Capítulo 1 – As Cinzas da Tenuta Romano

1894 Words
Dizem que o segredo de um bom prato é a alma. Bobagem. O segredo é o controle. A temperatura exata, o corte preciso, a pitada certa de sal. Se você perde o controle por um segundo, a receita desanda. E eu nunca deixo nada desandar. Meu nome é Enzo Romano. Se você me conhece das colunas sociais de Nova York, sabe que sou o "Chef Safado". O italiano de olhos azuis que cozinha como um deus e desaparece antes do café da manhã. Eu aceito o rótulo. É prático. Ser um cafajeste é o meu colete à prova de balas. Aprendi a costurá-lo na Toscana, enquanto via minha mãe, Laura, murchar como uma uva sob o sol por causa das mentiras do meu pai. Vi o "amor" destruir a mulher mais forte que conheci. Por isso, fiz um pacto: eu daria às pessoas o que elas queriam — prazer, luxo, sarcasmo — mas nunca daria a mim mesmo. Minha vida em Manhattan é uma sinfonia de ordem e deboche. Tenho meus restaurantes, minha rotina de academia para manter o corpo tão afiado quanto minhas facas, e meus parceiros de crime. Alex e Christopher são os únicos que suportam meu humor ácido, talvez porque sejam tão quebrados quanto eu. Entre uma taça de vinho e uma noite sem compromisso com alguma modelo deslumbrante, eu acreditava que tinha vencido o sistema. Eu era o homem que nunca se perdia. Até Las Vegas. Até a maldita inauguração da Empire Nights. Eu esperava o de sempre: gim, luzes neon e o tédio confortável de ser o homem mais desejado da sala. Mas então, eu o vi. Luccas Ashford. Ele não se encaixava em nenhuma das minhas categorias. Tinha um sorriso que parecia zombar da minha arrogância e uma presença que atravessou meu peito como um choque térmico. Pela primeira vez em trinta e quatro anos, o sistema falhou. O desejo que senti não era familiar. Não era o apetite predatório de sempre; era algo mais sombrio, mais profundo e, pela primeira vez na vida, direcionado a um homem. Luccas não pediu permissão para bagunçar meu cardápio. Ele simplesmente entrou e derrubou todas as minhas panelas no chão. Este diário não é sobre receitas de sucesso. É sobre como um chef que se julgava invencível começou a queimar as mãos no fogo que ele mesmo acendeu. Prepare-se. A verdade costuma ser amarga, mas eu prometo que o final terá um gosto que você jamais esquecerá. Capítulo 1 – As Cinzas da Tenuta Romano "O amor não é um banquete; é um matadouro. Eu aprendi essa lição da maneira mais sangrenta possível, nos braços da mulher que eu jurava proteger. Sofia não apenas esfaqueou meu coração; ela o serviu em uma bandeja de prata para aqueles que destruíram minha mãe. Hoje, o homem que restou não ama. Ele apenas domina." — Enzo Romano Dizem que o primeiro amor é aquele que define quem você será. Se isso for verdade, eu fui condenado antes mesmo de começar a viver. Eu estava parado diante da porta de Sofia, o ar gelado da noite toscana cortando meus pulmões, mas nada era mais frio do que o pressentimento que subia pela minha espinha. Minha mãe, Laura, fora enterrada há apenas três meses. O luto ainda era um gosto metálico de bile no fundo da minha garganta. Eu precisava de Sofia. Precisava do calor do corpo dela, da promessa de pureza que eu acreditava encontrar em seus olhos. Mas, ao entrar naquele escritório, o que encontrei foi o verdadeiro rosto do inferno. Ouvi meu pai assumindo a relação que mantinha com a Francesca. Ela era a melhor amiga da minha mamma... e mãe da minha namorada. A mulher que eu amava que, segundo minha irmã, também cúmplice dessa sujeira, sabia de tudo. Agora eu estou diante da porta da casa de Sofia, com o coração em chamas. Pronto para confrontá-la. — Você sabia, não sabia? — falo assim que ela abriu a porta. Minha voz saiu como um rosnado animal, abafada pelo ódio que começava a vazar pelos meus poros. Sofia deu um passo atrás, a máscara de namorada perfeita escorregando para revelar uma estranha que eu não reconhecia. — Enzo... não é tão simples. As famílias precisavam dessa união... — ela começou, mas o som da sua voz me deu náuseas. — Simples? Minha mãe morreu de tristeza, Sofia! — gritei, e o som quebrou o silêncio daquela casa maldita. — Ela definhou enquanto meu pai, a traía com a sua mãe, a Francesca! E você... você estava apoiando eles esse tempo todo. Avancei, segurando-a pelos ombros, querendo sacudir a verdade de dentro dela. — Você me beijava. Você dormia comigo na debaixo do mesmo teto que minha mãe. “Enquanto eles se escondiam nos quartos ao lado. Você viu minha mãe sofrer e não disse nada!” Sofia finalmente me olhou, e não havia arrependimento. Havia apenas uma frieza calculista que me matou por dentro. — Eu fiz isso por nós, Enzo! Para que as empresas se fundissem! — ela disparou, as palavras como pregos em um caixão. — Mesmo que sua mãe não tivesse morrido, eles assumiriam. Seríamos uma grande família feliz. — Você é um romântico t**o. Um emocionado. Sua mãe se foi, Enzo. Seu pai precisa seguir em frente. Naquele momento, eu ouvi o som exato do meu coração se partindo — não de tristeza, mas de uma metamorfose c***l. O calor do amor que eu sentia por ela evaporou. Deixando apenas cinzas e um deserto de gelo onde antes existia paixão. — Uma família feliz? — rir foi a coisa mais dolorosa que já fiz. — Vocês são uns monstros. E você é a pior de todas. — Deixa de ser infantil. Nós vamos nos casar e seremos felizes. Nossos pais lá estão felizes. — Acabou, Sofia! Não posso continuar com você depois de saber quem você é. Larguei-a como se sua pele estivesse infectada e saí dali, dirigindo de volta para a Tenuta Romano sob um céu que parecia sangrar. As semanas que antecederam o fim foram como assistir a um filme em câmera lenta, onde eu era o único espectador cego. Eu observava minha mãe tornar-se um fantasma em sua própria casa, dia após dia. Definhando sob o peso de segredos que eu me recusava a ver. O brilho nos seus olhos verdes, antes vibrante como as oliveiras, deu lugar a uma névoa de dor profunda e absoluta. — Mamma, coma um pouco — eu pedia, trazendo uma sopa que eu mesmo preparara com as ervas do quintal. Ela me olhava com uma piedade que eu não entendia na época. Ela não tinha pena de si mesma; tinha pena de mim. — O mundo é um lugar c***l para quem tem o coração aberto, Enzo — ela sussurrou certa noite, sua mão gelada no meu rosto. — Feche o seu. Antes que eles entrem e roubem o que resta de você — foi o seu último alerta, um testamento de dor. Três dias depois, o silêncio da casa foi quebrado pelo barulho ensurdecedor de vidro quebrando. O som do fim de tudo. Encontrei-a caída sobre o tapete persa. Seus olhos estavam abertos, mas a luz de Laura Bellini havia se apagado para sempre. O funeral foi um desfile de hipocrisia que quase me fez vomitar sobre o caixão de mogno. Máximo Romano chorava lágrimas de crocodilo, fingindo uma dor que nunca sentiu por um segundo sequer. Francesca estava lá, de véu n***o e postura de viúva oficial, amparando meu pai diante de toda a Toscana. E Sofia... Sofia estava ao meu lado, fingindo soluçar, segurando minha mão com os mesmos dedos que escondiam a traição. O confronto final aconteceu na biblioteca, onde a poeira do luto ainda sufocava qualquer tentativa de respiração. — Não podemos mais esperar, Máximo — ouvi a voz de Francesca vinda do escritório ao lado. — Laura se foi. Não há mais motivo para segredos. — Enzo já é adulto, ele vai entender o peso dos nossos negócios — continuou a mulher que destruiu minha mãe. Entrei no escritório como um furacão. O estrondo da porta ecoando como o trovão antes da tempestade. — Entender? — minha voz era um sussurro letal. — Há quanto tempo vocês riram da cara dela? Eu estava furioso. A cena era uma pintura da traição: meu pai na poltrona. Francesca ao seu lado e minha irmã, Milla, bebendo vinho com descaso. — Estamos juntos a cinco anos, Enzo — Francesca responde, fria e seca. — Dois anos, Enzo — Milla disse, o olhar gélido. — Eu ajudei a manter as aparências — Milla disse, o olhar gélido. Era o melhor para o nome Romano. Senti o gosto metálico da bile. Minha própria irmã era cúmplice da destruição da nossa mãe. O sangue Romano era podre. — Como você teve coragem, Milla — gritei. Estava insano. Quase fora de mim. — Abaixe o tom — Máximo se levantou, a máscara de pai caindo para revelar o monstro implacável. — Eu sou o dono de tudo aqui. Tenha mais respeito, moleque. — Você não é dono da minha vida — declarei, sentindo o arame farpado envolver meu coração de uma vez por todas. — Estou indo embora. E não quero o seu nome, nem o seu status manchado de sangue e mentiras. — Você não tem nada sem mim! — ele riu, desdenhoso. — Vai morrer de fome em algum restaurante barato? — Eu tenho a herança dos Bellini. Revelei, deixando-o perplexo com a informação. — Mamãe sabia o que vocês faziam. Ela garantiu que sua traição tivesse um preço alto. O rosto dele empalideceu ao perceber que o controle financeiro que ele tanto amava estava agora em minhas mãos. — Sua mãe não poderia ter feito isso. Ainda estamos resolvendo sobra a herança dela. Meu pai argumenta. Sua voz insegura pelo medo de não ter cesso a fortuna que meus avós haviam deixado pra minha mãe, e que ele usufruía para investimentos na vinícola. — Podem ficar com a parte dela da vinícola Romano. Eu não quero nada vindo de você. Olhei para Francesca e para a carcaça do que sobrou da minha família. Eles eram cadáveres ambulantes. — Espero que o vinho desta casa tenha sempre gosto de cinzas para vocês — desejei, com uma calma que os assustou. Peguei o caderno de receitas de Laura e uma foto dela jovem. Foi tudo o que levei daquela vida de mentiras. Nova York era o destino. Um lugar grande o suficiente para esconder um homem que decidiu nunca mais sentir. O Enzo que acreditava em amor e lealdade ficou enterrado naquela terra seca da Toscana. O homem que aterrissou no JFK era outro: frio, letal, quebrado e perigosamente focado no poder. Eu seria o melhor. O mais desejado. O mestre da minha própria cozinha e do meu próprio destino. Mas ninguém jamais chegaria perto o suficiente para ver as marcas que Sofia e meu pai deixaram na minha alma. A cozinha seria meu único altar. O prazer, meu único deus. E a confiança? Essa eu deixei para os tolos. Ao olhar pela janela do avião, fiz uma promessa: eu nunca mais seria a vítima de um banquete. Eu seria o dono da mesa. E quem tentasse me trair, aprenderia o verdadeiro significado de queimar no inferno.
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