me como quem avalia um investimento de alto risco.
Eles eram a elite, mas naquele dia, tornaram-se algo que eu nunca pensei ter de novo: aliados.
Christopher tornou-se meu porto seguro, o homem que usava sua influência para proteger o Aurora enquanto mantinha os pés no chão da minha cozinha.
Juntos, formamos um círculo fechado.
Eles sabiam que eu tinha sombras, mas nunca tentaram acender a luz; apenas aprenderam a caminhar nelas comigo.
Anos se passaram nessa rotina de aço, fogo e lealdade bruta, até que o nome Romano se tornou sinônimo de poder absoluto em Manhattan.
Abri o Aurora, meu santuário, onde cada regra era minha e cada segredo estava trancado sob sete chaves e metros de gelo.
Eu acreditava que o Trio de Ferro e a lealdade de Christopher eram tudo o que eu precisava para manter o mundo do lado de fora.
Não sabia que o destino estava apenas esperando o momento de jogar um ingrediente novo na minha panela de pressão.
Um ingrediente chamado Luccas Ashford, que em breve bateria à minha porta, pronto para incendiar tudo o que eu levei anos para congelar.