"Recebi a visita de duas hienas famintas: Bella e Margaret Ashford. Elas não vieram por amor ou perdão, vieram para lucrar com o suor daqueles que expulsaram. Mas elas cometeram um erro fatal: tentaram chantagear o homem errado. Agora, a guerra não é mais por negócios; é para destruir quem ousa ferir o que é meu."
— Enzo Romano
O ar no meu escritório pareceu estagnar no momento em que aquelas duas mulheres se acomodaram diante de mim.
Margaret Ashford mantinha uma postura rígida, o tipo de retidão moralista que esconde um vazio de caráter absoluto.
Bella, por outro lado, exalava uma inveja m*l disfarçada enquanto seus olhos percorriam minha mobília de luxo.
Ela parecia estar calculando o valor de revenda de cada peça de design italiano, como se já fosse a dona do lugar.
Eu estava em meu escritório quando um dos meus assistentes comunicou que havia duas mulheres me procurando com urgência.
Fiquei curioso. Não tinha nada marcado, e Jazz não havia mencionado nenhuma visita importante para aquela tarde.
— Pode mandar entrar — ordenei, saindo de trás da minha mesa e indo até o frigobar pegar um uísque puro.
Ao me virar, vi as duas entrarem. Uma mais nova, com uma aparência brega, carregada de maquiagem e um ar desagradável.
A outra era uma senhora de cerca de 50 anos. A semelhança física com os irmãos Ashford era inegável e perturbadora.
Claro que Victória e Luccas estavam longe daquele estilo cafona e da arrogância barata que essas duas apresentavam.
Pude concluir imediatamente que eram parentes. Provavelmente a tal da Bella e a mãe que os abandonou na rua.
— Pois não, senhoras — cumprimentei-as com uma polidez gélida. — Em que posso ajudá-las?
A mais jovem se aproximou, oferecendo a mão com um sorriso que não chegava aos olhos, apenas aos lábios pintados.
— Olá, sou Bella Ashford e esta é a minha mãe, Margaret — o aperto de mão dela era frágil e sem vida.
— Sou a mãe do Luccas e da Victória — a mulher mais velha completou com a mesma artificialidade da filha.
— A que devo a honra da visita? O Luccas não trabalha neste horário. Se quiserem falar com ele...
— Não é com ele que queremos falar, Sr. Romano — Bella me interrompeu com uma grosseria que me fez arquear as sobrancelhas.
Eu as encarei por alguns segundos, tentando entender a ousadia daquelas duas de virem até o meu santuário.
A curiosidade me dominou. Decidi dar a atenção que elas queriam, apenas para descobrir até onde ia a podridão humana.
— Posso saber o que desejam? — voltei a me sentar na poltrona atrás da minha mesa, apontando as cadeiras diante de mim.
Me recusei a oferecer sequer um café. Aquelas duas não mereciam a hospitalidade de um restaurante premiado.
Bella observava minha sala com um jeito desdenhoso, como se estivesse fazendo um favor ao respirar o mesmo ar que eu.
— Acompanhamos aqueles dois nos últimos meses. Parece que se deram bem na nova vida “fácil” que escolheram.
Ela fez um gesto de aspas com as mãos ao dizer "fácil", injetando todo o seu veneno na palavra.
— O que você quer dizer com “fácil”? — imitei o gesto dela, sentindo a raiva começar a borbulhar sob o meu peito.
— Veja só este lugar! — ela se levantou e começou a andar pela sala, analisando cada detalhe com um olhar de cobiça.
— Vocês são todos ricos — Bella continuou. — Você, o bonitão da Empire e o tal do Alex... Todos nadando em dinheiro.
— Enquanto isso, meus pais, que criaram aqueles dois ingratos, passam dificuldades nessa cidade caríssima — ela cuspiu.
Margaret soltou um suspiro teatral, levando um lenço de renda ao canto dos olhos perfeitamente secos e frios.
— Nós os criamos com os melhores valores, Sr. Romano. Disciplina, temor a Deus, integridade. E o que recebemos?
— Victória se vendendo para um milionário e Luccas... — ela fez uma careta de nojo, como se o nome do filho fosse lixo.
— Luccas se perdendo em vícios imundos. Mas, se eles ganham tanto dinheiro com esses "serviços", devem honrar pai e mãe.
Senti uma onda de náusea percorrer meu estômago. A hipocrisia delas era tão espessa que eu quase podia senti-la na língua.
— Deixe-me ver se entendi — eu disse, minha voz baixando para aquele tom gélido que fazia meus sub-chefs tremerem.
— Vocês cruzaram a cidade para me dizer que eles são imorais e que a vida deles em Nova York é uma vergonha absoluta?
— E, ainda assim, vocês querem uma porcentagem do lucro dessa "imoralidade" para sustentar o próprio conforto?
Bella virou-se para mim com um sorriso cínico nos lábios vermelhos. — É uma indenização pelo sofrimento que nos causam.
— A família Ashford tem um nome a zelar. Já que eles são a escória sob a proteção de vocês, nada mais justo que o dinheiro flua.
— Indenização? — eu ri, um som curto e sombrio. Levantei-me lentamente, usando cada centímetro da minha presença para sufocá-las.
— Vocês os expulsaram. Deixaram-nos na rua sem nada por causa de uma mentira que você, Bella, inventou para o seu ego doentio.
— Foi para o bem da alma deles! — Margaret exclamou. — Eles precisavam aprender que o pecado tem consequências amargas.
— O pecado? — dei um passo em direção a ela, meus olhos fixos nos dela até que a "santa" desviasse o olhar.
— O único pecado aqui é o de uma mãe que aceitaria dinheiro do "pecado" do filho para sustentar a própria ganância.
— Vocês não fazem ideia do quanto eles trabalham. Luccas é mais brilhante do que dez de vocês juntas — defendi.
Bella cruzou os braços, tentando manter a pose arrogante, mas o brilho de ódio em seus olhos a entregava.
— Poupe-me do sermão, Sr. Romano. Homens como você não mantêm garotos como o Luccas por perto apenas pela "competência".
— Eu vi como você olha para ele nas fotos. Eu sei exatamente o que acontece quando as luzes se apagam entre vocês dois.
— Se não quer que a próxima postagem seja sobre o Chef das Estrelas e seu novo brinquedo Ashford, melhor falarmos de valores.
O sangue ferveu. A audácia de me ameaçar e transformar o que eu sentia por Luccas em mercadoria barata foi o estopim.
Aproximei-me de Bella, parando a milímetros do seu rosto. O cheiro do perfume barato dela era uma ofensa ao meu olfato.
— Você acha que pode me chantagear? — sibilei, cada palavra saindo como uma lâmina afiada pronta para o corte.
— Você expôs o seu próprio sangue. Tentou destruir seu irmão por diversão. E agora vem aqui pedir dinheiro?
— Nós temos direitos! — Margaret insistiu, mas sua voz já estava trêmula diante do meu ódio evidente.
— Vocês não têm direito a nada — retruquei, voltando para trás da mesa e pegando o interfone com força.
— Segurança, agora! Tenho duas intrusas no meu escritório que precisam ser removidas imediatamente — ordenei.
— Se elas colocarem os pés em qualquer restaurante da minha rede, chamem a polícia por invasão e tentativa de extorsão.
Bella arregalou os olhos, a máscara de arrogância começando a rachar diante da minha reação implacável.
— Você não pode fazer isso! Nós vamos contar para todo mundo! Vamos dizer que você está pagando pelo silêncio deles!
— Conte — eu disse, dando de ombros com uma indiferença que a desarmou completamente. — Eu tenho os melhores advogados.
— Eu tenho o apoio da Empire. Nós vamos enterrar vocês em processos antes que o seu próximo post saia do rascunho.
— E se eu descobrir que chegaram a menos de cem metros do Luccas ou da Victória, eu tornarei a vida de vocês um inferno real.
Margaret levantou-se, tremendo de indignação e medo. Ela viu nos meus olhos que eu não estava blefando por um segundo.
— Vamos, Bella — a mãe murmurou, puxando a filha. — Não há nada para nós aqui entre esses... degenerados.
— "Degenerados" — repeti, vendo-as caminhar até a porta. — Engraçado como o dinheiro do "degenerado" era bem-vindo há pouco.
Parei Bella antes que ela saísse, fixando meu olhar no dela com um desprezo que a fez recuar.
— Se você acha que o Luccas é "fácil", é porque nunca tentou ser metade do homem que ele é. Agora, suma da minha frente.
A porta se fechou com um estrondo, mas a aura de sujeira deixada por elas ainda impregnava o ar do meu escritório.
Senti uma náusea profunda. Agora, o medo de Luccas de se assumir fazia um sentido doloroso e urgente.
Ele não era apenas uma tentação para mim; ele era um sobrevivente daquele ninho de cobras que se diziam família.
Peguei o telefone e liguei imediatamente para Christopher. Minha voz estava carregada de uma fúria controlada.
— Temos um problema, Davis. Recebi a visita de Bella e Margaret Ashford. E elas não vieram para pedir perdão.
— Vieram para caçar, Chris. Querem lucrar com as conquistas da Victória e do Luccas. Vieram pedir dinheiro pelo silêncio.
Eu pouparia Luccas desse golpe por enquanto, mas a guerra estava declarada e eu seria o primeiro na linha de frente.
Pela primeira vez na vida, eu não lutava pelo meu império ou pela minha fama, mas pela alma do homem que eu amava no escuro.
Virei o resto do uísque, sentindo a queimação na garganta. O banquete da vingança estava sendo preparado por mim.
E eu garantia: seria um prato que as cinzas daquelas duas jamais esqueceriam.