Capítulo 8 – O Concreto e o Caos

1417 Words
"Vegas foi um sonho febril, mas Nova York é a realidade fria e de aço. Tentei apagar o rastro de Luccas com trabalho e desprezo, mas o vapor daquela noite ainda queima meus pulmões. Em Manhattan, o silêncio é uma arma, e eu sou um covarde armado até os dentes." — Enzo Romano Nova York não perdoa distrações e muito menos perdoa os fracos de coração. Ao contrário de Vegas, que é feita de luzes artificiais e tempo suspenso, Manhattan é forjada em cronômetros e aço. O voo de volta no jato particular de Christopher foi um exercício de tortura silenciosa, um teste para a minha sanidade. O ar dentro da cabine luxuosa estava carregado com algo que eu não conseguia definir, mas que me sufocava. E havia o Luccas... o meu maior erro e o meu desejo mais sombrio. Ele estava sentado o mais longe possível de mim, com os fones de ouvido isolando-o de um mundo que eu destruí. Eu o via pelo canto do olho, a silhueta tensa contra a janela, e a imagem da pele dele sob o neon de Vegas voltava. Eu sentia o cheiro cítrico dele mesmo a metros de distância, uma fragrância que agora parecia impregnada na minha alma. Tentei me concentrar em relatórios financeiros no meu tablet, mas as palavras dançavam sem sentido diante dos meus olhos. Assim que as rodas do jato tocaram o solo de Teterboro, o alívio que senti foi quase físico, uma onda de ar fresco. Eu precisava do barulho da cidade. Precisava do cheiro de asfalto quente. Precisava ser o Chef Romano de novo. Eu tinha que esquecer o homem que, por algumas horas, se perdeu na entrega absoluta de um garoto de trinta anos. — Você está bem, Enzo? — Chris me perguntou enquanto esperávamos os motoristas no hangar privativo. — Você está mais ranzinza que o normal desde que saímos do hotel em Vegas. Aconteceu algo que eu não saiba? Forcei um sorriso de canto, o meu habitual escudo de sarcasmo e superioridade, enquanto ajustava as abotoaduras. — Só trabalho acumulado, Chris. O Aurora não se gerencia sozinho — respondi seco. — Nem todos nós podemos viver de festas e romances de cinema. Alguns de nós têm impérios reais para gerir. Chris riu e me deu um soco amigável no ombro, um gesto de fraternidade que me fez querer recuar como se fosse fogo. Aquele toque, que antes era natural, agora queimava a minha pele com o peso da minha própria traição. Eu tinha dormido com o irmão da mulher dele. Tinha quebrado a regra número um do nosso pacto implícito. — A gente se fala amanhã? Jantar no Empire? — Chris convidou, com aquela animação que eu agora desprezava. — Veremos, Chris. Minha agenda está um caos — disse, entrando no banco de trás do meu sedã preto sem olhar para trás. Ignorei a figura de Luccas ajudando Victoria com as malas logo atrás. Eu não podia olhar para ele. Se olhasse, eu cairia. Mandei o motorista seguir direto para o Aurora. Eu não queria o silêncio do meu apartamento na cobertura. Eu precisava do caos controlado da minha cozinha, do calor dos fogões e do som das facas batendo na tábua de corte. Quando entrei pela porta dos fundos e vesti meu dólmã branco, senti como se estivesse finalmente vestindo minha armadura. — Chef! — meu sub-chef, Marco, saudou com surpresa evidente. — Não esperávamos você antes de amanhã. — O cronograma mudou, Marco. Como está a praça de carnes? Quero o inventário completo em dez minutos — ordenei. Minha voz cortou o ar da cozinha com a autoridade que eu tanto prezava, e a equipe imediatamente entrou em formação. Passei as seis horas seguintes sendo um carrasco implacável. Um monstro de perfeccionismo que não aceitava erros. Critiquei cada ponto de cozimento, cada grama de sal a mais, cada decoração de prato que não estivesse milimétrica. Eu precisava de algo que pudesse controlar, porque a imagem de Luccas Ashford era um caos que eu não dominava. O jeito como ele arqueava as costas, o som rouco do meu nome saindo da boca dele... aquilo era o meu inferno pessoal. Por volta das duas da manhã, quando o último cliente saiu e a equipe limpava o chão, a exaustão finalmente me atingiu. Sentei-me no balcão de granito da cozinha deserta com uma taça de um tinto pesado da Toscana, minha única companhia. O vinho tinha o gosto da minha terra, o gosto das mentiras e do sangue que me criaram e que eu tentei apagar. — Merda... — sussurrei para o vazio da cozinha, sentindo o peso da solidão apertar minha garganta com força. Minha mente traidora, como um filme de terror em looping, voltou para aquela manhã de sol c***l em Vegas. O olhar de desprezo e mágoa profunda de Luccas quando eu o chamei de "experiência" para me proteger. Eu quis retirar as palavras no momento em que elas saíram. O meu medo de ser vulnerável foi muito maior. O medo de que aquele garoto, com sua beleza rústica e sua entrega total, fosse a rachadura final no meu muro de gelo. Eu sou Enzo Romano. Eu fui treinado para não sentir. Eu fui criado para consumir e depois descartar o que não presta. Peguei meu celular, esperando encontrar notificações de fornecedores, mas havia uma mensagem de um número desconhecido. "Você pode fingir que Nova York é feita de pedra, Enzo. Mas eu ainda sinto o calor das suas mãos em mim." Li aquelas palavras e senti o ar fugir dos meus pulmões. O coração martelava contra as costelas com violência. "Você é um covarde se acha que o que aconteceu foi apenas um deslize. — L." Apaguei a mensagem imediatamente, como se o texto pudesse queimar meus dedos, mas o conteúdo já estava gravado. Meus dedos tremiam levemente enquanto eu colocava a taça de cristal sobre o balcão. Ele tinha razão. Eu era um covarde. Luccas não era como as modelos e herdeiras que eu deixava para trás com um colar de diamantes e um adeus frio. Ele não queria meu dinheiro ou meu prestígio. Ele tinha visto o homem sob o terno, o homem que ainda sangrava por dentro. Ele vira o Enzo que foi traído pelo pai e pela irmã na Itália. E isso o tornava a pessoa mais perigosa de Manhattan. Se ele soubesse o poder que tinha sobre mim, ele poderia me destruir com um único sussurro. Levantei-me e joguei o resto do vinho caro na pia, observando o líquido escuro descer pelo ralo como o meu juízo. Amanhã eu teria que ver Christopher. Teria que ver Victoria. E, inevitavelmente, teria que encarar o Luccas. Nova York era uma cidade imensa, um mar de concreto, mas o nosso mundo social era minúsculo e asfixiante. Eu sabia, com a precisão de quem conhece o ponto exato de ebulição, que a pressão entre nós só estava começando. Eu tentei apagar o fogo daquela noite com o gelo da minha indiferença, mas só tinha conseguido criar um vapor letal. E, em uma cozinha profissional, o vapor queima muito mais rápido e mais profundo do que a própria chama. Eu me sentia como um prisioneiro do meu próprio sucesso, trancado em uma vida que eu mesmo desenhei para ser solitária. Luccas era a luz que ameaçava expor todas as sombras que eu guardei por anos, todas as dores que me moldaram. Eu não podia deixá-lo entrar. Se eu deixasse, o Enzo Romano que o mundo conhecia deixaria de existir em um piscar de olhos. Mas enquanto eu caminhava para o meu carro sob a garoa fina de Nova York, a sensação das mãos dele ainda estava lá. Amanhã seria um novo dia de mentiras, de máscaras e de controle. Mas por quanto tempo eu conseguiria sustentar essa farsa? O banquete de Vegas deixara um gosto persistente na minha língua, um sabor que nenhum vinho ou tempero poderia apagar. Eu queria odiá-lo por me fazer sentir humano de novo. Mas, no fundo, eu só queria sentir o calor dele uma última vez. Entrei no carro e bati a porta, sentindo o silêncio me abraçar como um velho inimigo que eu aprendi a respeitar. Manhattan esperava por mim, e eu estava pronto para ser o monstro que ela exigia. Ou, pelo menos, eu ia tentar. O jogo estava longe de terminar, e as apostas agora envolviam o meu coração — a única coisa que eu jurei nunca colocar na mesa.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD