Capítulo 9 – Proximidade Indesejada

1558 Words
"Tentei enterrar Luccas Ashford nas areias de Vegas, mas ele ressurgiu no coração do meu império. Agora, ele não é apenas uma lembrança proibida; ele é o meu braço direito e o meu maior tormento. A 'experiência' acaba de se tornar a minha rotina, e eu sinto que as paredes do meu santuário estão prestes a desabar." — Enzo Romano O destino tem um senso de humor distorcido e, às vezes, c***l. Passei anos construindo muros, filtrando quem entrava no meu círculo e garantindo que minha vida fosse um santuário de ordem. Mas, em Nova York, as linhas entre o pessoal e o profissional são tão finas quanto um corte de carpaccio feito por um amador. Acordei com a mensagem de Luccas ainda queimando na minha retina, apesar de ter tentado apagá-la da memória. A palavra "covarde" ecoava na minha mente como um metrônomo irritante enquanto eu me vestia para uma reunião de estratégia. Jasmine, nossa RP e a mente brilhante que mantinha a nossa imagem impecável, convocara um encontro de emergência. Precisávamos alinhar a comunicação da expansão da minha rede de restaurantes e os novos clubes de Christopher. Entrei na sala de conferências da Code Vault com a minha habitual máscara de indiferença e superioridade. Chris e Alex já estavam lá, mergulhados em alguma bobagem tecnológica, rindo como se o mundo fosse um playground. — Finalmente, o Chef das Estrelas resolveu aparecer — Alex brincou, sem tirar os olhos do seu tablet de última geração. — O trânsito no Lincoln Tunnel estava pior que o tempero do seu restaurante favorito, Alex — retruquei, sentando-me com crueza. Abri meu laptop, tentando ignorar a sensação estranha de que algo estava fora do lugar naquela manhã cinzenta. — Onde está a Jasmine? — perguntei, buscando focar no que realmente importava: os negócios e os lucros. — Ela está terminando uma ligação importante. Mas mandou o novo assistente adiantar os relatórios — Chris respondeu. Senti um calafrio inexplicável na nuca. Um pressentimento sombrio que fez meus sentidos entrarem em alerta máximo. Antes que eu pudesse processar a informação ou perguntar o nome do assistente, a porta de carvalho se abriu. Luccas entrou na sala. Ele não usava mais as roupas de festa de Vegas que me fizeram perder o juízo. Vestia uma calça de alfaiataria escura e uma malha de gola alta que acentuava sua mandíbula marcada e sua postura elegante. Ele carregava uma pilha de pastas com uma eficiência que eu não esperava de um garoto que parecia tão perdido no deserto. Nossos olhos se cruzaram por um segundo que pareceu uma eternidade de silêncio absoluto e ensurdecedor. Diferente de Vegas, onde ele parecia um cervo assustado, Luccas estava armado com uma frieza profissional que rivalizava com a minha. Ele não desviou o olhar; ele o sustentou com uma audácia que me fez querer prendê-lo contra aquela mesa e exigir explicações. — Bom dia, senhores — a voz dele foi estável, mas eu senti a vibração subterrânea nela, o eco da nossa noite. — Jasmine pediu para eu distribuir as projeções de mídia para o lançamento do Aurora Miami — explicou ele, impecável. Ele começou a circular pela mesa, entregando as pastas com uma elegância que chamou a atenção até de Alex. Quando chegou ao meu lado, ele não se apressou. Senti o cheiro cítrico dele novamente, invadindo meus pulmões. Era o mesmo cheiro que estava impregnado nos meus lençóis de seda há menos de vinte e quatro horas em Vegas. Enquanto ele colocava a pasta na minha frente, seus dedos roçaram propositalmente nos meus. Um toque elétrico. Foi um contato rápido, quase imperceptível para os outros, mas para mim foi como um soco direto no estômago. — Aqui está o seu, Chef Romano — ele disse, com uma ênfase sutil, quase irônica, no meu título profissional. — Espero que os números sejam do seu agrado — completou ele, sustentando um sorriso que não chegava aos olhos. — Obrigado... Luccas — respondi, minha voz saindo mais seca e áspera do que eu planejava. — Espera aí — Alex levantou a cabeça, franzindo o cenho em confusão. — Luccas? O irmão da Victoria? — Jasmine contratou você? Por que não me falou nada ontem lá em casa? — Alex questionou, curioso. — Sim, achei que o Chris tivesse contado. Foi ideia dele — Luccas sorriu para Alex, um sorriso que ele me negou. — Ela precisava de alguém que entendesse a dinâmica do grupo e que fosse discreto — Luccas justificou-se com calma. — Victoria achou que seria uma boa oportunidade para eu me estabelecer agora que as coisas mudaram na minha vida. — Isso é ótimo! — Chris exclamou, genuinamente feliz, sem notar a tempestade que se formava ao meu redor. — Ter você na equipe da Jasmine facilita tudo. Você já nos conhece e sabe como o Enzo é insuportável com detalhes. Eu queria gritar. Queria dizer que era um conflito de interesses, que era perigoso, que era uma ideia terrível. Mas como eu explicaria isso sem revelar que perdi o controle em uma suíte de luxo e o devorei como um animal? Eu estava encurralado pela minha própria farsa, preso em uma rede que eu mesmo ajudei a tecer com o meu silêncio. Jasmine entrou na sala logo em seguida, radiante e exalando o perfume caro que era sua marca registrada. — Vejo que já conheceram meu novo braço direito. Luccas é um prodígio, rapazes. Um achado raro no mercado. A reunião prosseguiu, mas eu não consegui focar em uma única palavra sobre marketing, branding ou expansão. Eu sentia o olhar de Luccas em mim o tempo todo. Ele estava sentado no canto, agindo como o assistente perfeito. Mas eu sabia o que havia por trás daquela fachada. Eu sabia o som dos gemidos dele quando eu o apertava. — Enzo? — Jasmine me chamou, tirando-me do transe erótico e perigoso em que eu havia caído. — O que você acha da ideia do Luccas para o evento beneficente da próxima temporada? — ela perguntou, curiosa. — O quê? — pisquei, voltando à realidade gélida da sala de conferências e limpando a garganta. — O Luccas sugeriu que façamos uma live kitchen interativa. Os doadores participam da finalização dos pratos. — É moderno, gera engajamento e humaniza a sua marca, Enzo. Tira você do pedestal e te aproxima do público. Olhei para Luccas. Ele me encarava com uma expressão de "xeque-mate" que me fez ferver de raiva e desejo. Ele sabia que era uma ideia brilhante. Ele estava testando o meu profissionalismo diante dos meus sócios. — É uma ideia... aceitável — respondi, forçando a voz a soar impessoal. — Mas exige uma logística impecável. — Luccas vai cuidar disso pessoalmente com você, Enzo — Jasmine finalizou, decidida, fechando sua pasta de couro. — Ele vai passar as próximas tardes no Aurora para entender o fluxo da cozinha e desenhar o projeto com você. Senti o ar fugir dos meus pulmões. Ele estaria no meu santuário. Todas as tardes. Sob o meu comando. Ou eu sob o dele. Quando a reunião acabou e todos saíram, Luccas demorou-se para organizar os papéis sobre a mesa de vidro. Chris e Alex saíram na frente, conversando sobre investimentos. Fiquei parado, esperando que a porta se fechasse. — Você está me perseguindo? — sibilei, assim que ficamos sozinhos naquele ambiente asséptico. Luccas levantou os olhos, e o gelo profissional derreteu, revelando a brasa que queimava intensamente por baixo. — Eu estou trabalhando, Enzo. Diferente de você, eu não recebi uma herança bilionária para me sustentar. — Preciso de um emprego. E a Jasmine é a melhor naquilo que faz em Manhattan. É simples assim. — Existem milhares de empresas em Nova York. Por que diabos você escolheu logo a nossa? — questionei, agressivo. — Porque eu gosto de enfrentar meus medos — ele deu um passo em minha direção, baixando a voz para um tom íntimo. — E você, Enzo... você é o meu maior medo e a minha maior tentação. O homem que me marcou e fugiu. — Você me chamou de experiência e me jogou fora como se eu fosse um prato estragado no final da noite. — Agora, você vai ter que me ver todos os dias. Vai ter que sentir meu cheiro e lembrar de cada segundo. — Vai lembrar de como a minha pele reagiu ao seu toque e de como você me possuiu naquela cama — ele sussurrou. — Você está brincando com fogo, garoto — respondi, sentindo meu corpo trair minha vontade de afastá-lo. — Eu sou um Ashford, Enzo — ele sorriu, um sorriso triste e afiado. — Já fui queimado por pessoas piores. — Estarei no seu restaurante às duas da tarde. Tente não queimar o risoto quando eu chegar, Chef. Ele passou por mim, deixando o rastro do seu perfume cítrico e o som do meu coração martelando como um louco. Eu tinha tentado me convencer de que Vegas tinha ficado para trás, mas a "experiência" agora tinha um crachá e um cargo. Luccas Ashford tinha acesso ilimitado à minha vida, e o meu muro de dez anos estava prestes a sofrer uma demolição. Eu não sabia se queria expulsá-lo ou arrastá-lo para o balcão daquela sala, mas o jogo tinha acabado de recomeçar. E, desta vez, as regras não eram minhas.
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