"Tentei me afogar em outro corpo para esquecer o gosto da traição, mas acordei com a alma mais seca do que antes. A covardia é um tempero amargo que está estragando a minha vida. Luccas não é apenas um desejo; ele é a ruína da minha máscara de dominador. E agora, as hienas voltaram para cobrar o preço do meu silêncio."
Enzo Romano
Se eu disser que estou renovado, estarei mentindo descaradamente para mim mesmo e para o mundo.
Tive uma noite intensa, selvagem e visceral, mas não foi com quem a minha alma gritava para estar.
Elena é uma mulher incrível, uma máquina de prazer que não arregou diante da minha fúria e da minha urgência.
Fodemos a noite inteira, corpos suados se chocando em uma tentativa vã de apagar uma memória com o atrito da carne.
Mas não era o corpo dela que eu desejava. Não era a boca dela que eu queria sentindo o meu calor.
Não era nela que eu queria me enterrar até perder os sentidos; era em Luccas, o garoto que me assombra.
Minha covardia me impede de assumir esse sentimento. O medo de depender de alguém é um abismo que eu temo saltar.
Tenho pavor de entregar o mapa do meu coração para alguém e deixar que essa pessoa tenha o poder de me destruir.
— Pelo jeito, a noite não foi o suficiente — Jazz entra no meu escritório, me sondando com seu olhar de radar.
Eu não havia dormido. Saí cedo para correr e treinar até a exaustão, tentando esgotar o monstro do ciúme.
Agora estou no Aurora, focado nas atividades cotidianas, tentando ocupar a mente para não ir atrás de Luccas.
Mesmo sabendo que não pretendo assumi-lo. Aceitar uma relação homoafetiva não é simples para um Romano.
— Estive longe por cinco dias, Jazz. Precisava chegar cedo para colocar as coisas em ordem — respondi, seco.
— Sei... — ela me olha com aqueles olhos que sugam a alma e revelam todas as mentiras.
— Se bem o conheço, alguma mulher gostosa passou a noite no seu loft para te ajudar com o "estresse", não é?
— Eu precisava extravasar, Jasmine. Sou um homem de necessidades, você sabe disso — falei, sem olhá-la.
— E pelo jeito, não conseguiu o suficiente. Você está com uma cara horrível, Enzo. Parece um morto-vivo.
— Não. Não foi o suficiente para esquecer aquele beijo maldito — confessei, batendo com o punho na mesa de metal.
Com Jazz eu podia ser sincero. Ela sabe o que sinto por ele, e eu não conseguia esconder minha frustração.
— Aquele beijo do Julian... ele foi como uma marca de ferro quente na minha pele — rosnei, sentindo o sangue ferver.
— Então você vai gostar de saber que o Luccas não ficou nada confortável com a atitude do Julian — Jazz soltou.
Eu parei o que estava fazendo. Meu coração deu um solavanco violento contra as costelas. — Como é que é?
— Ele odiou o beijo público. Foi embora do evento assim que você saiu, sem olhar para trás — ela explicou.
— Luccas não é um troféu para ser exibido, Enzo. E ele deixou claro que Julian cruzou uma linha que não devia.
Senti um alívio momentâneo, mas ele foi rapidamente esmagado pela lembrança do meu próprio erro com Elena.
— Você precisa ser honesto com você mesmo, Enzo. Pare de fugir como um moleque assustado — Jazz insistiu.
— Aceite o que sente. Assuma o Luccas de uma vez por todas e pare de f***r com a vida de vocês dois.
— Assumir? Você ficou louca? — levantei-me, o pânico brilhando nos meus olhos. — Eu tenho um império, Jasmine!
— Minha reputação, os investidores, a minha família... eu não posso simplesmente virar o "Chef gay" de Manhattan!
— Você prefere ser o "Chef covarde" que morre de saudades enquanto dorme com estranhas? — ela me enfrentou, firme.
— Eu estou tentando proteger ele! Com a aproximação da minha família agora... eles vão usar o Luccas pra me destruir.
— Você já está destruído, Enzo! Olha para você! Está sendo e******o com a única pessoa que quer o seu bem.
Respirei fundo, tentando conter a vontade de quebrar algo. O medo de amar era mais paralisante que qualquer ameaça.
Enquanto a tensão entre nós subia, meu celular vibrou sobre a mesa. Era uma mensagem de um número conhecido.
“Precisamos conversar, Sr. Romano. É sobre o futuro do meu irmão e o seu segredo sujo. Me encontre hoje. — Bella.”
Mostrei a tela para Jazz. O ódio por aquela mulher era a única coisa que superava o meu medo naquele momento.
— A hiena resolveu aparecer — murmurei. — Eu vou encontrar essa v***a e acabar com isso agora.
— Eu vou com você — Jazz disse, pegando a bolsa. — Você está instável demais para lidar com a Bella sozinho.
Combinamos o horário e o local. Duas horas depois, estávamos em um reservado discreto de um café afastado.
Bella Ashford chegou com aquele sorriso cínico que exalava veneno, vestida como se fosse a dona da razão.
— Você é sempre tão pontual assim, Sr. Romano— ela disse, ignorando Jasmine com um movimento desdenhoso de cabeça.
— O que você quer, Bella? Despeja logo o seu lixo porque o meu tempo é caro — fui direto, sem cerimônias.
— Sempre tão agressivo... é esse o toque que você usa com o meu irmãozinho entre quatro paredes? — ela provocou.
— Não ouse pronunciar o nome dele — sibilei, meus dedos se curvando sobre a mesa, prontos para o bote.
— Calma, Chef. Eu vim em paz. Ou quase isso — ela abriu a bolsa e tirou um envelope pardo, deslizando-o para mim.
— Mas eu descobri algo muito mais... interessante. Algo que vai afetar a vida do Luccas de forma irreversível.
— Se você não contribuir com o que eu quero, Enzo, eu vou soltar isso. E o seu "namoradinho" nunca mais vai se recuperar.
Jasmine tentou pegar o envelope, mas Bella foi mais rápida, mantendo-o sob sua mão enluvada.
— O que tem aí, Bella? — perguntei, minha voz falhando por um segundo diante da ameaça iminente.
— Algo que prova que o Luccas não é tão inocente quanto você pensa... ou que ele está em um perigo que você não pode evitar.
— Digamos que o passado o meu irmão tem segredos que ninguém conhece. Quero muito dinheiro pra não deixar isso vir à tona
Senti o suor frio brotar na minha nuca. A dor e o sofrimento de Luccas eram a única coisa que eu não podia suportar.
Eu estava perdendo o controle de novo. A guerra estava batendo à porta, e o inimigo estava sentado na minha frente.
— Quanto? — perguntei, as palavras saindo amargas como fel.
— Não é apenas dinheiro desta vez, Enzo — Bella sorriu, e o brilho nos olhos dela era puramente maligno.
— E quero que você mesmo seja o carrasco do Luccas para salvá-lo de algo pior.
O ar no café pareceu desaparecer. Jazz apertou o meu braço, sentindo a minha vibração de puro ódio e desespero.
O perigo era real. Se eu não cedesse, Luccas seria destruído. Se eu cedesse, eu o perderia para sempre por minhas próprias mãos.
O banquete da vingança agora tinha o ingrediente mais c***l de todos: o sacrifício do único homem que eu já amei.