Capítulo 28 — Silêncio

1454 Words
“O império pode ser vasto e a cozinha impecável, mas sem a peça certa no tabuleiro, o rei descobre que sua coroa é feita de espinhos” Enzo Romano. Com a volta repentina de Luccas a Nova York, o peso do Aurora Miami caiu sobre meus ombros como uma avalanche. Tive que reorganizar cada detalhe, cada cronograma, enquanto a imagem dele saindo por aquela porta me assombrava. Resolvo ligar para a Jasmine. Ela é a única que consegue segurar as pontas quando o Trio de Ferro ameaça desmoronar. — Olá, Jazz — ela atende antes do terceiro toque, a voz carregada de uma eficiência cortante. — Preciso de ajuda aqui, Jasmine. A situação saiu do controle — confesso, massageando as têmporas. — Estou sabendo — ela responde, com um tom desdenhoso que me faz encolher. — O que você aprontou dessa vez, hein, Chef? — Além de bancar o i****a babaca, não fiz nada demais — digo, sentindo o gosto amargo da verdade. Estou na cozinha do Aurora, cercado por panelas de cobre e uma equipe que se move como engrenagens sob meu comando. Consegui que um dos garçons, com habilidades em organização, me auxiliasse na parte administrativa que era do Luccas. Ele tem feito um bom trabalho, é esforçado e ágil. Mas ele não consegue ser o meu Luccas. Falta o brilho nos olhos, a audácia de me enfrentar e aquela intuição que só o garoto tem. — O Luccas me ligou avisando que estava voltando por motivos pessoais. Imaginei que fosse algo entre vocês — Jazz pontua. — Que horas você e o Alex chegarão? Estou ficando maluco com esses repórteres. Me socorre, Jazz. — Você já é nervoso nesses dias de evento, imagine abalado com essa situação do Luccas — ela comenta com precisão cirúrgica. — Estaremos aí antes do anoitecer. Te ajudaremos com a entrevista das 20h e a do jornal local amanhã cedo. — Tudo bem. Mas, Jazz... procura a Vic. Tenta notícias sobre ele. Só preciso saber se ele está bem. — Quando eu chegar, conversamos sobre isso, Enzo. Foque no serviço — ela desliga sem me dar chance de réplica. O dia passa como um borrão de fumaça e estresse. Cada prato que testo parece faltar sal, ou talvez seja apenas o meu paladar que morreu. No final da tarde, como prometido, Jasmine e Alex atravessam as portas de vidro do restaurante. Alex caminha até mim e me cumprimenta com um aperto de mão firme e um abraço de irmão. — Viemos dar uma força, cara. O lugar está incrível — Alex diz, olhando ao redor com admiração. — Obrigado por virem. Eu estava prestes a jogar uma caçarola em alguém — brinco, embora o cansaço seja visível. Jazz não diz nada de imediato, apenas me analisa. Ela é o equilíbrio entre a minha fúria e a racionalidade do Alex. As horas seguintes são um turbilhão. Enfrentamos os repórteres com a elegância que a marca Empire exige. Jazz filtra as perguntas venenosas enquanto Alex garante que as fotos destaquem o melhor do design siciliano do Aurora. Perto das onze da noite, quando o restaurante está finalmente vazio, decido cozinhar para os dois. É o meu refúgio. Preparo um Linguine alle Vongole, o aroma do alho e do vinho branco preenchendo o ar. Sentamos em uma mesa reservada no fundo do salão, longe das janelas de South Beach. O silêncio é preenchido apenas pelo som do vinho sendo servido nas taças de cristal. — Precisamos falar sobre o elefante na sala, Enzo — Alex começa, bebendo um gole do seu tinto. — Eu vi a Sofia Bianchi hoje cedo no café — disparo, antes que ele possa perguntar qualquer outra coisa. Alex franze a testa, tentando buscar o nome na memória, mas Jazz trava o garfo no meio do caminho. — Sofia Bianchi? Sua ex e filha daquela mulher? — Jazz pergunta, a voz descendo para um tom perigoso. — Exatamente. Na verdade, ela apareceu ontem no restaurante do hotel e me viu lá... — começo a explicar. — Treze anos depois, ela surge aqui em Miami e age como se nada tivesse acontecido — digo, sentindo o ódio borbulhar. Revelo para eles toda a história que eu mantinha trancada em um cofre na Sicília. Conto sobre a traição da Francesca com o meu pai, Máximo. Sobre como Sofia sabia de tudo e me fez de palhaço. Falo sobre a morte da minha mãe, definhando de tristeza enquanto os Bianchi riam pelas nossas costas. — Por isso você fugiu... — Alex murmura, processando o peso daquela tragédia familiar pela primeira vez. — Eu não fugi, Alex. Eu me salvei. Ou achei que tinha me salvado até vê-la hoje — corrijo, a voz rouca. Não falo sobre Luccas na frente do Alex; o assunto ainda é íntimo demais, uma ferida que não quero expor ao mundo. Mas Jasmine me conhece. Ela lê os meus silêncios melhor do que qualquer manual de culinária. Pouco tempo depois, Alex se retira momentaneamente para atender uma ligação importante da CODEVALT em NY. Ficamos apenas eu e Jazz sob a luz suave das luminárias de Murano. — Você descontou nele, não foi? — Jazz pergunta, direta como um tiro de misericórdia. — Eu perdi o chão, Jazz. Ver a Sofia foi como voltar para o dia em que minha mãe morreu. — E o Luccas pagou a conta de uma dívida que não é dele — ela completa, me olhando com severidade. — Eu o tratei como se ele fosse o inimigo. Eu disse coisas... eu disse que ele era apenas um assistente. Enterro o rosto nas mãos, sentindo o peso da injustiça. Eu o humilhei logo após termos tido a noite mais intensa da minha vida. — Você foi além dos limites, Enzo. Ele estava fragilizado com as chantagens da Bella e você o empurrou do penhasco. — Eu sei! Eu sou um i****a. Eu queria protegê-lo do veneno da Sofia, mas acabei sendo o próprio veneno. — Ele acredita que você o odeia ou que ele não passa de um passatempo descartável para você — Jazz pontua. — Eu preciso dele aqui, Jazz. Não apenas para a inauguração, mas... eu não consigo dormir sem o cheiro dele. Jasmine suspira e coloca a mão sobre a minha. É um gesto raro de carinho puro entre dois guerreiros. — Ele não vai atender suas ligações agora. O Luccas tem um orgulho que você mesmo cultivou nele. — O que eu faço? Se eu perder o Luccas, eu perco a mim mesmo. — Foque em amanhã. Faça o evento da sua vida. E depois, Enzo... você vai ter que rastejar se quiser o perdão dele. Alex volta para a mesa, cortando o momento de confidência, mas a tensão continua vibrando no ar. O jantar termina e os acompanho até a saída do restaurante e seguem para o hotel. O céu de Miami está estrelado, mas eu me sinto no escuro. Volto para o hotel e encaro a porta conectada. O vazio da suíte ao lado parece gritar o nome dele. Deito-me na cama e sinto um objeto sob o travesseiro. É um pequeno lenço que ele esqueceu na pressa da fuga. Levo o tecido ao rosto. O cheiro de Luccas ainda está ali, lutando contra o perfume de sândalo que eu exalo. Meu celular vibra. É uma notificação de uma rede social de fofocas de Miami que Jasmine monitora. Uma foto borrada minha e de Sofia no café da manhã, com a legenda: "Chef Romano reencontra antigo amor siciliano às vésperas de a******a histórica?" Fecho os olhos, sentindo a raiva queimar. Sofia não está aqui apenas por coincidência ou trabalho. Ela está jogando. E se o Luccas vir aquela foto, a pouca esperança que eu tenho de recuperá-lo vai virar cinzas. Eu o magoei, o afastei e agora o passado está tentando ocupar o lugar que pertence apenas ao meu assistente abusado. A inauguração do Aurora Miami amanhã não será apenas sobre comida. Será sobre sobrevivência. Amanhã eu terei que cozinhar com o coração sangrando e os olhos nas costas, esperando o próximo bote da Sofia. Mas uma coisa é certa: ninguém tira o que é meu. Nem minha história com a Sofia Bianchi, nem a distância, nem o próprio Luccas. O silêncio do quarto é interrompido por uma batida suave na porta principal. Meu coração dispara. Seria ele? Caminho até a porta com a respiração suspensa, mas ao abrir, não vejo o rosto de Luccas. Vejo um envelope dourado no chão, sem remetente, apenas com um selo de cera que eu reconheço de longe. O brasão da família Bianchi. A guerra começou oficialmente, e eu estou perigosamente sozinho no campo de batalha.
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