"O escândalo é um fogo que consome os fracos, mas forja os fortes. Ver Luccas ser humilhado pela própria família quebrou a última peça da minha resistência.
Eu não sou mais apenas o homem que o deseja no escuro; sou o muro que o protegerá do mundo. Mesmo que, para isso, eu tenha que trair todos os que amo."
— Enzo Romano
O brilho da tela do celular na penumbra do meu loft parecia queimar minhas retinas como ácido puro.
Eu já tinha lido aquela sequência de ataques de Bella Ashford umas cinquenta vezes, e em cada uma delas, a bile subia pela minha garganta.
"Vergonha da família", "Se vendendo na noite", "Práticas imundas". Palavras que eram projéteis disparados por uma mulher amarga.
Mas o que me paralisou não foi o ataque à Victoria — que já era c***l —, foi a exposição covarde da i********e de Luccas.
Após aquele encontro desastroso no beco, Luccas tinha se fechado em um casulo de gelo e indiferença absoluta.
Tem sido um inferno lidar com esse desejo incontrolado por alguém do mesmo sexo, algo que desafia tudo o que eu construí.
Estar com Luccas tumultuou meus sentimentos e desestruturou o homem que eu pensava ser até o dia em que o vi em Vegas.
Não sei como lidar com essa nova pele, mas sei que estar longe dele é uma tortura que eu não consigo mais suportar.
Tudo o que desejo é estar com ele, dentro dele, fundindo meu corpo ao dele até que o resto do mundo desapareça no vácuo.
Eu sabia a verdade. Tinha sentido cada tremor das mãos dele e a forma como ele se entregava ao meu domínio.
E agora, aquela víbora da irmã dele tinha arrancado o véu da sua alma antes mesmo de ele decidir como queria se mostrar.
Meus dedos se fecharam em torno do celular, o desejo de esmagar o vidro competindo com a urgência de socar uma parede.
Eu precisava agir. Mas, como sempre, precisava ser o "Enzo Romano": o Chef centrado, o amigo leal, o homem sem segredos.
Fui direto para o escritório de Chris.
O clima na Empire estava tenso.
Os funcionários cochichavam pelos cantos, os olhares fugidios indicando que o veneno de Bella já tinha se espalhado pelos servidores.
Entrei na sala de Christopher sem bater, movido por uma urgência que queimava o meu peito como brasa viva.
Chris estava parado diante da janela, as mãos nos bolsos, os ombros tensos como cordas de um piano prestes a arrebentar.
— Você viu? — perguntei, minha voz saindo mais rouca, áspera e carregada do que eu pretendia naquele momento.
— Vi — Chris respondeu, seco. — É difícil processar que alguém exponha a própria família dessa maneira tão vil.
— Usar mentiras e i********e para validar o ódio... é o nível mais baixo que um ser humano pode chegar — ele completou.
Caminhei até a mesa dele, meu coração martelando contra as costelas com uma força que chegava a doer.
Eu precisava testar o terreno. Precisava saber se a minha própria máscara de "heterossexual inabalável" ainda estava segura.
— É c***l demais — comentei, hesitante, sentindo o peso da farsa que eu sustentava diante do meu melhor amigo.
— Você acha que o Luccas é... gay mesmo? — A pergunta saiu como veneno da minha própria boca. Eu odiei a mim mesmo.
Era uma encenação patética. Eu sabia o gosto dele, o cheiro do seu suor e a textura da pele dele sob os meus dentes.
Mas eu precisava soar como o amigo curioso, não como o amante possessivo que estava a um passo de um colapso nervoso.
Chris virou-se bruscamente, os olhos faiscando com uma fúria protetora que eu raramente via nele.
— Se for, Enzo, isso não muda nada! — ele disparou, a voz subindo de tom, defendendo o garoto que eu possuía no escuro.
— Não vamos tratá-lo diferente por causa da orientação dele. O problema aqui é a violência dessa exposição covarde.
— Ele é um bom garoto, é irmão da mulher que eu... — Ele parou, respirando fundo para não perder a compostura. — Ele não merece isso.
Senti um alívio momentâneo, seguido por uma pontada aguda de culpa que me fez querer vomitar ali mesmo.
Chris estava sendo o homem honrado, protegendo o cunhado, enquanto eu era o traidor que o fodera no beco do restaurante.
— O que vamos fazer? — perguntei, forçando minha mente a retomar o foco estritamente profissional.
— Eu vou blindar os dois. Já providenciei um apartamento seguro. Vou usar todo o peso jurídico da Empire contra a Bella.
Assenti, mas minha alma já estava quilômetros dali. Eu precisava ver Luccas. Precisava saber se ele ainda estava inteiro.
Saí da Empire e dirigi até a cobertura de Alex como se estivesse fugindo de uma cena de crime sob as luzes de Manhattan.
Quando entrei, o silêncio era opressor. Victoria era uma estátua de gelo no sofá, submersa em sua própria dor.
Luccas estava na varanda, olhando para o horizonte como se estivesse esperando o fim do mundo cair sobre sua cabeça.
Caminhei até ele. O vento frio de Nova York agitava seu cabelo, e quando ele se virou, meu coração se partiu.
Ele estava abatido, com um semblante cansado, e o brilho desafiador que eu tanto amava tinha sido substituído por um medo cru.
— Enzo — ele sussurrou, e o som do meu nome na voz dele foi como um soco no meio do meu estômago.
— Eu vi — foi tudo o que consegui dizer, sentindo a impotência de não poder gritar para o mundo que ele era meu.
Ele soltou um riso sem vida.
— Todo mundo viu. Agora sou o "escândalo da semana". Uma abominação para os meus parentes.
— Minha própria irmã me jogou para os lobos, Enzo. Ela me despiu na frente de estranhos por puro sadismo religioso.
Eu queria abraçá-lo. Protegê-lo.
Mas pensei em Alex ou Victoria a poucos metros de distância, vigiando cada movimento.
Dei um passo à frente e segurei o ombro esquerdo dele com uma das mãos, forçando-o a olhar para o homem que o desejava
Luccas estremeceu sob o meu toque, mas não recuou. Seus olhos buscaram os meus como um náufrago busca a terra firme.
Eu não poderia abraçá-lo ali, beijá-lo e mostrar o quanto ele era importante para mim.
Mas podia dizer algo que o confortasse.
— Escuta aqui — sibilei, meus olhos fixos nos dele. — O que ela escreveu não define quem você é. Nada daquilo importa.
— Ela é uma mulher pequena e amarga. Você é dez vezes o homem que o seu pai jamais sonhou em ser na vida.
— Eu não estava pronto, Enzo — ele desabafou, uma lágrima solitária finalmente escapando e queimando minha mão.
— Eu não queria que as pessoas me vissem como alguém de "práticas sujas". Exposto como um criminoso s****l.
— Agora, toda vez que me olharem, vão estar imaginando o que eu faço entre quatro paredes — ele disse com a voz quebrada.
— Deixe que pensem — respondi.
— Eles não sabem de nada. Não sabem o quão incrível você é sob o meu toque. E eu não vou deixar ninguém encostar em você.
A tensão entre nós transformou-se em algo novo.
Uma cumplicidade forjada na tragédia e no segredo compartilhado.
Eu vi a entrega nos olhos dele.
Ele estava se apoiando em mim, e pela primeira vez, eu não me importei com o risco da queda.
— Você veio aqui por causa do Chris? — ele perguntou, a voz ainda trêmula pelo impacto da humilhação pública.
— Também. Eu precisava saber se você estava vivo aqui dentro.
Ele se inclinou, encostando a testa no meu ombro. O contato era simples, mas carregava o peso de mil confissões carnais.
Eu o envolvi em meus braços, protegendo-o do vento e do ódio. Ali, comecei a entender que eu era o seu guarda-costas pessoal.
O medo de ser visto naquela situação e ser... m*l interpretado. Ou que interpretassem o que estava acontecendo.
— O Chris conseguiu um apartamento — murmurei contra o seu cabelo, sentindo o cheiro que me perseguia nos meus sonhos.
— Vocês vão para lá o quanto antes. É seguro. Eu mesmo vou levar vocês lá e garantir que ninguém chegue perto da porta.
Luccas se afastou um pouco, me olhando com uma nova intensidade, um fogo que nem a humilhação conseguiu apagar.
— Por que está fazendo isso, Enzo? Você passou semanas dizendo que eu era um perigo para a sua "vida perfeita".
— Porque eu sou um i****a — confessei, a verdade saindo sem filtros. — E porque o perigo não é você estar perto de mim.
— O perigo real é eu não ter você para proteger. O perigo é imaginar você enfrentando esse inferno sem as minhas mãos em você.
Ele sorriu, um sorriso frágil, mas real. A química entre nós faiscou, intensa e perigosa, ignorando o caos ao redor.
Eu senti o desejo latente, a urgência de levá-lo para um lugar onde as vozes da família dele não pudessem nos alcançar.
— Eu estou com medo, Enzo — ele admitiu. — Se a Bella continuar cavando... se ela descobrir sobre nós dois...
— Ela não vai descobrir — prometi, embora minha própria insegurança gritasse que estávamos caminhando sobre brasas.
— Eu sou um mestre em segredos, Luccas. E agora, você é o meu segredo mais precioso e perigoso.
Naquele momento, eu soube que o "Chef Safado" tinha morrido. Eu iria para o inferno por Luccas Ashford se fosse preciso.
Eu estava começando a entender que o amor é o tempero mais letal de todos — e eu já estava viciado no sabor daquele pecado.
Só não fazia ideia dos desafios que enfrentaríamos para manter esse amor em segredo.
Em algum lugar em Nova York, víboras e hienas tramavam contra nós sem que tivemos noção da destruição que viria.