"A cozinha é o meu domínio, mas Luccas Ashford acaba de invadir o meu trono. Entre o brilho das facas e o calor dos fogões, a farsa da minha heterossexualidade está derretendo. Eu sou o lobo, mas é ele quem está me conduzindo para o abate. E o pior? Eu m*l posso esperar para sentir os dentes dele na minha garganta outra vez."
— Enzo Romano
O Aurora às duas da tarde é um organismo vivo em estado de alerta máximo.
Um exército aguardando o sinal para a guerra.
O som rítmico das facas contra as tábuas, o chiar das frigideiras selando carnes nobres.
O aroma dos caldos apurando criam uma sinfonia única.
Eu costumo reger essa orquestra com mão de ferro e um olhar que faz os cozinheiros mais experientes tremerem.
Mas, naquela tarde, a batuta parecia pesada demais e o compasso do meu próprio coração estava fora de ritmo.
Eu estava concentrado em uma peça de wagyu, fatiando-a com uma precisão cirúrgica que exigia cada grama do meu foco.
De repente, a porta de serviço se abriu, trazendo o ar fresco da rua e uma mudança drástica na pressão atmosférica da cozinha.
Não precisei olhar para saber que ele estava lá.
O cheiro de Luccas Ashford é um perfume que meu corpo agora reconhece por instinto.
Luccas entrou carregando uma prancheta eletrônica e um tablet, vestindo uma camisa de linho que parecia implorar para ser arrancada.
Ele caminhava com uma confiança nova.
Uma audácia que me irritava e me excitava na mesma proporção.
— Chef Romano — ele disse em um tom alto, garantindo que toda a minha brigada ouvisse sua chegada triunfal.
— Jasmine me mandou aqui para iniciarmos o mapeamento da live kitchen para o evento beneficente — explicou ele, impecável.
Marco, meu sub-chef, levantou os olhos do preparo de um confit e abriu um sorriso acolhedor para o intruso.
— O assistente da Jasmine? Seja muito bem-vindo. O Chef tem estado... digamos... especialmente inspirado hoje — Marco comentou.
— Eu imagino — Luccas respondeu, e seus olhos encontraram os meus por cima da lâmina afiada da minha faca de chef.
Havia um brilho de deboche puro ali, misturado a uma promessa sombria que fez meu sangue correr mais rápido nas veias.
— Ele parece exatamente o tipo de homem que gosta de ter o controle absoluto sobre tudo o que toca — ele disparou.
Continuei meu corte, ignorando a provocação, enquanto sentia o suor começar a brotar na minha nuca, quente e incômodo.
— Luccas, fique no canto da gerência. Eu estarei com você em dez minutos — ordenei, mantendo minha voz gélida.
— Jasmine me instruiu a observar o fluxo dentro da cozinha, Enzo — ele retrucou, omitindo meu título pela primeira vez.
O silêncio na cozinha foi imediato.
Meus cozinheiros nunca tinham ouvido ninguém se dirigir a mim daquela forma tão íntima.
— Preciso entender o posicionamento das câmeras e onde você vai se mover. Não posso fazer meu trabalho de longe — ele insistiu.
Ele começou a circular pelo meu santuário.
Ele passava entre os fogões e as bancadas, fazendo anotações no tablet com elegância.
Cada vez que ele passava por trás de mim, o espaço parecia encolher, tornando o oxigênio escasso e pesado.
Eu sentia o calor do corpo dele, ouvia o som suave da sua respiração.
E a lembrança de Vegas batia na minha mente como um martelo.
Eu estava apavorado.
Medo de que o Christopher entrasse e visse o jeito que meus olhos, famintos, seguiam cada passo do Luccas.
Medo de que a Victoria percebesse que o irmão estava brincando de mestre e escravo com o melhor amigo do homem que ela ama.
Se esse segredo vazasse, o império que construímos com tanto esforço — o nosso porto seguro — viraria cinzas em segundos.
— Chef, a redução de vinho tinto para o cordeiro está pronta.
Marco anunciou, quebrando o transe em que eu me encontrava.
— Eu verifico — Luccas disse, movendo-se mais rápido do que eu, antes mesmo que eu pudesse dar um passo.
Ele se aproximou do fogão, ficando bem ao meu lado.
Ele pegou uma colher de degustação e mergulhou no líquido denso.
Luccas fechou os olhos ao provar o molho, e a expressão de prazer que cruzou seu rosto foi um gatilho para a minha sanidade.
Era a mesma expressão, o mesmo arquear de sobrancelhas que ele teve quando eu o possuí pela primeira vez naquela suíte.
— Falta um pouco de equilíbrio, não acha, Chef? — ele perguntou, voltando-se para mim, com o rosto a centímetros do meu.
Eu conseguia ver as pequenas manchas douradas nas suas íris azuis.
Ele estava me desafiando a perder a cabeça na frente de todos.
— Talvez falte algo mais... doce para quebrar o amargor desse preparo? — ele sugeriu, com um duplo sentido que me queimou.
— Afastem-se todos agora! — eu explodi, minha voz saindo mais rouca e animalesca do que eu pretendia.
— Dez minutos de intervalo para toda a equipe. Saiam da cozinha agora! — comandei, batendo a faca na tábua.
A equipe estranhou — eu nunca dava intervalos no meio do mise en place — mas ninguém ousou contestar minha fúria.
Assim que o último cozinheiro saiu pela porta lateral, eu agarrei Luccas pelo braço e o arrastei para o fundo do estoque seco.
Era um corredor estreito, cercado por sacos de farinha italiana e latas imensas de azeite, longe de qualquer olhar curioso.
— Você ficou louco, p***a? — sibilei, prensando-o com força contra uma prateleira de metal que rangeu sob o peso.
— O que pensa que está fazendo? O Chris te deu um teto, a Jasmine te deu uma chance... e você vem me provocar aqui?
Luccas não recuou nem um milímetro.
Ele inclinou o rosto para cima, desafiando a minha proximidade e a minha força.
— Eu estou apenas fazendo o meu trabalho, Enzo. Você é quem está agindo como um animal enjaulado e perigoso.
— Por que tanto medo, Chef? Medo de que eles vejam que o grande garanhão italiano gosta de sentir o gosto de um homem?
— Cala a maldita boca — apertei seu braço com mais força, mas meus olhos traíram meu comando e desceram para o seu pescoço.
Lá estava ela: uma marca leve, quase sumindo, mas ainda visível, lembrando-me de como eu o marquei como meu em Vegas.
— Ninguém sabe, Enzo — ele sussurrou, a voz carregada de uma provocação erótica que destruiu minhas últimas defesas.
— Victoria sabe que sou gay, mas ela não tem ideia de que o "lobo" que ela tanto admira é quem me fez perder o sono.
— E o Chris... o Chris nunca desconfiaria de você. Você e o Alex são o porto seguro dele. Ele confia cegamente em você.
— É exatamente por isso que essa loucura tem que parar agora! — encostei minha testa na dele, respirando o seu ar.
O calor entre nossos corpos naquele espaço apertado era insuportável, um incêndio alimentado por dias de negação.
— Eu sou hétero, Luccas. O que aconteceu naquela noite em Vegas foi apenas um deslize, uma anomalia — menti.
— Foi a coisa mais real que você sentiu em dez anos, Enzo — ele me cortou, sua mão subindo para o meu peito.
Ele sentiu o meu coração galopando como um louco sob o tecido branco da dólmã. Ele sabia que eu estava mentindo.
— Você pode mentir para o mundo todo, mas não pode mentir para esse batimento. Você quer me f***r agora mesmo.
— Quer me beijar tanto quanto queria em Vegas. Talvez mais, porque agora você sabe exatamente o que está perdendo.
Ele roçou os lábios no meu queixo, uma carícia de tortura.
O cheiro de temperos da cozinha e o perfume dele eram uma droga.
Esqueci a equipe lá fora. Esqueci a lealdade ao Chris.
Esqueci a farsa da minha vida perfeita em Manhattan.
Puxei-o para um beijo violento e possessivo.
Foi um ataque que silenciou qualquer argumento racional que ainda restasse.
Minhas mãos encontraram sua cintura, apertando-o contra o meu corpo com uma urgência que beirava o desespero absoluto.
Luccas soltou um gemido abafado contra a minha boca, suas mãos puxando meu cabelo, querendo me fundir a ele.
Naquele estoque apertado, cercado pelo legado da minha família, eu estava traindo cada fibra do meu ser.
Mas a sensação da língua dele contra a minha era o único "mise en place" que parecia fazer sentido na minha existência.
Apertei-o contra as latas de azeite, sentindo a ereção dele pressionar a minha, uma confirmação mútua de que estávamos perdidos.
— Se alguém entrar aqui e nos vir... — comecei a dizer entre beijos famintos, tentando recuperar um fiapo de juízo.
— Então certifique-se de que cada segundo desse beijo vale a pena o risco de ser descoberto — ele respondeu.
Luccas tinha um sorriso audacioso, o olhar de quem sabia que tinha ganhado a guerra antes mesmo da primeira batalha.
Eu estava perdendo. Luccas Ashford não era apenas um assistente eficiente; ele era a sabotagem perfeita e letal.
E o pior era saber que, se ele me pedisse para queimar este restaurante agora, eu provavelmente acenderia o fósforo.
— Saia daqui agora — eu disse, afastando-o bruscamente quando ouvi o barulho da equipe retornando do intervalo.
— Vá para a gerência. Agora. Não me faça repetir — ordenei, tentando recompor minha respiração e meu dólmã.
Luccas limpou o canto da boca com o polegar, um gesto carregado de promessa erótica e vitória silenciosa.
— Até amanhã, Chef. O molho... realmente precisava de um toque a mais de doçura. Você sabe onde me encontrar.
Ele saiu do estoque antes que eu pudesse reagir, deixando-me sozinho no meio dos sacos de farinha e do cheiro de pecado.
Fiquei ali, respirando fundo, contando até dez para tentar recolocar minha máscara de gelo e autoridade.
Eu tinha um restaurante premiado para comandar, uma vida de mentiras para sustentar e um segredo que destruiria tudo.
A cozinha estava quente, fervendo com o trabalho da tarde, mas eu sabia que o verdadeiro incêndio estava apenas começando.
E eu não tinha nenhum extintor que pudesse apagar o que Luccas Ashford despertou dentro de mim.
A pressão estava subindo, e eu sentia que o ponto de explosão estava mais perto do que eu jamais imaginei.