"A blindagem de um homem é tão forte quanto as mentiras que ele conta a si mesmo. Naquela noite, o mármore frio da cobertura de Alex foi o palco da minha ruína. Eu servia um banquete, mas era a minha alma que estava sendo devorada pelos olhos de Luccas Ashford. Eu sou um impostor no meu próprio reino."
— Enzo Romano
A cobertura de Alex Turner era um triunfo de aço escovado e tecnologia, uma fortaleza de vidro suspensa sobre o caos de Manhattan.
Normalmente, eu me sentia em casa naquele ambiente estéril e moderno, mas naquela noite, o ar parecia pesado o suficiente para derrubar um satélite.
Alex tinha aberto as portas para Victoria e Luccas quando os pais deles os jogaram no olho da rua como se fossem lixo.
Tudo em nome de uma falsa moralidade religiosa que eu conhecia bem demais.
O gosto amargo da hipocrisia estava no ar.
A acusação de "falta de escrúpulos" ainda ecoava em cada silêncio daquela sala luxuosa.
Eu via nos olhos de Luccas o brilho de quem fora ferido no lugar mais profundo e sagrado: a própria dignidade.
Eu estava na cozinha gourmet de Alex, um espaço que ele raramente usava, mas que eu dominava como se fosse minha.
Finalizar um risoto de açafrão com ossobuco era mais do que um gesto de amizade; era minha terapia e meu único escudo.
Enquanto eu mexia o arroz em movimentos rítmicos, observava o campo de batalha em que a sala se tornara através da ilha de mármore.
Chris estava sentado no balcão, uma taça de cristal entre os dedos, mas seu olhar estava fixo em Victoria, faminto e culpado.
Ela ajudava Jasmine a organizar a mesa, movendo-se com uma postura rígida que escondia a dor da humilhação pública.
— Você caprichou, Enzo — Alex disse, aproximando-se com uma garrafa de vinho já aberta, quebrando o silêncio cortante.
— Eles precisam de algo reconfortante depois do inferno que passaram com aquela família de fanáticos.
— Ir a Vegas deu uma espairecida, mas voltamos à realidade e ela é um soco no estômago — completou Alex, suspirando.
— Comida é a única coisa que não mente, Alex — respondi, sem desviar os olhos da panela de cobre. Eu precisava de foco.
Precisava que a temperatura do caldo fosse a única coisa me preocupando naquela noite de máscaras e segredos.
— Se o ingrediente for r**m, o prato desanda. Pessoas são muito mais complicadas que uma redução de vinho tinto.
Alex soltou um riso seco e serviu uma taça.
— Você e sua filosofia de cozinha, Romano. Mas você está certo.
— O clima aqui está mais tenso que o firewall do Pentágono antes de um ataque cibernético — ele murmurou.
Luccas estava sentado no canto do sofá, observando tudo com um silêncio cauteloso, como um predador avaliando o terreno.
Ele era o único que não tentava preencher o vazio com banalidades sem sentido sobre o mercado financeiro.
A camiseta branca realçava o bronzeado que ele trouxe de Vegas, uma lembrança constante de que nós dois quebramos todas as regras.
Seu rosto carregava uma maturidade precoce, a expressão de quem acabara de descobrir que o mundo não tem piedade dos honestos.
Ninguém ali sabia que, além da expulsão por defender a honra da irmã, Luccas guardava o peso de sua própria descoberta.
E eu, o homem que pregava a lealdade acima de tudo, era o arquiteto do seu maior e mais perigoso segredo erótico.
— Então, Luccas — Jasmine quebrou o silêncio, tentando injetar um pouco de leveza naquela sala de tribunal.
— Como está sendo trabalhar comigo? O Chef aqui tem sido um bom anfitrião no restaurante durante nossas reuniões?
Luccas levantou o olhar devagar. Ele me encarou através do vapor que subia da panela de risoto, desafiando meu silêncio.
O contato visual foi breve, mas carregado com a voltagem de mil volts, queimando qualquer barreira que eu tentasse erguer.
— O Chef Romano é... muito meticuloso, Jasmine — Luccas respondeu, sua voz calma, controlada e terrivelmente rouca.
— Ele trata cada detalhe como se fosse vital. É interessante observar como ele mantém a ordem quando tudo parece transbordar.
Senti meu maxilar travar. Chris soltou uma risada curta, batendo no ombro de Alex, alheio ao incêndio ao seu lado.
— Viu só? Eu disse que o garoto tinha fibra. O Enzo é um carrasco, Luccas. Um verdadeiro tirano da culinária.
— Se você conseguir entender o manual de instruções dele, você ganha uma medalha de honra ao mérito — Chris brincou.
— Sou amigo dele há anos e ainda me surpreendo com o quão rígido ele consegue ser com quem está ao redor.
— Não é rigidez, Chris. É padrão — corrigi, minha voz saindo mais seca e áspera do que o pretendido para um jantar de amigos.
— Na cozinha, ou você segue o padrão, ou alguém acaba se queimando gravemente. Não há espaço para improviso.
— Exatamente — Luccas murmurou, voltando sua atenção para a taça, de modo que apenas eu captasse o peso do seu olhar.
— E ninguém quer sair daqui com cicatrizes permanentes, não é mesmo, Chef? — ele completou, lambendo os lábios.
O jantar prosseguiu, mas eu m*l conseguia engolir uma única colherada daquele risoto perfeito que eu mesmo criei.
Minha mente era um redemoinho de flashbacks: o toque dele na penumbra, o cheiro de suor e mel, o som da sua entrega.
Eu olhava para as mãos de Luccas e depois para o rosto de Chris. A culpa era um gosto metálico e persistente de sangue.
Eu me sentia um impostor. O "Chef Safado" era um papel que eu desempenhava para não lidar com a verdade esmagadora.
Aquele garoto tinha estilhaçado a minha bússola moral e estava pisando nos cacos com uma elegância de tirar o fôlego.
Quando a sobremesa foi servida — uma panna cotta de lavanda — o cansaço emocional de todos cobrou seu preço final.
Victoria e Chris entraram em uma discussão sussurrada num canto da varanda, as mágoas de meses vindo à tona.
Alex foi mostrar a Jasmine um novo protótipo no escritório, deixando o silêncio reinar novamente na cozinha gourmet.
Ficamos apenas Luccas e eu, separados pela ilha de mármore que parecia a única barreira entre o desejo e o abismo.
— Você vai fugir de novo? — ele perguntou em um tom de voz que não chegaria aos ouvidos de ninguém naquela sala.
Ele se levantou e caminhou até o balcão, fingindo observar os pratos sujos, mas seu corpo estava inclinado para o meu.
— Vai entrar no seu carro e fingir que essa noite foi apenas uma obrigação chata de um amigo leal? — ele provocou.
— O que você quer de mim, Luccas? — sibilei, mantendo as mãos ocupadas com a limpeza frenética do balcão de pedra.
— Que eu exponha tudo aqui? Chris está destruído por causa da Victoria. Eles são a minha única família.
— Eu não quero que você exponha nada para eles, Enzo. Eu quero que você pare de mentir para esse seu reflexo.
Ele se inclinou sobre o mármore frio, diminuindo a distância até que eu pudesse sentir o calor que emanava da sua pele.
— Você age como se eu fosse um erro de cálculo, uma falha no sistema. Mas seus olhos gritam outra coisa.
— Você está com medo de descobrir que essa sua blindagem de aço é feita de papelão barato e frágil — ele sussurrou.
— Você não sabe nada sobre mim ou sobre o que eu sinto — retruquei, sentindo o impulso violento de beijá-lo ali mesmo.
— Eu sei o suficiente para ver que você está sofrendo tanto quanto eu — a voz dele amoleceu, ganhando uma nota de dor.
— Eu não sou um problema técnico para você resolver e descartar, Enzo. Eu sou o homem que viu quem você é de verdade.
— Vi você quando não havia público para aplaudir, quando você era apenas carne, osso e desejo — Luccas finalizou.
Antes que eu pudesse responder, Victoria voltou para a sala, seus olhos vermelhos indicando que a conversa fora um desastre.
Luccas recuou instantaneamente, voltando ao papel de irmão protetor, mas seu olhar ainda queimava a minha dólmã.
— Vamos, Vic? — ele disse, firme e protetor. — Alex disse que podemos descansar nos quartos de hóspedes.
Observei-os subir as escadas. Chris aproximou-se de mim e colocou a mão no meu ombro, o rosto marcado pela derrota.
— Obrigado pelo jantar, cara. Ter você aqui... é a única coisa que me mantém no lugar hoje. Você é o irmão que escolhi.
Assenti, sem conseguir sustentar o olhar do meu melhor amigo.
Cada palavra de gratidão dele era uma facada na minha honra.
Saí da cobertura sentindo o ar de Manhattan escasso, como se a cidade inteira estivesse tentando me sufocar.
Minha blindagem estava em pedaços espalhados pelo chão daquela cobertura de vidro e aço escovado.
O campo minado agora se estendia por cada metro quadrado entre o meu restaurante e o lugar onde Luccas Ashford dormia.
Eu estava no centro de uma história que eu mesmo não teria coragem de ler até o final, pois sabia que o fim seria trágico.
E, no escuro do meu carro, a única coisa que eu conseguia sentir era o gosto de lavanda e o cheiro cítrico de uma traição iminente.
Eu era Enzo Romano, o mestre do controle, e acabara de perceber que nunca estive tão perto de perder o controle de tudo.
A guerra estava declarada, e eu era o meu próprio inimigo mais perigoso.